Memórias sobre o Concelho do Sabugal (36)

:: :: POUSAFOLES DO BISPO :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matria de Pousafoles do Bispo - Sabugal - Capeia Arraiana

Igreja Matriz de Pousafoles do Bispo – Sabugal

Esta antiquíssima povoação é situada num vale e na margem direita duma ribeira, 12 quilómetros a N. O. do Sabugal. Passa à distância de três quilómetros a estrada da Guarda ao Sabugal. uma das melhores povoações do concelho, rica em todos os produtos agrícolas, tendo muitos gados, especialmente lanígero, bovino e suíno.
Tem boas várzeas e veigas nas duas margens da ribeira e noutros pontos do seu limite, assim como bons lameiros e pastagens. Tem muitos pinhais e, como dissemos a respeito da Lomba, previdentes foram os seus habitantes, porque lhes dão já bons resultados, empregando-os como combustível e para construções. Pousafoles e Lomba fornecem madeira para muitas povoações, onde ela escasseia.
Há em Pousafoles carvalhos e muitas árvores frutíferas, especialmente nogueiras.
Foram ali cortadas há poucos anos umas nogueiras enormes, cuja madeira foi remetida para Lisboa. Raramente terão aparecido tão belos exemplares, que renderam aos donos avultadas quantias.
A poucos quilómetros ao N. O. fica o elevado Cabeço das Fragas, que é digno de visita. Consta-nos que num rochedo desse cabeço existem esculpidas umas letras que não têm sido compreendidas. Talvez que ali existisse algum castro. No que o cabeço se torna também notável é em ali haver muita caça e também lôbos, raposas e outros animais selvagens.
A freguesia era foreira ao Conde de Miranda do Corvo, pagando-lhe quarenta fangas de centeio e seis galinhas.
Tinha no fim do século XVII 200 fogos e 800 almas, como se vê no «Distrito e Diocese da Guarda», pág. 277, mas vimos algures que apenas tinha 89 fogos e em 1889 268 fogos e 1.026 almas.
Pousafoles fêz em tempos que hoje não podemos determinar parte da freguesia de Pena Lôbo, que se diz muito mais antiga.
O malogrado coreógrafo Pinho Leal diz a respeito de Pousafoles que o primitivo nome era Pisaflores e que a origem do nome foi devida ao costume de os moleiros costumarem pousar ali os foles ou ôdres de farinha. Não podemos dizer, sem receio de errar, qual fosse a origem do nome; mas podemos todavia asseverar que no concelho do Sabugal não se costuma deitar a farinha em ôdres ou foles, como se usa em várias terras do país e temos visto no distrito de Leiria. E a respeito de se ter chamado Pisaflores não achamos também muito plausível a opinião. Se eram foles não eram flores, e se era Pisaflores mal se compreende como a palavra se corrompesse em Pousafoles.
Como quer que fosse, certo é que já no foral de Sortelha se fala em Pousafoles, pois que referindo-se aos limites do concelho diz «… deinde ad riparium de pousafolles, sicut intrat in fluvium boy, et fluvius de boy quomodo intrat in coa.. .»
Desta passagem do foral se vê, pois, que o limite tocava na ribeira de Pousafoles. Se quizéssemos devanear diríamos que a origem do nome derivou de em antigos tempos e a pequena distância serem exploradas minas, como se vê pela grande quantidade de escória, aproveitada para muros de propriedades e dali a necessidade de pousar os foles para derretimento ou pelo menos para aquecimento dos metais extraídos. Ora esta hipótese não seria mais aceitável do que a outra, embora mais verosímil, destituída como é de base segura.
Também ao cabeço das Fragas alguns chamam das fraguas e até das fráugas. Ora fraguas traz a idéia de foles e daí mais outra versão, a que não daremos mais valor, porque o nome do cabeço deriva das enormes fragas que ali existem, e a que o vulgo deu o nome de Fráugas, por corrupção.
A povoação é extensa, com boas casas, bem construídas, de boa cantaria, tendo boas hortas e quintais, arborisados, que lhe dão um aspecto pitoresco. Há abundância de águas potáveis e para irrigação.
Tem escolas para os dois sexos, há muitos anos, e tanto a professora, como o professor eram dali naturais não há muitos anos.
Desta freguesia eram naturais o Pe FRANCISCO DE PAULA, que foi muitos anos pároco da Ramela, concelho da Guarda e o Pe JOSÉ TORRES, pároco do Carvalhal; dali eram também os Pe TORRES, um que doou à Irmandade do Senhor dos Passos a quantia de 200.000 reis com a condição de na freguesia fazerem a procissão dos Passos todos os anos, e um outro eclesiástico, que foi missionário, trucidado em África pelos selvagens.
Natural das Lameiras, povoação pertencente a Pousafoles, é o actual prior, Pe JOSÉ PIRES DE PAULA, despachado e ali colado em 1903, que fora pároco noutras freguesias.
Por óbito do Pe José Gonçalves Leitão, que durante muitos anos paroquiou a igreja, viveu algum tempo aqui o pároco da Lomba, Pe José Maria das Neves, e esteve depois um outro encomendado. Era de Pousafoles um capitão de infantaria que fêz a Campanha de Africa e faleceu em 1918.
Em Pousafoles esteve algum tempo refugiado o Dr. Prudêncio, lente de Direito, que escapou ao morticínio de Condeixa, quando ele e outros se dirigiam a Lisboa a felicitar D. Miguel pela elevação ao trono. Esteve também em Pena Lôbo, onde deixou um filho bastardo de nome Manuel Neves, vulgarmente conhecido pela alcunha de Lente, filho de uma mulher daquela povoação, pertencente à família Neves. O Manuel Neves foi pai do P.e José Maria Neves. O Dr. Prudêncio foi assassinado na Serra da Estrêla quando regressava à terra natal para depois voltar a Coimbra, segundo nos afirmaram pessoas dignas de crédito.

Indústria de chapéus
Em Pousafoles há muitos fabricantes de chapéus de lã, que, embora grosseiros, têm sempre muita procura, porque os homens do campo preferem-nos aos outros de fábricas afamadas, não só por serem mais baratos, mas por terem maior duração.
Em 1900 havia ali nove fabricantes, sendo um deles Pedro de Barros.

Igreja paroquial
A igreja de Pousafoles é das melhores do concelho do Sabugal, vasta e bem ornamentada. Em 1320 foi taxada em 10 libras. O orago é S. Salvador, sendo-o já em 1320.
A câmara episcopal da cidade da Guarda apresentava o pároco, que tinha de rendimento 200.000 reis.
O rendimento actual, (1905) segundo as declarações do finado pároco, é o seguinte:
Côngrua, 120.000 reis; do passal (1 casa e uma horta), 4.000 reis; pé de altar, 76.000 reis. Total: 200.000 reis.
Casamentos, 300 reis; baptisados, 400 reis e bens de alma, 2.500 a 5.000 reis.

Monte Novo
Pitoresca povoação, a 500 metros de Pousafoles, a que pertence, situada ,na margem esquerda da ribeira que separa as duas.
E cercada de arvoredos, carvalhos, pinhais e muitas árvores frutíferas, entre estas bons castanheiros. Tem boas casas e belíssimas propriedades rústicas, muito férteis, produzindo todos os géneros próprios do concelho, centeio, trigo, batata, feijão, milho, linho, etc.
Não lhe falta a ermida, como a todas as povoações, com côro, regularmente ornada e da invocação de Santo António.
Era natural de Monte Novo o opulento e honrado proprietário falecido em 1906, ESTEVAM JOSÉ GOMES, pai dos distintos médicos Dr. José Gomes, facultativo em Almeida, Dr. António José Gomes, facultativo na Vela e do Dr. Joaquim José Gomes, Conservador na cidade da Guarda, professor do liceu, tendo sido diferentes vezes substituto do juiz de direito e substituto do governador civil em situações progressistas, a cujo partido pertencia. Todos três eram muito considerados pelas suas belas qualidades e carácter superior.
Era também daqui o falecido Pe MANUEL JOÃO.
Em Outubro de 1909 foi criada uma escola mista nesta povoação.

Sobreira
Pertence também à freguesia de Pousafoles de que dista perto de quatro quilómetros. É situada entre Aguas Belas e Pena Lobo, em local. elevado. Tem muito bons prédios rústicos; na parte urbana são dignas de reparo as suas casas, de excelente cantaria granítica clara.
Perto da povoação passa uma ribeira, que fertilisa muito as terras que banha. Faleceu há poucos anos ali o excêntrico mas riquíssimo proprietário mais conhecido pelo Morgado da Sobreira. Era o extremo da economia, deixando por isso aos parentes uma fortuna importante. O seu vestuário não era geralmente de melhor aparência do que o de qualquer mendigo.
Conta-se dele um caso que define bem o seu génio económico: Houve um ano em que escassearam as chuvas no estio e o calor abrazava as terras. O Morgado lembrou-se de explorar águas numa propriedade e começou ele mesmo a abrir uma mina, passando ali dias inteiros. Quando a mina era já muito comprida o Morgado para não estragar o fato despiu-se à entrada e ali deixou toda a fatiota de grossa saragoça, assim como a camisa. À noite, saiu da mina, mas o fato tinha desaparecido e ele, completamente nu, ali esperou até altas horas para assim recolher a casa. O fato apareceu depois, porque quem lho tirou não tinha intuitos malévolos e apenas quis expô-lo ao ridículo.
Não usava ceroutas, nem’as tinha; mas uma sobrinha lembrou-se de lhe oferecer um par. Ficou o Morgado pensando que destino havia de dar ao presente e tanto pensou que as mandou converter em taleigas para meter dinheiro.
Quando a crise monetária avassalou o país, vendeu grande porção de libras a um indivíduo, mesmo sem ágio, e, como recebesse muito dinheiro em notas do Banco de Portugal, colocou estas e o dinheiro em metal numa dorna; mas os ratos, impotentes para roerem o metal, começaram roendo as notas de Banco, de modo que quando um dia foi examinar o seu tesouro parte destas estavam destruídas pelos terríveis roedores, mas ainda conseguiu passar algumas começadas a roer, por intervenção dum amigo.
:: ::
Joaquim Manuel Correia

Deixar uma resposta