Memórias sobre o Concelho do Sabugal (41)

:: :: RAPOULA – Caldas do Cró :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz da Rapoula do Côa - Capeia Arraiana

Igreja Matriz da Rapoula do Côa (foto: rapazão)

Na margem esquerda do rio Côa e a pouca distância dele, numa encosta e à distância de 14 quilómetros a N. N. E. do Sabugal, assenta a antiga e vistosa freguesia da Rapoula, terra abundante em centeio, trigo, batata, feijão e outrora bastante vinho, antes da invasão da filoxera.
Tem poucos combustíveis. Diz-se que foi fundada pelos Templários Tem boas veigas na margem do Côa.
A igreja paroquial é de construção recente, porque a antiga era pequena para a população, que em 1757 tinha apenas 69 fogos e actualmente 104 e 460 almas. No belo livro «Distrito e Diocese da Guarda» vê-se que em fins do século XVII tinha 120 fogos e 480 almas, mas nas corografias antigas vimos que tinha 69 fogos em 1757. Todos podem ter razão. Nós não temos, porém, elementos para asseverar que a população diminuísse e achamos isso pouco provável.
Foi criada em 1895 a cadeira elementar mista. A casa da escola foi edificada pela junta de paróquia, mas em tão más condições que não foi logo aprovada.
O cura era da apresentação do vigário de S.tª Maria, da Vila do Touro, e recebia 7.500 reis de côngrua, além do pé de altar. O orago da freguesia é Sta Maria Madalena.
O rendimento paroquial actualmente vai adiante indicado, segundo as declarações do reverendo padre Francisco Martins de Barros, que era natural da Rebolosa, e paroquiou muitos anos a freguesia, onde era muito estimado, falecendo de avançada idade. Os colegas tratavam-no pela alcunha de Pontífice, por se parecer um tanto com Pio IX.
Rendimento: Côngrua, 75.000 reis; rendimento do passal, 2 chãos, 5.000 reis; pé de altar, 10.000 reis; casamentos, 200 reis; baptisados, 300 reis; enterramentos de menores, 100 reis e bens de alma, 5.060 a a 10.000 reis.
É natural da Rapoula, o p.e AUGUSTO CARRETO, director do Hospital do Telhal, que em 1910 foi prêso nas Caldas da Rainha, mas sôlto no dia seguinte, por ordem vinda de Lisboa, a pedido de Augusto J. da Cunha, que no Telhal tinha um filho internado (Nota 1).
Banhos do Cró
A seis quilómetros da estação da Cerdeira e a 15 da sede do concelho há um bom manancial de águas medicinais no sítio denominado o Cró. Só há poucos anos foram convenientemente estudadas, embora tenham justificada fama as suas virtudes terapêuticas.
À iniciativa particular se devem algumas análises feitas às águas do Cró.
Uma das análises deve-se à iniciativa do Ex.mo Sr. Dr. José Diniz da Fonseca que ninguém poderá exceder em esforços e entusiasmo pelo que toca à exploração e melhoramentos destas termas. Mandou examinar as águas ao notável químico do Pôrto, Dr. Ferreira da Silva, e tentou a constituição duma emprêsa, que, infelizmente, não chegou a realizar-se.
Já o falecido e rico proprietário da Malhada Sorda, Fr. Cardoso, a quem estas águas fizeram grande benefício, quiz contractar com a Câmara do Sabugal a exploração delas e edificação dum estabelecimento balnear, mas desejando a concessão por 99 anos a Câmara não aceitou, com o pretexto de que faria as obras por conta própria. Perdeu-se uma bela ocasião de fazer um melhoramento tão importante e as Câmaras nunca fizeram obras no Cró, votando ao maior desprêso estas preciosas águas, no que merecem as maiores censuras.
Se não dispunham de capitais, podiam contraír um empréstimo para realizar no Cró os melhoramentos indispensáveis, com que beneficiavam os povos desta região, podendo tirar os lucros correspondentes.
Há quem diga que a primeira obra a realizar seria a mudança da ribeira, junto à qual nascem as preciosas águas; mas há também quem sustente, e dessa opinião somos nós, que tal mudança, longe de beneficiar as águas., pode alterar as suas qualidades terapêuticas, que podiam perder tipo que as caracteriza e distingue doutras.
Era fácil suceder que com o desvio da ribeira sofressem as águas qualquer alteração e talvez desviar-se, o que seria um grande prejuízo.
Dizem outros que a mudança podia tornar as águas mais quentes e o sítio mais salubre. Concordamos em que o sítio ficasse em melhores condições higiénicas, mas cremos que a temperatura das águas nem diminuiria, nem as tornaria melhores tal mudança.
Tais como são, têm grandes virtudes terapêuticas, tendo feito curas admiráveis e por isso seria uma temeridade fazer a mudança, que poderia dar logar à modificação das qualidades destas belíssimas águas medicinais, cujas virtudes terapêuticas são tão conhecidas e apreciadas.
J. B. de Castro, escrevendo a respeito delas nos diz: «que as águas da ribeira do Boi são sulfurosas, onde se tem descoberto para estupores e debilidades de nervos».
Delas falou Duarte Nunes de Leão e outros, como vimos. Especialmente se referiram a elas os falecidos Pinho Leal e José Adelino de AImeida.
Aquele escritor disse:
«Na margem esquerda do rio Côa, e à raiz dum pequeno monte distante três quilómetros da povoação (RapouIa) nascem três mananciais de água sulfurosa, cujo cheiro se conhece a mais de 60 metros de distância (e de 400′”). É límpida e transparente e de sabor enjoativo e algum tanto amargo. Deposita na sua passagem um lodo amarelo, que depois de sêco e lançado ao fogo arde com chama, espalhando um cheiro sufocante a enxôfre.
Nas nascentes veem-se estalar na superfície muitos bolhões de gaza A temperatura destas águas, na nascente, é de 94 a 100 graus F. ou 27 e 3/9 a 30 1/3 de R. É mineralizada pelo gaz hidrogénio sulphorado e contém substâncias salinas, tais como muriatos de soda e calcáreo e alguns de magnésio. Não tem ferro nem outra alguma substância metálica.»
Vê-se que este escritor tinha indicação da análise qualitativa, mas nada nos diz da quantitativa.
Como dissemos, foi feita há poucos anos a análise rigorosa, que deligenciaremos conhecer e publicar.
Dizia o mesmo escritor que:
«Não há aqui nenhuma comodidade para que os doentes possam tomar banhos.
Apenas existe urna pequena pia de pedra, onde os pobres se banhavam (e podia acrescentar que também os ricos), sem o mínimo resguardo, pois nem uma insignificante choupana ali se vê.»
Queixava-se com razão o malogrado escritor; mas na época em que ele escreveu já ali existiam algumas casas, senão confortáveis, ao menos para livrarem das chuvas quem as alugasse. O que deve dizer-se, em abono da verdade, é que ainda agora não há senão a tal pia para tomar banhos frios, porque os quentes tómam-se em casa depois de convenientemente aqueci da a água.
Com uma despeza insignificante podia a Câmara ou alguma emprêsa particular construir um edifício, onde houvesse um tanque ou piscina para banho geral, e algumas banheiras para quem dispuzesse de mais dinheiro, já que não é lícito esperar maiores melhoramentos (Nota 2).

A fontinha
A Nascente do Cró fica na margem direita da ribeira do Boi, junto do leito deste, a 300 metros pouco mais ou menos da confluência desta ribeira com outro ribeiro denominado o Bezerrinho, a pouco mais dum quilómetro do Côa e na margem esquerda deste rio.
A água da nascente corre para uma pia de pedra, no fundo da qual nasce também água sulfurosa pelas fendas praticadas na dita pedra. E desta pia que tiram água para os banhos, sendo também vulgar tomar-se ali banho ao ar livre, mas de noite, o que às vezes produz consequências fatais.
No meado do século passado foi feito um poço para banho comum, cercado de um muro alto e com a respectiva porta, mas sem telhado. Era uma piscina tôsca, mas que desapareceu já, porque a falta de asseio com que estava e o facto de aparecerem ali cobras deram motivo ao abandono.

A lenda das águas e a Senhora dos Milagres
Conta-se que em tempos não muito remotos um dos ascendentes do conde da Guarda, que na freguesia do Seixo tinha vastas propriedades, teve notícia destas águas e, sofrendo gravemente de reumatismo, resolveu experimentá-las, mandando construir perto da ribeira, margem esquerda, uma pequena casa.
Tão feliz foi, fazendo uso das águas, que considerou o caso como milagre e mandou erigir uma ermida na encosta da serra do Seixo, com a invocação da Senhora dos Milagres, fazendo depois uma casa para ermitão.
Certo é que não só o conde, mas muitas pessoas mais, ou crendo nos milagres da Senhora, ou nas virtudes terapêuticas das águas, ali iam todos os anos.
Levantavam então barracas, cobertas de colmo, de modo que o Cró nesse tempo tinha o aspecto de pequena povoação africana. Depois correu a notícia das muitas curas de doenças de estômago e de reumatismo e foi aumentando a concorrência de gente de várias terras mui distantes, de vários concelhos e até do reino vizinho e começaram construindo casas. Uma das primeiras foi mandada edificar pelos padres João Correia e Murcela, na margem direita da ribeira do Boi. Outras foram edificadas, havendo em 1885 ali quatro casas regulares, com cozinha comum e banheira. Depois disso outras mais foram construídas. Antiga é também a casa feita pelo velho abade de Quadrazais.
Na margem esquerda existem as chamadas casas da Latada e outras, sendo a melhor perto da ermida e pertencente à família do Ex.mo Sr. Dr. J. Diniz da Fonseca.
Ao mesmo tempo que as águas se tornavam conhecidas, aumentou a devoção pela Senhora dos Milagres, que todos os anos tem a sua festa com sermão, missa cantada, música, foguêtes e uma pequena feira.
Na procissão costumam levar juntas de vacas com sacos de esmolas, e nela vão muitos devotos, alguns amortalhados.
Nas paredes da igreja há muitos ex votis de cera, tranças compridas e outros objectos e alguns quadros alusivos a milagres da Senhora dos Milagres.
No verão o Cró transforma-se numa povoação animada, divertida, porque ali concorre gente de muitas terras. Não faltam comestíveis, pão, carne, leite, boa caça e óptimo peixe, trutas, enguias, barbos e bogas, e outros géneros alimentícios. Há tabernas, e pequenos estabelecimentos comerciais, onde se vende o mais indispensável.

Diversões
Como é natural, as famílias aproximam-se, relacionam-se passados poucos dias e reúnem-se à noite, dançam, cantam e entretêm-se alegremente.
De manhã cêdo tomam água na fonte, simples ou com leite, e dão grandes passeios pela estrada da Cerdeira ou do Sabugal; à tarde tomam outra vez águas e vão passear para vários pontos, sendo curioso ver todos os banhistas passeando.

A Serra do Seixo
É um dos passeios obrigados a visita a esta elevada serra, cercada de penhascos de alvíssimo quartzo e em parte revestida de pinhais, giestas, bela-luz e rosmaninho, e donde se descortina um vasto horizonte.
Vive-se no Cró como que em família, numa agradável convivência e bem-estar.
Dos concelhos da Guarda, Penamacor, Almeida, Pinhel, Castelo Rodrigo e de Espanha, não falando do concelho do Sabugal, concorre ali muita gente, atraída pela fama destas águas.

O passeio das águas
É curioso ver de manhã os grupos de banhistas junto da fonte, donde se erguem vapores, beber copinhos de água tépida indo depois passear para os lados da serra em cujos píncaros incidem os raios do sol. Pastores :om bons rebanhos de cabras procuram seus fregueses a quem vendem leite acabado de mungir.
Infeliz do que beber um copo de água e não der em seguida um passeio, que fatalmente há-de sentir grande incómodo.

Os banhos
Além dos banhos frescos que alguns tomam ao ar livre, embora já raramente, pelos perigos que oferecem, tomam-se em casa banhos quentes, aquecendo previamente as águas, lançadas depois em banheiras de fôlha ou de granito.
Cada banho custa 50 reis, módico preço, atendendo à falta de combustíveis, carvalho, giesta, carvão e lenha de pinho ou amieiro.
Em 8 de Setembro de 1885 contámos no Cró 180 pessoas e em igual dia de 1893 contámos 240 e 300 em 1896.
Nota-se cada vez mais a falta de casas, duma hospedaria e muitas cousas mais; mas o que mais se precisa é um bom edifício balnear com piscinas para pobres e para abastados, com as comodidades exigidas para estabelecimentos desta ordem, satisfazendo as necessidades dos doentes e as ,prescrições da ciência. Devia tal estabelecimento ter uma dependência para recreio dos banhistas, porque está mais que provado que para a eficácia das águas muitas vezes concorre a boa disposição de espírito dos doentes.

Nota 1 – Era administrador do concelho das Caldas o A., que em dias de tanta responsabilidade para o prestígio e futuro da República, de que foi até morrer um dedicado partidário, soube fazer respeitar o princípio da autoridade e da Lei, impondo-se ao respeito de todos, tendo sido apoiado pelo Governador Civil, Dr. Raposo de Magalhões e pelos Ministros do Interior e Justiça, Drs. António José de Almeida e Afonso Costa e pelo Directório do Partido. O Padre Carreto, que ele não conhecia, não soube que era seu quase patrício.
Poucas semanas depois abandonou a política, mantendo embora sempre os seus ideais, contando a sua acção e impressões em Memorias, que deixou inéditas. – F. C.
Nota 2 – Actualmente estão realisados os votos do A.
No Cró existe, agora, um excelente balneário, correspondendo às exigências modernas, bem como uma boa pensão. O A. ainda pôde visitar as novas instalações, que excedem o que previra e o deixaram encantado.
Veja-se a respeito da Bibliografia sobre o Cró, o livro Águas de Porfugal- VI vol. do Eng.º Luiz Acciaiuoli, ilustre Inspector Chefe da Inspecção de Aguas.

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Joaquim Manuel Correia

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