Memórias sobre o Concelho do Sabugal (37)

Joaquim Manuel Correia - © Capeia Arraiana

:: :: QUADRAZAIS (1) :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja do Cemitério de Quadrazais - Sabugal - Capeia Arraiana

Capela de Santo António em Quadrazais – Sabugal

Fica esta povoação distante do Sabugal oito quilómetros, nas faldas da serra de S. Gens, na margem direita do rio Côa, que passa a poucos quilómetros de distância, no sopé da serra das Pernadas, coberta de torga e urze, carqueija, abetoiro e outros arbustos mais, que no tempo da florescência dão àquela serra um aspecto encantador.
Falar de Quadrazais não é fácil emprêsa, especial como é o modo de vida de seus habitantes, os costumes, a linguagem, o carácter, que tornam esta povoação distinta entre todas as outras do concelho do Sabugal.
O seu aspecto é miserável. As casas são geralmente tôscas e de pequenas dimensões, insuficientes para a população da freguesia; para fazer-se uma pequena ideia a tal respeito bastar-nos-ha dizer que numa casa com pouco mais de seis metros quadrados e onde a curiosidade nos levou, vimos duas famílias, alojando-se nela também um cavalo. Um rude, tôsco tabique separava a parte destinada a cada família, cujos membros numerosos viviam em tanta promiscuidade.
Sob o mesmo tecto e apenas separados por alguma cancela ou simples tabique, vive a família e os animais (cavalos, porcos e galinhas), quando não têm meio de os alojar noutro sítio.
Causou-nos dó tanta miséria, indiferentemente olhada pelos poderes públicos.
A porta das casas está geralmente aberta e através dela vê-se a cantareira, cheia de pratos de várias formas e feitios, alguidares e malgas e na base os tôscos, disformes cântaros de barro.
O chão é sempre bem varrido e as louças muito limpas tanto quanto pode conseguir-se em casa de telha vã e por solhar.
Em 1889 estavam ainda as ruas por calcetar; as estrumeiras substituíam as calçadas e nelas se desenvolviam as naturais fermentações.
A povoação ocupa uma área insignificante relativamente ao número dos habitantes, tendo por isso falta de casas, a ponto de nalgumas, de exíguas dimensões, viverem três e quatro famílias, em condições tão pouco higiénicas que causava assombro como a vida era compatível com elas.
Eram de prever as consequências do abandono a que a freguesia fora votada e a que as péssimas condições higiénicas dariam lugar. O tifo, a varíola e outras doenças contagiosas tomaram conta de terrível foco de infecção e dizimaram os habitantes laboriosos de Quadrazais. A varíola só num ano vitimou 120 crianças.
Os habitantes, aterrados, pediram providências e justo é dizer-se que nos últimos anos algumas ruas foram calcetadas e alguns benefícios ali foram modificar as condições higiénicas da povoação, embora insuficientes.
Diz-se que a freguesia pertenceu outrora ao Conde de Rezende, Almirante Mor do Reino, e que, reunindo-se os vizinhos, remiram o foro por sete arrobas de prata.
Indicaram-me uma casa que foi do antigo senhorio, situada na rua do Castelo, nome assaz sugestivo, que nos traz à mente a ideia da possibilidade de ter ali havido um castelo, o que não deve causar surpresa, porque outrora havia fortificações na mor parte das aldeias, havendo vestígios delas em Ruivós, Cerdeira e Casteleiro.
Fora da povoação vimos também umas ruínas num sítio denominado Hospital, nome igualmente sugestivo, que nos revela ter ali existido algum hospital ou em ocasião de ali grassar alguma epidemia ou depois da grande derrota que ali sofreram os espanhóis no tempo da Restauração, infligida pelos moradores em 1651 («Portugal Restaurado», 2.° T., pág. 366).
A recordar o antigo senhorio da povoação está ainda na encosta de S. Gens a fonte de D. João, donde brota água em extraordinária abundância, sendo aproveitada para irrigações de muitos prédios e para usos domésticos.
Além desta nascente formidável havia no centro da povoação outra fonte abundante, cujas águas, de belíssima qualidade, foram conduzidas para um chafariz, que a Câmara mandou construir em 1903, o qual, além de embelezar o local, o tornou mais higiénico.
Dissemos que a freguesia foi foreira ao Conde de Rezende, Almirante Mor do Reino.
Efectivamente é verdadeira tal afirmação. O conde de Rezende costumava ter arrendados esses foros. Em 1748 foram arrematados os foros que tinha no concelho do Sabugal e Sortelha. «D. António José de Castro… Perclarissimo almirante de Portugal», diz a escritura lavrada no seu palácio da Calçada do Combro, freguesia de Sta Catarina em Lisboa, arrematados, dizíamos, por sete anos, «por António Soares Mendonça Brandam».
Na procuração transcrita no traslado da escritura, que nós vimos e tivemos em nosso poder, pertencente à Ex.ma Sr.a D. Maria Benedita de Castro Osório, vê-se: «D. António José de Castro, Almirante de Portugal, Capitam da Guarda de Sua Magestade etc. Pelo presente alvará de Procuraçam dou poder a Joachim Antonio da Rosa e Azevedo meu viador para fazer arrendamentos e escríptura dos foros da villa do Sabugal e seu termo e termo de Sortelha por tempo de sete anos…»
Em 1752 foram arrendados a João de Campos Pereira, bem como em 1773.
Em 1782 foram arrendados ao conde de Rezende «D. Luiz lnnocencio Bemdicto de Castro, do conselho de Sua Magestade, Marechal de Campo dos Seus exercitos, commendador das ordens de Christo e Torre Espada…» por António Mendes de Campos, de Pinhel.
Em Quadrazais tinham também os condes de Penela a vastas propriedades de que eram senhores directos e por causa delas houve grave demanda entre êsses condes e os condes de Rezende.
Os vizinhos de Quadrazais também sustentaram demorada e grave demanda com a Câmara de Sortelha por causa dos mesmos bens.
Ignoramos quando tais foros foram remidos e a tal respeito apenas podemos dizer o que ali ouvimos.
No foral de Sortelha, dado por D. Manuel e existente no arquivo do Sabugal, encontrámos o seguinte, respeitante a Quadrazais:
§ 24. «Tem obrigaçam os moradores do lugar de Coadrazaes, termo de Sabugal de darem em cada anno hum jantar aos officiaes da Camara desta villa o dia que vão aos termos, e os dictos officiaes lhe deixão hum alvará para poderem coutar as terras que elles tem nos limites desta vila e alguns matos e por isso lhe dão setecentos reais o anno que estão de restolho as dictas terras e logo no anno seguinte lhe pagam trezentos reis por meia folha que fica no Alcambar».
Por igual motivo pagavam os de Vale de Espinho 700 reis no ano em que lhe davam licença para coutarem os bens que tinham no limite de Sortelha.
Tudo isto melhor se compreenderá sabendo se que os limites de Quadrazais e de Vale de Espinho confinam com os de Malcata, outrora pertencente a Sortelha e onde aquelas freguesias naturalmente tinham bens.
São extensos os limites de Quadrazais, onde existem ainda muito terrenos incultos, vastas charnecas, sobretudo nas serras da margem esquerda do rio Côa. Nos últimos anos, porém, os vizinhos têm arroteado muitos terrenos.
A existência de charnecas e terrenos maninhos dá lugar a que nele sejam apascentados muitos gados, especialmente gado caprino, e se crie também muita caça.
Em 1889 pessoa de toda a probidade informou-nos de que havia ai 9.000 cabeças de gado caprino e lanígero, 600 de gado bovino, 180 de equino e 150 de gado suino. Para estas três espécies havia guardas par: o guardar em comum.
Os campos de Quadrazais são férteis e por isso, embora os moradores se entreguem geralmente ao comércio ilícito do contrabando, já nele se colhe muito centeio, trigo, batatas e outros produtos agrícolas.
Existem ali grandes soutos de castanheiros, alguns de troncos enormes, muitas vezes seculares, sendo notável o Souto do Concelho.
Pena é que o clima seja tão frio, pois, como ali se diz, em Quadrazais geia até em Maio e Agosto, o que bastante prejudica as searas.
Actualmente em Quadrazais existem muito boas propriedades, onde se produz excelente trigo e melhores devem existir quando o Quadrazenho se convencer de que o contrabando é a sua ruína, quando a terra bem cultivada podia constituir a sua riqueza.

O carvão
Além dos produtos agrícolas e dos gados, tem Quadrazais outra fonte de riqueza no carvão que fabrica nas serras próximas, cujo rendimento anual em 1889 era calculado em 2.450.000.reis. O carvão é geralmente vendido por mulheres no Sabugal e por homens em Pêga e na Guarda.

O contrabando
Ouvimos dizer muita vez que em Quadrazais não havia, não há muitos anos ainda, uma dúzia de homens que não fossem contrabandistas. Efectivamente o Quadrazenho é contrabandista por índole, por paixão, por uma necessidade irresistível, quase por instinto, herdando já aquela tendência para o comércio ilícito, que ali é adoptado desde tempos imemoriais.
É cosmopolita e possue todos os requisitos do contrabandista. Não lhe falta audácia, nem sagacidade, que, unidas a uma astúcia especial, o tornam temerário, não lhe faltando a coragem, nem a valentia nas ocasiões do perigo e das aventurosas correrias que por vezes tem de executar.
A gíria completa a predisposição natural para contrabandear. Ninguém, como ele, sabe vender tão caro e em menos tempo; mas por causa do seu comércio ilícito raras são as terras do país que ele não tenha visitado e poucas as cadeias onde não tivesse entrado.
Na do Sabugal havia sempre muitos Quadrazenhos, uns cumprindo pena, outros esperando dia para julgamento, ou pagando a multa.
O Esta.do preocupou-se sempre por causa deles e por isso foram sempre perseguidos pelos guardas, numa luta sem tréguas. Mas, não desistiam, teimavam, passavam a raia, vinham com cargas de contrabando, às vezes de muito valor, sedas, damascos, tabaco, chocolate, etc. Disso tinham a certeza os empregados da Guarda Fiscal e portanto haviam tomado os pontos principais para realizarem a apreensão, antegosando já o prazer e o lucro que disso lhes advinha.
Mas o Quadrazenho tudo prevê e não é apenas a perda desta mercadoria que o obriga a salvar-se, é a sua liberdade, a perda dos cavalos, e, se tem alguns bens, as custas do processo e, mais que tudo ainda, o vexame, a vergonha de se deixar surpreender.
Estuda então com os companheiros o plano de defesa, o modo de iludir os guardas e mesmo de lhes resistir e os levar de vencida. Muitas vezes o plano dá resultado, indo um deles atrair-lhes as atenções, correndo em sentido oposto àquele onde os companheiros pretendem passar, parando só quando as balas lhe sibilam mui perto e às vezes só depois de cair ferido.
Entretanto o logro foi certo, porque nada lhe encontraram e não foi possível arrancar-lhe uma palavra comprometedora dos companheiros, que devem a essas horas da noite ter tudo salvo, correndo nos cavalos valentes, fiéis, que, inteligentes como são, parece que correm, em lhes falando em guardas.
As vezes simulavam levar contrabando, correndo pelas serras dos Foios ou Vale de Espinho, outras, passando-o em grande escala, vigiando-os, espreitando a ocasião de eles descansarem das suas fadigas infrutíferas.
Um, escondia o contrabando, isto é, a mercadoria roubada aos direitos, sendo baldados os esforços para descobrir o esconderijo em serras extensas e cobertas de mato, que eles conheciam como sua habitual morada.
Quando todos os meios falhavam, resistiam com armas e mesmo corpo a corpo.
Seria fastidioso contar os muitos casos dessas lutas sangrentas, em que às vezes os guardas não cantavam vitória.
Os mais hábeis empregavam-se em passar o contrabando, que era depois recebido em local determinado, havendo muitos que nunca iam a Espanha. Em várias terras da raia havia e deve haver ainda quem recebesse mercadorias espanholas para depois serem vendidas muito à socapa mesmo na povoação ou noutras próximas.
Mais duma vez tem acontecido lançarem pimento picante nos olhos dos guardas para os inutilisarem nas suas emprêsas.
Ora, entre tantos sucessos, natural seria que alguns revezes sofressem os Quadrazenhos e algumas vinganças exercessem depois sobre os guardas. Não os relataremos, porque isso levar-nos-ia muito tempo; mas dois casos ocorreram dignos de nota, que vamos registar. Um deles teve lugar haverá trinta anos. Uns guardas que de Viseu foram transferidos para Vale de Espinho, não conhecendo a índole e inimizade que à sua corporação tinham os Quadrazenhos, passaram nesta povoação. Não tardou que os sinos tocassem a rebate e a multidão, composta de homens e mulheres, corresse sobre eles, que conhecendo o perigo fugiram pelo primeiro caminho que se lhes deparou, que era o do Souto; mas a multidão correu sobre eles como se fossem feras e a grande custo chegaram a esta povoação, verdadeiramente extenuados, porque a distância não é inferior a 5 quilómetros. José Rato, um pobre sapateiro, que morava à entrada, protegeu-os em sua casa e com uma forte machada defendeu a entrada, dos Quadrazenhos; um destes espreitando por uma fresta que havia na parêde matou um dos infelizes, quando estava bebendo água por um púcaro de barro.
Houve dificuldade em apurar quem fosse o autor desse crime, com que a princípio muitos julgavam honrar-se, arrogando-se o heróico feito; o certo é que foram condenados a degrêdo os mais comprometidos, entre os quais figurava um indivíduo filho do célebre bandido, Gazio. Esteve uma fôrça estacionada em Quadrazais algum tempo, sendo os soldados ali aboletados e bem recebidos.
O José Rato teve como prémio da sua coragem a medalha da Tôrre e Espada, que lhe foi solenemente colocada no peito, na praça do Sabugal, onde estava um destacamento formado, que lhe prestou as devidas honras (1).
Poucos a terão merecido como ele, mas devia ter recebido outra recompensa além daquela, porque o honrado sapateiro morreu passados poucos anos pobremente.
Não há muitos anos ainda, Manuel Nabais Durão, por alcunha o Guegueis, (?) era varado também por uma bala, quando vinha de Espanha e fugia com algumas mercadorias espanholas. A bala entrou pelas costas e o desgraçado morreu pouco depois, sendo o seu corpo removido da serra para Vale de Espinho; mas o guarda ficou absolvido!
Devemos protestar contra tais abusos e inimizades. Se é mister a repressão, se é legal por parte do Estado e da Companhia dos Tabacos a perseguição aos contrabandistas, não deve ir ao ponto de se matar um desgraçado, cujo crime representa muita vez, para quem o pratica, o meio de matar a fome aos filhos, crime internacional, nascido do interêsse do Estado e que prejudica o interêsse do indivíduo, oposto portanto ao direito natural. Apesar da repressão, mesmo levada aos extremos, o Quadrazenho continua sendo contrabandista e os que o não são, tornaram-se vendedores ambulantes, vendendo linho e fazendas portuguesas, especialmente de Guimarães e Tôrres Novas; mas tal é o hábito e tão bem conhecem o povo, que lhe vendem como espanholas mercadorias nacionais, facto que nós já presenceámos.
Vêmo-los percorrer o país do Norte ao Sul, de Nascente a Poente, em toda a parte, vendendo, ora uma cousa ora outra. Tão facilmente vendem linho, como lenços, casemiras, sabão, queijos, azeite, mel, etc.
As fábricas de sabão
O espírito Quadrazenho despertou a idéia de se montarem fábricas de sabão em Quadrazais, aproveitando o seu génio mercantil.
As primeiras ali instaladas devem-se à iniciativa de José Benedito (2), proprietário de Pêga, concelho da Guarda, e a António Rodrigues de Figueiredo, mais conhecido pela alcunha de Pinhanços, terra da sua naturalidade; mas foram mudadas, uma para Pêga e outra para o Barracão, próximo da estação do Sabugal, na linha da Beira Baixa.
Teve uma fábrica Simão Tôrres Braz, outra M. Pinheiro, ambos falecidos, havendo ali agora uma, pertencente a José Joaquim Salada.

Nota 1 – Era administrador do concelho o Dr. Albertino da Costa e comandante da força segundo constou ao A., o futuro General Ilharco, então alferes.
Nota 2 – José Benedito Alvares de Almeida, pai do brilhante escritor, quadrazenho de nascimento, Nuno de Montemor, que no livro encantador Maria Mim descreve com mão de mestre o povo de Quadrazais, defendendo-o de injustas acusações e fazendo a sua apologia. Os seus patrícios, em sinal do reconhecimento, deram o seu nome a um largo da povoação. (Inf. do Dr. Carlos Martins)

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Joaquim Manuel Correia

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