Memórias sobre o Concelho do Sabugal (34)

:: :: NAVE :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz da Nave - Sabugal - Capeia Arraiana

Igreja Matriz da Nave – Sabugal – (Foto: Blogue Amigos da Nave)

Fica esta povoação na margem esquerda duma ribeira, que banha o Souto, Nave e Aldeia da Dona e passa perto de Badamalos, onde toma o nome de Beluiz, indo depois juntar-se ao rio Côa. Está a 14 quilómetros a Este do Sabugal, a 5 de Alfaiates e 15 da Estação do Sabugal (Barracão).
É muito abundante em águas, havendo por isso, sobretudo nas margens da ribeira, belas veigas e lameiros.
Apesar do clima ser mau, havia ali muitas vinhas antes do aparecimento da filoxera; havendo agora boas plantações de vide americana, sendo dignas de menção as pertencentes ao distinto oficial de artilharia, José Maria Marques, de Aldeia da Ponte, sobrinho do falecido Reitor.
Colhe centeio, trigo, batatas, feijão, milho, grão de bico e muita castanha. Os soutos de castanheiros da Nave são notáveis, não só por serem em grande número, como pelos belos e seculares castanheiros que ali existem, alguns de proporções gigantescas. É, porém, de notar que amor parte deles pertencem a indivíduos doutras povoações, sendo por vezes o terreno do domínio doutros, geralmente da Nave.
Foram plantados em tempos imemoriais em terrenos públicos, de que mais tarde foram tomando posse outros indivíduos, tendo o proprietário do terreno respeito pelo dos castanheiros.
A respeito. da apanha das castanhas existe uso ou tolerância antiga, que consiste em poder apanhá-Ia quem quer, passado o dia de S. Martinho, costume que existe também no Sabugal e noutras povoações onde há castanheiros.
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A Nave é povoação muito antiga, dizendo-se que era já habitada no tempo dos romanos. Efectivamente no seu limite têm aparecido sepulturas atribuídas à época em que eles dominaram na península, assim como algumas vasilhas de barro.
Em a 1477 existia ali um convento de freiras, instalado, segundo se diz, no local onde tem a sua residência o Sr. Augusto Jerónimo Metelo de Nápoles e Lemos, opulento proprietário da Nave. Acabou por causa das guerras com Castela, indo as freiras para Almeida, onde fundaram outro mosteiro.
Era da invocação de Nossa Senhora do Souto. Foi fundado por três Irmãs, da família dos Falcões de Pinhel, chamadas Grácia da Coroa, Ana da Conceição e Branca da Assunção, às quais se associaram outras mais. Do convento que elas fundaram em Almeida saíram as fundadoras dos mosteiros de S. Vicente da Beira e da Madre de Deus de Aveiro.
Diz-se que a capela de Santo Cristo que existe na povoação da Nave pertencia ao extinto convento.
Esta povoação foi incendiada em 1642 pelos castelhanos. Da Nave saíu em 29 de Agosto de 1643 o governador da Beira, D. Alvaro Abranches, para tomar Albergaria, que ficava no reino vizinho e tinha 300 vizinhos, não conseguindo o intento. («Portugal Restaurado», T. 2.°, pág. 8) – levava 6.000 infantes, 2 peças e 400 cavalos.
Foi na mesma ocasião destruída a igreja paroquial, que haverá 50 anos foi restaurada. Mas nunca perdeu o nome de Igreja matriz. Tem à direita e a poucos metros de distância uma elegante e elevada torre.
Em época que não podemos determinar foi mandado apear o telhado para nela se fazerem os enterramentos, construindo-se mais tarde o cemitério em volta.
Nela vimos uma pedra tumular, sobre a sepultura de D. Justina da Fonseca, senhora extremamente virtuosa. Nessa vê-se uma inscrição, da qual consta ter falecido em 18 de Agosto de 1888 e ter deixado a quantia de 50.000 reis para a conclusão das obras da igreja, além de muitas esmoIas aos pobres.
Foi casada em segundas núpcias com José Joaquim Ribeiro, que por morte dela voltou para a Miuzela, sua terra natal.
Enquanto esta igreja, isto é, a Matriz, não foi reparada, servia de igreja paroquial a igreja de Santo António.
Edificada no meio da povoação, em estilo moderno, mas solidamente construida, é no interior melhor que a maioria das que na província temos visto. Tem bom côro e púlpito regular e a capela-mor está muito bem ornamentada. O altar-mor é de boa talha dourada, semelhante ao de Alfaiates. Nas paredes da capela-mor existem sete quadros regulares.
Ao lado do altar vimos uma inscrição da qual apenas pudemos copiar o seguinte:
..D. LUIS DE O TAVARES
…..TUDO POREMBARCAR AL…….
….[ELEVS] OCEONOSARRE’……
…. DANDO……..

Lê-se ainda ali a data, que parece de 1753. A inscrição está relacionada com a lenda da fundação da capela. Vendo-se um indivíduo – D. Luiz de O. Tavares? – em eminente perigo de morrer no mar, fêz um voto a Santo António, prometendo mandar erigir-Ihe uma capela e um altar na terra onde os tivesse mais ordinários. Ficando salvo da tempestade, cum- priu o voto mandando edificar aquela igreja e o altar nesta povoação.
Além deste altar existem dois laterais, os do Espírito Santo e da Senhora do Rosário, também de boa talha, estendendo-se os ornatos pelo arco c!uzeiro. As imagens, a. não ser a do Senhor do Sepulcro, que é regu- lar, nao primam pela perfeição, sendo talvez obra do Cardépe do Souto, que, como noutro lugar dissemos, tinha merecimento como amador, faltando-lhe, porém, a educação artística.
Esta igreja tem boa sacristia, onde se encontram as alfaias e mais objectos próprios do culto.
Serviu, como dissemos, de igreja paroquial durante muitos anos, mas, como era muito pequena para a população, a necessidade obrigou os vizinhos a restaurar a Matriz, que é vasta, e que foi naturalmente construída nos tempos em que a Nave era a sede duma grande freguesia, a que pertenciam as povoações da Lageosa, Foios, Vale de Espinho, Vale das Eguas, Ruivós e Ruvina.
Ali vinham muitas vezes assistir à missa conventual os vizinhos dessas povoações, tão distantes, especialmente as três primeiras.
O Reitor era da apresentação do ordinário. Apresentava os curas das referidas povoações.
A Nave colhe, como dissemos, quase todos os produtos agrícolas próprios do concelho, algumas frutas e hortaliças, bom linho e óptima castanha. Existem ali muitos padeiros de centeio e trigo, sobretudo à moda espanhola, para o que têm as máquinas próprias. Vão vender o pão ao Sabugal, Covilhã, Guarda e a muitas povoações do concelho.
No tempo próprio, vão muitos indivíduos da Nave para Espanha, indo até às proximidades de Salamanca, uns como gadanheiros, outros como tosqueadores do gado lanígero.

As corridas dos touros
Um divertimento que os da Nave não dispensam é a corrida do touro, uma ou mais vezes cada ano, assim como os do Souto, Vila Boa, Sabugal e outras mais terras do concelho, especialmente as situadas na margem direita do rio Côa. É ao que se chama folguêdo. O touro é alugado por indivíduos que os compram em Espanha para aquele fim. Geralmente recebe o dono do touro a quantia de 5.000 réis por cada folguêdo.
O touro é corrido numa praça improvisada na véspera, cercada de carros bem cheios de lenha, no cimo dos quais o povo assiste à tourada.
Todos os rapazes são toureiros, picando o touro com grandes varas, de quatro ou cinco metros de comprimento, em cuja extremidade está cravado um aguilhão de ferro.
Mas a parte mais curiosa do folguêdo consiste no forcão, espécie de grade, formada dum grande ramo ou pernada de carvalho, com uma grossa vara onde os galhos se atam e afastam, dando-lhe a forma triangular.
O rabeador, tal como um timoneiro, dirige esta máquina, levantando-a desviando-a para que o touro não apanhe os 15 ou 20 rapazes que a cercam; e os 2 do garrochão, armados de grossos paus com longas choupas, defendem-se das investidas do touro, cravando-lhe os ferros dos garrochões ao mesmo tempo que os das varas ou garrochas o distraem, fugindo a meter-se debaixo dos carros.
Infeliz do que se deixa apanhar, que fica estendido na arena, às vezes para não mais se levantar, como várias vezes tem sucedido. Mas apesar disso o divertimento deve ainda continuar, porque a Nave, como as mais povoações próximas de Espanha, tem grande predilecção pelas corridas de touros e, quando ali o não correm, vão assistir às corridas doutras povoações.
Pertence a esta freguesia a povoação de Aldeia da Dona.

Aldeia da Dona
Esta pitoresca e antiquíssima povoação é banhada pela ribeira da Nave, ficando na margem direita desta. É terra fértil e abundante em todos os produtos agrícolas, especialmente centeio, trigo e batatas.
Antes da filoxera invadir o país, colhia também algum vinho, que era muito apreciado.
Tem uma capela muito regular e bem ornada, da invocação de S. Salvador, mencionada já em 1320, mas não taxada. Pertencia então a Alfaiates A população é de 40 fogos.
Eram naturais desta povoação, p.e BERNARDO VAZ, Pe JOAQUIM VASCO que foi muitos anos pároco na Bismula, onde morreu, e seu irmão, Pe José VASCO, que faleceu sendo pároco dos Forcalhos. Eram também naturais daqui outros eclesiásticos, que foram frades professos.
Em 1874 apareceram nesta povoação muitas armas e outro materia de guerra, enterrados numa horta, aparecendo na fonte da povoação muitas balas. Tornou-se então falada, pelas contínuas visitas ali feitas por oficiais de justiça, às vezes acompanhados de fôrças militares para prenderem os pronunciados num célebre processo, ocasionado pela famosa conspiração Carlo-Miguelina, como a denominou o juiz de direito João José de Oliveira Gomes.
Desses acontecimentos nos ocupámos a propósito de Aldeia da Ribeira. Um dos pronunciados, José Tourais, contou-nos parte desses acontecimentos relacionados com a conspiração:
– Um dia ia eu trabalhar para Malhada Sorda, no meu ofício de carpinteiro, indo então pintar uns portões, porque o carpinteiro é por vezes pintor das obras que faz em madeira; levava pincéis e tintas, e, ao passar em Aldeia da Ribeira, à saída topou-me um indivíduo espanhol, dizendo-me que o p.e João Barrocas me encarregava de o esconder em qualquer casa de confiança, porque vinha a tropa na pista dele. Hesitei um pouco, mas tendo dó duns e outros que vinham na companhia dele, fui escondê-Ios num pinhal, voltando depois atrás para dar parte do acontecido ao Pe João. Aí disse-me este que acompanhasse os homens até à casa do Pe Bernardo de Aldeia da Dona. Assim fiz; mas este respondeu-me: «Dize ao Pe João que os governe ele, que farto fiquei eu duns que ele aqui me meteu e governei três meses». Em vista da recusa levei-os para minha casa, indo dar parte ao Pe João, que me respondeu entusiasmado: «Você não sabe quem tem em casa! É uma honra e eles não ficam a dever nada!». Na verdade o Pe João dizia bem, eu não sabia quem tinha em casa, mas não tardaria a sabê-Io. Por causa deles gastei muito dinheiro, para os alimentar o melhor que podia, depois andei fugido 11 meses e, por fim, por causa dum a quem tive de acompanhar ao Sabugal, fiquei ali prêso na cadeia, juntamente com ele, e quando dali o levaram para Lisboa, ainda lhe abonei 9.000 reis». Esse individuo era o Coronado, que tinha estado refugiado em casa do p.e José Nunes (pároco dos Foios, natural de Aldeia da Ponte) como ele declarou ao juiz.
Em casa do Tourais foram encontradas na busca ali feita muitas boinas brancas de compridas borlas encarnadas, além doutros objectos.

Irmandade das almas
Foi notável nesta freguesia esta Irmandade, de que faziam parte muitos eclesiásticos, sucedendo reunirem-se ali 100 clérigos no dia do aniversário.
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Eram naturais desta freguesia o p.e ANTÓNIO ANTUNES DOS SANTOS, que morreu, sendo pároco de Rendo, e tinha justa fama de orador sagrado, e o p.e FRANCISCO FERNANDES, que foi pároco em Ruivós e faleceu no Cró sendo pároco da Cerdeira.
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Joaquim Manuel Correia

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