Memórias sobre o Concelho do Sabugal (27)

:: :: CERDEIRA :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Senhora do Monte - Cerdeira - Capeia Arraiana

Senhora do Monte – Cerdeira

É situada esta pitoresca e mimosa povoação na margem esquerda do rio Noemi, sobre o qual se lança uma comprida e antiquíssima ponte, de 5 arcos, solidamente construída de dura cantaria granítica, a qual liga a antiga povoação ao bairro moderno, edificado depois da construção da linha férrea da Beira Alta, aumentando de ano para ano e estendendo-se desde a estação até ao viaduto e dali subindo pela estrada que liga esta freguesia às Termas do Cró (1945). Tinha em 1893, juntamente com as Quintas, 99 fogos e 430 almas.
Fica ao N. da vila do Sabugal, de onde dista 22 quilómetros.
A construção da linha férrea levou o progresso e riqueza à Cerdeira, que vai crescendo e progredindo consideravelmente, sendo já uma das mais importantes povoações do concelho.
Tem muitos estabelecimentos comerciais, farmácia (já teve duas), e escola para os dois sexos, instalada em um bom e vasto edifício, que foi mandado construir pelo Ex.mo Sr. Dr. José Diniz da Fonseca e arrendado pela Empresa Construtora da referida linha, que o melhorou, dando no fim 40 libras e só depois disso foi apropriado para as escolas.
No bairro novo existem já bons estabelecimentos, perto da estação do caminho de ferro, que é uma das de maior movimento, servindo grande número de povoações dos concelhos do Sabugal e Almeida e algumas do da Guarda. No mesmo bairro há várias tabernas e casas de pasto.
É povoação muito antiga, sendo prova disso a sua carta de foral, dada por Afonso III em 1253, quando este rei se achava em Murça.
Referindo-se a esta povoação escreveu o malogrado escritor Pinho Leal no «Portugal Antigo e Moderno»:
«O vigario era da apresentação do abbade dos Bernardos de Sancta Maria d’ Aguiar que tinha 24000 reis, 50 alqueires de centeio, 27 e meio de trigo, 2 1/2 almudes de vinho, pagos pela commenda, que era do conde meirinho mór».
Fora da povoação existe um pequeno reduto, semelhante aos que existiam noutras freguesias, como Ruivós e Casteleiro e que, apesar de singelo e de simples construção, tem merecido o respeito de todos, sendo o mais completo de quantos tínhamos visto até 1889. Era nestes redutos que se recolhiam todos os moradores em tempos de guerra. Onde não havia redutos recolhiam-se nas igrejas paroquiais.
Afirma-se que a pequena distância da povoação existia também uma atalaia donde vigiavam o inimigo e davam sinais a outros povos.
A noroeste da povoação, coroando um elevadíssimo monte, e a dois quilómetros pouco mais ou menos de distância dela, destaca-se a igreja de N. S. do Monte, que apresenta todos os vestígios de antiguidade, não só pelo seu aspecto pesado, mas também pelo tom escuro da só1ida cantaria, carcomida e enegrecida pelos anos, e sobretudo pelo estilo da cimalha, semelhante à das igrejas de Mileu e Misericórdias de Alfaiates e Sabugal, onde se observam, como nesta, toscos modilhões, representando cabeças de ani mais, algumas já deterioradas.
Do alto desse monte, que se avista de longes terras, descortina-se dois magestoso e vastíssimo horizonte, abrangendo a vista a serra da Gata e outras de Espanha e do lado oposto a nevada serra de Estrêla, a cidade da Guarda, as igrejas do Jarmelo, cuia região fica próxima da Cerdeira, e os vastos campos dos concelhos de Almeida e Pinhel, destacando-se ao longe a serra da Morofa.
A igreja está regularmente ornada no interior. Tem sofrido diferentes reparacões, algumas modernamente.
Nos meados do século passado havia ali pomposas festas nos dias 15 de Março, 15 de Agosto e 8 de Setembro, mas actualmente apenas se celebra uma no dia 25 de Março, sendo muito concorrida. Das duas restantes pouco mais resta que a tradição, celebrando-se apenas uma missa cantada.
Os limites da Cerdeira são bastante extensos, relativamente à sua população, seguindo uma linha que passa na ponte de Sequeiros e vai às proximidades da Miuzela; daí desvia-se para tocar no limite da Parada, Cruz do Malhão, Azilheira, Cortelho, ao alto do Cabeço do Monte, de que já nos ocupámos, ponte do caminho de ferro, Cabeço do Homem, Redondinha, seguindo depois a encosta até o rio Côa.
Como já dissemos, a Cerdeira progride constantemente, é por assim dizer o empório da região, servindo freguesias de diferentes concelhos, apesar de ainda não ter as estradas de macadame indispensáveis ao desafogo económico das regiões confinantes.
Foi concluída recentemente (1945) a estrada há muitos anos paralisada que começa no entroncamento da estrada distrital do Sabugal à Guarda, perto das Quintas de S. Bartolomeu.
É para a estação da Cerdeira que os lavradores da margem direita do Côa, na raia de Espanha, e muitos da margem direita pertencentes ao concelho do Sabugal, transportam o centeio, o feijão, o trigo, o milho e sobretudo a castanha e batata, que ali embarcam para diferentes pontos do país.
A Cerdeira produz muito centeio, batata e castanha, havendo ali também algumas árvores frutíferas, apesar do seu clima frio. Cria também gado lanígero e do bovino há muitas juntas de vacas, bastantes da raça Jarmelista, cuja região fica próxima, tendo belíssimos lameiros onde elas pastam durante uma parte do ano, inverno e verão, e que são guardados na primavera para lhe aproveitarem o feno. Nestes lameiros há muitos e frondosos freixos seculares, cujas madeiras são aproveitadas para construção de carros, eixos e rodas e para combustíveis.
No limite da Cerdeira começam já as encostas a ser aformoseadas por pinhais, que ali se desenvolvem regularmente.
A igreja paroquial está fora da povoação e é regularmente ornada. O orago da freguesia é Nossa Senhora da Visitação.
Em frente da igreja existia um formoso e velho pinheiro manso, que nos consta ter sido cortado e a cuja sombra se acolhiam os visinhos, à frente da porta principal.
O rendimento paroquial da freguesia, segundo as declarações do pároco, é o seguinte:
Côngrua, 65.000 réis; Pé de altar, 6.700 réis; Casamentos, 240 réis; Baptisados, 300 réis e Bens de alma, 2.500 a 10.000 réis, perfazendo um total de 71.700 réis.
Foi durante muitos anos pároco o p.e Francisco Fernandes e depois, durante muitos anos, o falecido padre José Miguel dos Santos.

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Referindo-se a um curioso achado arqueológico o Diário de Noticias de 31 de Dezembro de 1935, dava a seguinte notícia:
CERDEIRA DO COA, 26 – Quando há dias um dos sócios da concessão de águas termais do Cró, que distam desta localidade uns sete quilómetros, andava com os operários a profundar a nascente, notou que, no fundo, principiavam a aparecer moedas antigas. Mandou continuar as pesquisas e apareceram vinte e cinco moedas romanas da era de 200 depois de Cristo.
Atribui-se bastante valor a este achado.

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Pertencem à Cerdeira as Quintas da Redondinha, que fica perto de Peroficós e que tem 13 fogos, a da Azilheira, que tem 3 e o Cortelho que tem igualmente 3 fogos.
O contrato provisório da Companhia do Caminho de Ferro da Beira Alta tem a data de 3 de Setembro de 1879. Foi inaugurada a 10 de Agosto de 1880. Foi empreiteiro Duparchy. Tem 202 quilómetros ou 40 léguas e 2 quilómetros, sendo 108 quilómetros em rectas. Tem a cota de 810,m9 na Guarda e 781,m5 em Vilar Formoso.

Alguns filhos da Cerdeira
Entre os naturais desta freguesia distinguem-se as famílias FARIA, SAMPAIO e BARREIROS.

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Para terminarmos esta rápida notícia a respeito da Cerdeira vamos falar dum filho desta freguesia de quem ela justamente se orgulha. Referimo-nos ao Ex.mo Sr. DR. JOSÉ DINIZ DA FONSECA. Depois de concluir a sua formatura na Faculdade de Direito em 1873, abriu escritório de advogado na cidade da Guarda, conquistando logo merecida reputação. Pouco depois foi também nomeado professor do Liceu, cargo que desempenhou brilhantemente. Poucos anos depois era nomeado delegado do Procurador Régio, desempenhando-se como Magistrado do Ministério Público do modo mais honroso e elevado que era possível, em diferentes comarcas do país, entre elas a da Guarda.
Promovido a juiz de direito, o seu nome foi sempre respeitado, em toda a parte, mostrando elevada inteligência e profundo conhecimento das leis, sendo sempre um magistrado consciencioso e justiceiro. Em Portalegre, como auditor administrativo, em Albergaria-a-Velha, Mação, Almeida, Lagos, Santa-Comba-Dão, Covilhã, Figueira da Foz, Elvas, Caldas da Rainha e Leiria, foi sempre o seu nome venerado. Como juiz e como cidadão não seria fácil igualá-lo, sendo mais difícil ainda excedê-lo, nessa carreira brilhantíssima, conquistando a estima de todos, a admiração e o respeito, o prestígio e autoridade, que poucos conseguem adquirir.
Se não houve quem o excedesse como magistrado exemplar, incorruptível e justiceiro, não houve quem o excedesse, nem igualasse, na dedicação que votou aos irmãos e sobrinhos, a quem estimou sempre como se fossem filhos, aconselhando-os, protegendo-os, orientando-os, com verdadeiro afecto paternal.
A sua memoria perdura na terra que tanto amou, encontrando-se a sua antiga casa de habitação transformada actualmente em Escola regional feminina, com o seu nome e sob a direcção duma sua sobrinha, Dona Maria Cândida Diniz da Fonseca.
O Diário de Notícias, de 7 de Fevereiro de 1931, dava a notícia do seu falecimento, publicando também a sua fotografia:
GUARDA (Gare), 5 – Em Cerdeira do Côa faleceu hoje o sr. dr. José Denis da Fonseca, solteiro, de 86 anos de idade, antigo desembargador (da Relação do Pôrto) tendo-o sido mais tarde da de Coimbra, onde gozava a estima de todos pela integridade do seu carácter.
Era tio dos srs. drs. Joaquim Denis da Fonseca, ex-deputado católico e actualmente presidente da Junta de Crédito Público e Alberto Denis da Fonseca, ex-deputado católico, advogado e notário na cidade da Guarda. Devido à grandeza do seu coração, conquistou com toda a justiça o nome de «Pai dos Pobres».

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Joaquim Manuel Correia

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