Memórias sobre o Concelho do Sabugal (43)

:: :: RENDO :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz de Rendo - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Igreja Matriz de Rendo – Sabugal

Há quem diga que o nome desta freguesia deriva do nome horrendo que lhe davam outrora por ser muito feia a povoação. Que esta não é uma aldeia bela, no rigoroso sentido desta palavra, é ponto incontestável. Efectivamente o seu aspecto é rude, no conjunto de casas tôscas e denegridas, onde a cal não teve de intervir com seus efeitos higiénicos e aformoseadores; mas aquele ar primitivo de casebres acastelados, assentes em rochedos, entre quintais mimosos e hortas arborizadas, com aros de frescas latadas verdejantes, fazendo contraste com a sua alvinitente e espaçosa igreja, a destacar-se na orla da estrada, dão-lhe um não sei quê de grave e pitoresco.
Fica seis quilómetros a nordeste do Sabugal, na margem direita do Côa, de que dista uns dois quilómetros. É uma das povoações mais antigas do concelho, mas tão refractária tem sido aos progressos que, como vimos, o seu aspecto é rude, as casas singelas e tôscas, com raras excepções. Apesar do seu clima ser bastante frio, é terra abundante em todos os produtos próprios do concelho, especialmente centeio, cevada, trigo, batatas e legumes. Tem grandes soutos de castanheiros a sudeste, havendo alguns de proporções colossais, muitas vezes seculares, e muitos carvalhos e árvores frutíferas, entre outras o mostajeiro.
São extensos os limites de Rendo e em todos eles há belíssimas pastagens, prados naturais e lameiros, onde apascentam seus gados os vizinhos.
É digna de menção especial a Fôlha da Tôrre.
Fica a Nordeste da povoação este imenso tracto de terreno de logradouro comum, que de três em três anos costuma ser dividido por todos os vizinhos para cultura de centeio, ficando nos dois restantes de pousío, e então aproveitado para todos nele apascentarem seus gados.
Consta que a Fôlha da Tôrre era foreira e isso ouvimos há poucos anos a um dos co-herdeiros dos últimos senhorios directos, o sr. Júlio Couceiro, proprietário em Lisboa; mas sendo demandados judicialmente e não prosseguindo a questão; porque a povoação se amotinou e os autores intimidaram-se, pois que um oficial de diligências teria sido vítima se não consegue esconder-se, não pagaram os foros um período excedente a trinta anos.
Junto da Lameira da Tôrre existe uma ermida, da invocação da Senhora da Tôrre, que esteve longos anos profanada e sem telhado; mas, sendo restaurada, ali se realiza todos os anos uma festa.
Perto desta ermida há um outeiro, coberto de enormes rochedos graníticos, coroado por formidável paralelepípedo que se destaca e avista mais que os restantes rochedos. Talvez sobre ele houvesse alguma tôsca tôrre ou atalaia que desse o nome ao sítio. Na base deste outeiro há restos de habitações antigas e abundantes telhas e tijolos.

Igreja paroquial
Na orla da estrada principal que liga o Sabugal a Rendo e Vila Boa e que deve continuar até Alfaiates e Aldeia da Ponte, fica a igreja paroquial, uma das mais amplas e bem ornadas do concelho, onde, entre outras imagens, se venera a do orago da freguesia, que é S. Sebastião.
Diz-se em Rendo que o arquitecto da igreja foi assassinado ali pelos parentes duma donzela a quem ele seduzira ou pelo menos difamara, negando-se depois a desposá-Ia.
No adro da igreja é o cemitério paroquial, o que é pouco de louvar, não só por ficar contíguo à estrada, mas por ter de ser atravessado pelos vizinhos quando vão à igreja.
Vímos em corografias antigas que tinha em 1757 apenas 188 fogos mas no Districto e Diocese da Guarda diz-se que no fim do século XVII tinha 110 e 440 almas. Será fácil explicar a diferença atribuindo-se esta população só à povoação de Rendo, não incluindo os outros lugares.
Em 1889 tinha 315 fogos juntamente com os lugares que lhe pertencem; mas na obra citada vê-se que tem 241 fogos e 888 almas. No meio da povoação existe uma capela da invocação de Santo António, que está muito decente. Perto fica a casa da escola, feita à custa dá freguesia há poucos anos. A escola é já antiga.
A população de Rendo é muito dispersa, constando de Rendo propriamente dito, Lamelas, que tinha em 1889 apenas 7 fogos, Palhais, do lado oriental da povoação, que tem uma ermida, e, além destas, Pouca Farinha e Cardeal.

Pouca Farinha
É uma pitoresca e mimosa povoação, banhada por uma ribeira que nasce perto da Tôrre, povoação pertencente à freguesia do Sabugal e próxima do Ozendo. Fica na margem esquerda dessa ribeira, a que se junta a ribeira da Morganheira, tomando os nomes de Pouca Farinha e Palhais, juntando-se-lhe depois o abundante ribeiro do Freixal, que limita a Fôlha da Torre e desagua no Côa, junto de Caria Atalaia.
Pouca Farinha tem ao centro uma igreja decentemente ornada, da invocação do Divino Espírito Santo. A sua população é de 30 fogos.

Cardeal
A três quilómetros, aproximadamente, de Rendo, ao sul duma encosta muito abrigada, fica o Cardeal, povoação que tem 56 fogos e que denota ser muito antiga, tendo até um reduto. Perto do Cardeal diz-se ter existido uma povoação, naturalmente um castro, como se depreende do sugestivo nome Acampamento dos Mouros, que alguns lhe dão ainda, situada num elevado e pedregoso outeiro, a nascente da povoação actual.
Diz-se que o nome de Cardeal derivou do facto de ali haver muitos cardos, mas a lenda não se contenta com tal explicação e ainda lhe dá outra.
O pároco de Rendo era da apresentação do Arcediago do Coa, no tempo em que pertencia ao Bispado de Lamego, recebendo 40.000 reis de côngrua. Actualmente é uma das mais rendosas freguesias, apesar de trabalhosa para o pároco, em virtude de serem muitos os lugares de que se compõe. O rendimento paroquial, segundo as declarações dadas pelo falecido pároco padre ANTÓNIO ANTUNES DOS SANTOS, natural da Nave e orador de fama, é a seguinte,: .
Côngrua, 98.000 reis; passal, 10.000 reis e pé de altar, 92.000 reis. O orago da freguesia era outrora Santa Maria Madalena e era taxada em 1359 (1321 da era cristã) em 8 libras. Cada libra valia 36 reis e 20 soldos e o soldo 1 real e 4 quintos do real (Diocese e Districto da Guarda, pág. 504).
Em 1897 responderam no tribunal da comarca do Sabugal, Francisco Salgueira, Cândido Salgueira e um outro irmão, bem corno José Taberneiro, todos de Rendo, acusados de terem assassinado Francisco Grácio, empreiteiro da estrada de Rendo a Vila Boa. Os três ficaram condenados, sendo o segundo em prisão correccional por espaço de quase dois anos e os outros dois a pena maior. A sentença não foi bem recebida, pois que o Grácio foi assassinado pelo Cândido, que confessou o crime, alegando a justa defesa. Realmente, tendo este confessado e aprovados os quesitos respectivos, nunca os co-réus deviam ter pena superior. Houve apelação da sentença, mas esta foi confirmada nas instâncias superiores, contra toda a espectativa.
O certo é que os prêsos evadiram-se da cadeia em companhia de um outro, que pouco depois foi recapturado. Um dos fugitivos, o José Taberneiro, refugiou-se em VaIverde, onde casou e, tendo urnas desavenças com o sogro, matou-o e em seguida suicidou-se, segundo constou.
Os dois Salgueiras não tornaram a ser prêsos, apesar de repetidas diligências nesse sentido, sendo dadas buscas a várias casas e batidos os pinhais de Rendo e do Sabugal, sem o menor resultado.
O arrombamento fora feito no soalho do tribunal, que servia de tecto à enxovia. A operação foi feita cautelosamente, perfurando as tábuas com ferros em brasa e para isso colocaram as arcas da roupa umas sobre outras. Chegados à sala do tribunal arrombaram as portas e desceram temeràriamente pela escadaria, aproveitando o momento de a sentinela, ao passear em frente do edifício, marchar em direcção à casa da câmara. Houve quem visse passar os quatro homens descalços, mas, como nada suspeitasse, não lhes embargou os passos.
O carcereiro percorreu várias terras em busca deles, mas seguiu rumo oposto ao que eles seguiram. Foi pronunciado, perdeu o lugar e respondeu pela sua falta, aparentemente grave, mas na realidade nula, porque nenhuma culpa tivera.
Os Salgueiras estiveram alguns meses dentro da comarca, mas ninguém os denunciou, seguindo depois para Espanha. A evasão causou a melhor impressão a toda a gente, porque a pena foi superior ao crime. É digna de nota a dedicação do Cândido que, faltando-lhe apenas um ano para expiar a pena, acompanhou o irmão para Espanha.
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Joaquim Manuel Correia

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