Memórias sobre o Concelho do Sabugal (44)

:: :: RUIVÓS :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja São Paulo - Ruivós - Capeia Arraiana

Capela do Apóstolo São Paulo – Ruivós

Eis aqui uma povoação que dizem ter sido outrora florescente e que decaíu consideràvelmente. É das mais antigas povoações do concelho do Sabugal, como asse- vera a tradição oral e escrita. O seu aspecto é actualmente desolador e triste, embora muito menos do que há poucos anos, porque muitas casas têm sido construídas nos últimos anos e outras restauradas, todas de alvo granito, a destacarem-se entre antigos casebres negros e derruídos pela acção do tempo.
Onde hoje existem hortas e mimosos quintais existiam outrora casas, como se prova pelos restos que têm sido encontrados. Perto do Largo da fonte existia uma atalaia, dando-se ainda hoje este nome ao sítio. Neste largo existe a um lado a fonte de água potável e noutro um fontanhão, destinado aos gados.
Ruivós nos tempos pré-históricos – Antas de Ruivós – Sepulturas cavadas em rochas
Transcrevemos do (Archeologo Portuguez» o que a tal respeito publicámos já e fazia parte desta memoria:
«Pobre freguesia do concelho do Sabugal, de que dista 13 quilómetros, Ruivós é das mais ricas arqueolàgicamente falando, pois que fornece não só restos de antigas casas, mas sepulturas abertas em rochas de granito, ou sejam da época romana, medievais ou pré-históricas, sendo esta hipótese a menos presumível, apesar de, a pequena distância, talvez a 20 metros, da pia que está na Tapada das Cruzes aparecerem claros vestígios de uma anta, cujo desenho já enviei (fig. 1.ª e 2.ª).
Sepulturas existem ainda a da Tapada das Cruzes, próximo da igreja de S. Paulo, uma no Curral dos Freixos, outra na Tapada da Lage, outra na Terra do Senhor, uma na Horta Cabeira e outra, já reduzida a metade, no Lameiro do Pombal, todas estas semelhantes às do Jarmelo e que constam do Relatório da Expedição Científica à Serra da Estrêla, e a muitas deste concelho, como as de Vale das Eguas, Sortelha, Badamalos, Aldeia de Santo António, etc.
Nenhuma tem cobertura, nem há memoria de quando fossem levantadas e todas são abertas em granito. A do Lameiro do Pombal creio que está orientada de norte a sul, e a da Tapada das Cruzes tem orientação diferente.
Das antas de Ruivós há restos apenas da que existiu na Tapada das Cruzes, e nem dos sítios haveria hoje notícia se não fora o benemérito padre Gaspar Simões, que paroquiou a igreja, como consta das Memorias Paroquiais e do Arqueólogo V. VII, pág. 76.
«Quando há poucos anos visitei aquela freguesia só um homem me deu notícias das antas, «que serviam para ali queimarem as dízimas», afirmava o Venâncio, indicando-me o sítio onde estiveram e as paredes em que foram empregadas as pedras de tão antigos monumentos».
«Perto da igreja de S. Paulo, que dista da povoação uns 600 metros, a Tapada das Cruzes, onde, como fica dito, há restos de um dolmen ou anta, para me servir do nome português e não recorrer ao nome dado pelo o sábio francês Legrand d’ Aussy, aos monumentos megalíticos, em 1799.
A Tapada das Cruzes fornece ainda material bastante para um estudo da antiguidade em Ruivós, com a sua sepultura num monolito de granito, restos de uma anta, tijolos e telhas a cobrirem ainda o terreno, sendo de sumir que muitos objectos antigos ali jazem, a maior ou menor profundidade.
A própria capela dão os naturais de Ruivós uma grande antiguidade, querendo que tenha sido mesquita.
A simples inspecção leva-nos ao convencimento de que era templo antigo, mas simples, sem a menor suptuosidade, se é que esta lhe não desapareceu com as reconstruções que tem sofrido, como se prova por uma lápide embutida na parede lateral. Tem dois arcos, um deles, o cruzeiro, em ogiva simples, se assim posso exprimir-me, e ambos de duro granito. A porta em arco é redonda, e no exterior nota-se, além dos contrafortes, os característicos modilhões, que se observam na Igreja da Misericórdia de Alfaiates, Santa Maria de Vilar Maior, Senhora do Monte da Cerdeira e Misericórdia da vila do Sabugal, em cuja parede existe também uma lápide, cuja inscrição não consegui ainda ler, e de que me ocupei a respeito de antidades do Sabugal. (Ver atrás, pág. 101).
Perto da fonte existem uns muros de quintais que deveriam ter pertencido a casas, sendo provável que umas escavações feitas ali dessem algum proveito.
Junto da igreja paroquial, que é moderna, existe o antigo reduto, que revela certa antiguidade. Foi o que consegui colher a respeito da freguesia de Ruivós».
Depois de publicado n’O Archeologo Portuguez o artigo que fica trasladado, vimos um extracto das «Memorias Parochiaes» referentes a Ruivós, em que o pároco da freguesia dá desenvolvida notícia a respeito das cinco antas que existiam no limite desta freguesia; duas no sítio da hermida da Sta Trindade, oito passos na parte anterior desta, outra em frente e a cem passos de distância, a terceira «na demarcação dos limites onde chamam Valdeiras».
A quarta ficava perto de S. Paulo, 400 passos ao norte da ermida e iuinta cem passos distante no prédio denominado Prado da Igreja.
Êsse distinto eclesiástico não lhe dava, porém, o nome de antas, mas o de altares.
Explorou este último e achou ali uma pedra «de pederneira, do cumprimento de huma pollegada e do feytio de húa costela de hum carneiro (faca de silex) e cinco de afiar quasi de cor azul claro e quasi do cumprinto de hum palmo e todas cinco do mesmo feytio, que são bem similha ntes ao ferro de húa juntoira de carpinteiro, porque de húa ponta são estreitas e de quatro quinas, e da outra são largas e chatas e nesta tem gume, bem similhante ao de húa juntoira, ou de hum malho: todas estas pedras guardo em minha casa para prova e memoria».
Eis á descrição que das antas fêz o referido pároco J. Gaspar Simões:
«Todos estes altares estão postos em campo raso com esta formalidade: que consta cada hum de cinco, ou seis ou sete pedras de doze ou quatorze palmos ou mais de cumprimento j as quais estão levantadas na terra em circulo, e arrimadas húas ás outras, e sobre elas assenta a pedra da mesa, ficando hum vão de bayxo redondo, como fica ditto: occupando cada hum dos altares quinze ou dezassete passos em circuito j e não menos, conforme a medida que a todos tenho tomado». Diz ele que as pedras de que fala serviam para «assacalar as do altar) e que os «altares forão feytos á imitação daquelles que Deos mandou fazer. . .) e que foram feitos pelos indígenas e estrangeiros que «tributavam humildes cultos (a Deus), offere- cendo-lhe sacrificios pelos cautos e pacificos segundo o preceyto do Exodo, cap.20, Deuter. Cap. 27. Josué cap. 8…» (Memorias Parochiaes T. XXXII, fl. 1072. O Archeologo Portuguez, vol. VII, pág. 76 a 78).
Este mesmo pároco fez menção de sepulturas de mármore, nome que nesta região se dá às rochas graníticas firmes, porque mármore não existe ali. Vimos no «Portugal Antigo e Moderno» que os objectos de pedra (machados e facas) foram enviados para a Biblioteca de Évora não sei há quantos anos.
Convém dizer ainda a respeito das antas de Ruivós que apenas vimos os restos da que havia na Tapada das Cruzes, tendo ainda três grandes pedras, medindo uma seis palmos de altura e outra nove palmos e meio e dois e meio de espessura.
No espaço compreendido entre as três pedras fizeram com pedra miúda uma tôsca parede, convertendo o velho monumento num redil ou chiqueiro de cabritos.
Numa das pedras há vestígios de a quererem partir, tendo cinco cunheiras ou fossas destinadas às cunhas com que os pedreiros costumam abrir os rochedos. O artista desistiu, ou porque a pedra” resistisse aos golpes da marra ou porque algum amante de antiguidades o impedisse de destruir monumento de outros tempos.
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Falámos da igreja de S. Paulo e devemos ainda acrescentar que era nela que faziam os enterramentos, antes de edificarem o cemitério paro- quial, que fica ao lado sudeste da mesma.
Haverá trinta e tantos anos (antes de 1905) ainda se celebrava em Ruivós a festividade dos Passos, e então, junto à frontaria desta igreja, representava-se a tragédia do calvário. Da igreja paroquial saía a procissão, Jesus com a cruz às costas, S. João e a Virgem, uma escolta de soldados vestidos à romana, comandados pelo centurião, ouvindo-se em todo o longo trajecto entre as duas igrejas o som rouco da trombeta romana, tocada por um desgraçado, o calhorra, envolto em manto amarelado. Este papel era sempre desempenhado por algum mendigo, a quem davam 1200 réis, porque tão odioso era que ninguém se prestava a aceitá-Io e sofrer o risco de ser apedrejado, o que quase sempre sucedia. A cêna do calvário era representada tanto quanto possível ao vivo. Um soldado levava a esponja, embebida em vinagre, na ponta da sua lança, tocando com ela na boca de Jesus, outro dava-lhe um golpe de lança. (Ver atrás, pág. 68)
O pregador ao mesmo tempo fazia chorar a multidão que enchia o grande largo, onde se realizava uma pequena feira, e depois os padres executavam a cerimónia do descendimento da cruz.
Já atraz nos referimos, com pormenor, ao Passos de Ruivós, não re- petindo, por isso, o que dissemos. (Vêr pág. 68)
Conta-se também que em Nave de Haver o Senhor dos Passos era um mendigo, a quem pagavam para levar a cruz e que um dia um espanhol, suspeitando de que era realmente de carne e osso, deu-lhe uma picada com uma navalha e tão forte ela foi que o fingido Senhor dos Passos, saltou do andor, atirou com a cruz para fugir à morte, o que causou grande reboliço.

O Barão de Ruivós
Em 1835 era Barão de Ruivós Francisco Saraiva da Costa Rofoyos, que tinha muitas propriedades nesta freguesia, onde era quase o único proprietário, recebendo grandes rendas e foros. Conta-se que em tempos um dos rendeiros ou foreiros foi pagar à vila a parte que lhe dizia respeito. O fidalgo Saraiva, não sabemos qual deles, mas cremos que foi aquele que deixou um exército de bastardos, mandou entrar o homem, João Leitão, para a sala de jantar, não lhe oferecendo cousa alguma, fazendo-lhe várias preguntas e pedindo novidades.
O João Leitão, empertigado, em tom de despeito, respondeu logo: A grande novidade que vi é que uma vaca lá da terra pariu cinco bezerros!
– Cinco?
– É verdade!
– Então o quinto não tem onde mamar?
– Saiba V. Ex.a que o quinto faz como eu, jejua.
O fidalgo, compreendendo a alusão, mandou-lhe servir o jantar.
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Ruivós está edificada no tôpo dum vale que termina perto da igreja matriz da Nave, onde tem o nome de Valdeiras ou Baldeiras, como também alguns lhe chamam.
Como vimos, a povoação é muito antiga, mas por motivos que ignoramos decaiu consideràvelmente.
Em 1708 contava ainda 100 fogos, em 1757 apenas tinha 50 e em 1889 tinha somente 45 fogos.
Em igual época, isto é, no século XVIII contava o Souto simplesmente 30 fogos, a ser verdadeira a estatística que os corógrafos nos deram e actualmente, como veremos, é uma das mais florescentes povoações do concelho do Sabugal.
A causa da diminuição da população ninguém a sabe explicar. A conseqüência que de tal facto resultou foi a transmissão das pro- priedades para indivíduos doutras povoações, especialmente da Ruvina, que, ao contrário de Ruivós, tem prosperado consideràvelmente.
Segundo ensina a tradição, as duas povoações eram dois grandes ca- sais, pertencentes à mesma família, que tinha o apelido de Ruivos. O irmão ficou no sítio de Ruivós, que teria primitivamente sido Ruivos e a irmã foi para o sítio da Ruvina, que primeiro dizem ter sido Ruivinha.
Entre Ruivós e Ruvina há ainda um sítio denominado o do Ruvino, o que dá foros de verosímil à lenda das duas povoações.
Houve em tempos em Ruivós uma família da qual se tornaram notá- veis dois homens, dois irmãos, dos quais a tradição transmitiu ainda o nome dum.
João Domingues se chamava este hércules, pois que a sua estatura e fôrça hérculeas é que o tornaram notáveis.
Existe na Ruvina uma casa ligada ao nome desse homem, ao fundo da povoação e pertencente a José André. Quando estavam a subir a trave da casa viam os homens empregados na obra que perto vinha o João Domingues e combinaram convidá-lo e para verificarem a fôrça dele deviam largar a trave. Assim foi, todos puzeram ombros à trave que foi subindo a pouco e pouco; mas a um sinal dado todos largaram a trave, mas o hércules, vendo a cilada gritou: «Morra um homem, fique fama! e colocou a trave na parede. Depois, descendo do andaime, dirigiu-se ao sítio onde tinham colocado um cântaro com vinho, bebeu-o também só e seguiu para Ruivós, deixando boquiabertos os que o tinham traído. A mesma tradição afirma que a verga duma porta na Ruvina foi também colocada só por ele.
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O capitão Moura tornou-se muito notável nos fins do 1.° e princípios do 2.° quartel do século passado.
Era descendente dele o falecido Manuel Moura, que morreu no mesmo dia que a mulher, natural de Vale de Espinho.
Estava ela gravemente enfêrma e ele, por um equívoco lamentável, em vez de lhe dar um medicamento que estava num frasco de vidro, deu-lhe arsénico destinado a extinguir os ratos.
Ela morreu e ele ao reconhecer o terrível engano tomou o mesmo remédio, morrendo também. Foi uma tragédia que emocionou todas as povoações vizinhas, porque ambos eram estimados.
E já que estamos falando de acontecimentos trágicos, diremos ainda que à entrada da igreja de S. Paulo foram enterrados três indivíduos, um deles de Vide Monte, mortos pelos soldados que os perseguiam por fazerem parte duma guerrilha nesses terríveis tempos de convulsões políticas.

Igreja paroquial de Ruivós e ermidas
A antiga igreja paroquial era a de S. Paulo, de que já falámos, que é antiquíssima e construída de boa cantaria, e que durante muitos anos esteve arruinada, sendo depois restaurada e substituídas por alvenaria as camadas de cantaria primitivas. Na parede do lado direito, próximo do cunhal, vê-se uma lápide e outras pedras ali colocadas quando a igreja foi restaurada. A igreja actual foi edificada no século dezóito, tendo proporções regulares e estando decentemente ornada. Tem três altares, regularmente ornados. O orago é N. S.ª das Neves.
Era o pároco de Ruivós da apresentação do Reitor da Nave, tendo 24.000 reis de côngrua, além do pé de altar.
O adro é cercado de muros, erguendo-se nele, à direita da igreja, um campanário, em cujas ventanas há dois sinos e à esquerda pode ainda observar-se parte do muro do antigo reduto, construído de pedra e cal. Nesta igreja estão as imagens que outrora figuravam na solenidade dos Passos.
Depois do falecimento do PADRE COSTA, natural de Aldeia da Ponte, não tornou a residir em Ruivós outro pároco, sendo o da Ruvina e depois o da Bismula autorizados a binar.
O rendimento paroquial é o seguinte: Côngrua, 58.000 reis; pé de altar, 18.000 reis.

Produção
Ruivós produz centeio, castanha e batata e, noutros tempos, muito vinho, antes da invasão filoxérica. Tem muitos bons lameiros e boas hortas, mas, como já dissemos, a mor parte dos prédios de Ruivós pertencem a indivíduos doutras freguesias, especialmente da Ruvina, que fica a 2 quilómetros mais ou menos.
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Joaquim Manuel Correia

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