Panteões

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Quando, no século V a.C., na Grécia Antiga, os atenienses já tinham construído o Pártenon, ainda os Germanos, antepassados dos actuais Alemães, viviam em cabanas de colmo e os índios da América faziam a dança da chuva à volta de um tótem. Entretanto, durante esse século prodigioso, Sócrates ensinava filosofia, Sófocles escrevia as suas tragédias, Fídias esculpia obras-primas de mármore, os atletas disputavam o pentatlo em Olímpia e, em 490 a.C. Atenas vencia os Persas na batalha de Maratona. Entre 700 e 300 a.C., os Gregos geraram a matriz cultural que o Ocidente herdaria e de que ainda hoje se orgulha. E que faz agora o Ocidente? Humilha e desrespeita o berço de uma civilização inigualável.

Panteão Nacional de Santa Engrácia em Lisboa - Capeia Arraiana

Panteão de Roma (séc. II d. C.), numa pintura do séc. XVIII - Capeia Arraiana Túmulo do rei D. Afonso Henriques, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra - Capeia Arraiana Capela do Fundador no Mosteiro da Batalha - Capeia Arraiana
Túmulo do rei D. Sebastião no Mosteiro dos Jerónimos - Capeia Arraiana Panteão dos Braganças no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa - Capeia Arraiana Cenotáfio de Luís de Camões no Panteão Nacional de Santa Engrácia - Capeia Arraiana

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Vem este desabafo inicial a propósito da palavra panteão, cuja origem está no grego pan+theion (todos os deuses) e que passaria ao latim pantheon com dois significados: o conjunto de todos os deuses venerados por um povo, ou um templo dedicado à veneração de todos esses deuses. Na verdade, sendo os Romanos muito supersticiosos, receavam sempre que houvesse algum deus que se sentisse menosprezado ou insuficientemente venerado. Erguiam templos aos deuses principais (Júpiter, Marte, Neptuno, Vénus, etc.) e, para prestar culto aos que não tinham um templo próprio, construíam um Panteão, isto é, um local onde todos os outros fossem venerados. E foi assim que, em 25 a. C., Agripa, genro do primeiro imperador, Octávio César Augusto, mandou erguer o Panteão de Roma, um magnífico edifício que ainda hoje existe, porque, depois do triunfo do Cristianismo, foi transformado em igreja. Sofreu um incêndio no século II d. C. mas seria reconstruído durante o reinado do imperador Adriano. Coberto com uma impressionante cúpula com 43 metros de diâmetro, viria muito mais tarde, durante o Renascimento, a inspirar as cúpulas das basílicas de Santa Maria das Flores, em Florença, e de São Pedro, no Vaticano.
Vemos que, originalmente, um panteão não se destinava a albergar os túmulos das figuras ilustres de um país. Reis e imperadores, ao longo dos séculos, mandavam construir em vida os seus próprios túmulos ou os edifícios que haveriam de os albergar: foi o que fizeram os faraós egípcios com as pirâmides e os hipogeus. Alguns dos imperadores romanos também promoveram o levantamento de grandiosos monumentos para aí serem sepultados: é o caso do actual Castelo de Sant’Ângelo, em Roma, um edifício circular situado nas margens do rio Tibre, erguido em 123 d.C. para túmulo do imperador Adriano. E, ao longo dos séculos, os monarcas europeus foram sendo sepultados em mosteiros e catedrais, alguns deles em capelas construídas propositadamente para esse fim. Na catedral de Notre Dame, em Paris, ou na Abadia de Westminster, em Londres, podemos visitar os túmulos de reis, rainhas, príncipes, políticos, militares, escritores, músicos… Foi assim que a palavra panteão ganhou o sentido que hoje lhe damos, de local onde se encontram sepultados «aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando», como disse Camões. Demos três exemplos de panteões nacionais, em Portugal.
No Mosteiro da Batalha existe uma lindíssima capela-panteão, a Capela do Fundador, onde se encontram, ao centro, o túmulo de D. João I e D. Filipa de Lencastre e, lateralmente, os de vários dos seus descendentes, incluindo o infante D. Henrique e o reis D. Afonso V e D. João II. E, nas Capelas Imperfeitas, jazem o rei D. Duarte e sua mulher, D. Leonor de Aragão.
No final do século XV, o rei D. Manuel I decidiu construir nos arredores de Lisboa, em Belém, aquele que viria a ser um dos mais belos edifícios de toda a arquitectura portuguesa – o Mosteiro dos Jerónimos; para além de venerar Santa Maria e fazer mercê aos frades de S. Jerónimo, este grandioso monumento foi também originalmente concebido para servir de panteão a D. Manuel e à sua família: na capela-mor, do lado norte, estão os túmulos do rei Venturoso e de D. Maria de Castela, sua segunda mulher; e, do lado sul, os do seu filho D. João III e sua esposa, D. Catarina de Áustria. Finalmente, no transepto, podemos ainda encontrar os túmulos do cardeal-rei D. Henrique e de D. Sebastião (verdadeiramente, o corpo do rei Encoberto nunca se encontrou, mas enfim… «hic jacet Sebastus, si vera est fama…»).
Em terceiro lugar: anexo aos claustros do Mosteiro de S. Vicente de Fora, também em Lisboa, situa-se o Panteão dos Braganças, onde estão sepultados quase todos os reis da dinastia brigantina e muitos dos membros das respectivas famílias. As excepções são D. Maria I, sepultada na Basílica da Estrela, e D. Pedro IV, rei de Portugal e imperador do Brasil, transladado em 1972 para o monumento das margens do Ipiranga, onde ele próprio, 150 anos antes, proclamou a independência brasileira.
Muitas outras ilustres figuras da História de Portugal foram sendo sepultadas aqui e além. Enumeremos algumas: o túmulo do rei-fundador, D. Afonso Henriques, encontra-se na igreja do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra; o do infante D. Henrique, como já referimos, está na Batalha; o nosso rei «ribacudense», D. Dinis, está no Mosteiro de São Dinis, em Odivelas; dois magníficos túmulos góticos, situados no transepto da igreja do Mosteiro de Alcobaça, contêm os restos mortais de D. Pedro I e da sua bem-amada D. Inês de Castro; o ilustre Doutor João das Regras, que fez alçar ao trono D. João I, durante a revolução de 1383-85, jaz na igreja de São Domingos de Benfica; Pedro Álvares Cabral está em campa rasa, na Igreja da Graça, em Santarém; Vasco da Gama, que foi inicialmente sepultado na Vidigueira, terra de onde era conde e senhor, só foi transladado para o seu túmulo dos Jerónimos em 1894; nesse mesmo ano foi igualmente erguido o túmulo de Camões, também nos Jerónimos; mas onde estarão os ossos do poeta?; ele morreu pobre e quase desconhecido e foi enterrado em vala comum; de quem serão os restos mortais que estão na sua arca tumular neo-manuelina?; isso pouco importa; os ossos de Alexandre Herculano estão na sala capitular dos Jerónimos, num túmulo erguido por subscrição pública; Fernando Pessoa foi transladado para o claustro do mesmo mosteiro em 1985, na altura do cinquentenário da sua morte; e, finalmente, um caso raro entre nós: o túmulo do escritor Ferreira de Castro encontra-se em plena serra de Sintra, perto do Castelo dos Mouros.
Claro que poderíamos ainda enumerar dezenas de outros casos de gente ilustre espalhada por todo o País. Que repousem aí em paz e que ninguém se lembre de lhes mudar a última morada para Santa Engrácia.
Os leitores lembrar-se-ão, certamente, da famosa expressão «…obras de Santa Engrácia», dita quando nos referimos a obras que nunca mais acabam. É que esta belíssima igreja barroca, de planta em cruz grega, iniciada no século XVII, permaneceu inacabada durante cerca de 300 anos. Diz-se que foi praga rogada pelo cristão-novo Simão Solis, injustamente queimado pela Inquisição. Visto a rondar o templo inacabado, foi depois acusado de roubar o relicário de Santa Engrácia. Coitado, ele estava é à espera de uma amada clandestina.
Eu ainda me lembro de por ali passar nos anos sessenta, quando ia à Feira da Ladra, e de ver a nobreza daquelas paredes, em curva e contracurva, rodeadas de silvas e lixo, barracas de madeira e ratos. Apenas em 1966 Santa Engrácia foi concluída, recebendo a cúpula que lhe faltava (cúpula um pouco desproporcionada, diga-se). A decisão de terminar as obras e transformar esse templo em Panteão Nacional tinha já sido tomada há muito, durante a I República, mas apenas no final dos anos sessenta foi possível concretizá-la. E procedeu-se então à colocação, na zona central, de túmulos simbólicos (cenotáfios) de seis dos grandes heróis nacionais: D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e Luís de Camões, sepultados noutros locais; e, para as capelas anexas, foram transladados vários túmulos que se encontravam na sala do Capítulo do Mosteiro dos Jerónimos, ladeando o de Alexandre Herculano: os antigos presidentes da República Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona; e os escritores Almeida Garrett, João de Deus e Guerra Junqueiro. Mais tarde, seriam também transladados para o Panteão Nacional os túmulos do presidente Manuel de Arriaga, do general Humberto Delgado, do escritor Aquilino Ribeiro e da fadista Amália Rodrigues.
Nada tenho contra a colocação no Panteão Nacional dos restos mortais de qualquer personalidade que tenha honrado o País, através da política, da vida militar, da cultura erudita ou da cultura popular. Mas não gostei de ter visitado há dias Santa Engrácia e, durante os 30 ou 40 minutos que lá permaneci, a instalação sonora do monumento transmitir permanentemente fados de Amália Rodrigues. Os turistas gostam? Vendem-se discos? Porque não põem alguém a dizer poemas de João de Deus? Ou a declamar o Frei Luís de Sousa, de Garrett? Ou a ler O Malhadinhas, de Aquilino? Talvez um dia também venham a transmitir relatos de futebol!
A morte de Eusébio trouxe de novo a questão do Panteão Nacional para as bocas da comunicação social. Convirá dar tempo ao tempo antes de decidir seja o que for. Para já, honremos a memória do grande futebolista lembrando o seu passado. Quanto ao futuro, aguardemos.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

6 Responses to Panteões

  1. José Marques Valente diz:

    Caro amigo Doutor Adérito Tavares

    Obrigado por este esclarecimento que me parece absolutamente pertinente e oportuno, pois a maior parte dos Portugueses e principalmente daqueles que opinam sobre tudo, revelam um grande desconhecimento daquilo que nas tuas palavras fica bem claro.

    De facto, a Igreja de Santa Engrácia e o exemplo que dás, não são mais que o retrato dos responsáveis da Cultura e do conceito que temos, como sociedade, do rico património humano gerado por una Nação milenar. Mas os tempos assim determinam e… vamos oferecendo o que aprendemos, aos que nos quiserem ler.

    Um abraço e parabéns por mais esta bela peça cultural.

    • Adérito Tavares diz:

      Caríssimo Prof. Marques Valente
      Vindas de ti, que também és um ilustre e dotado bloguista, estas palavras são um estímulo muito particular. Obrigado.
      Um grande abraço amigo.
      Adérito

  2. leitaobatista diz:

    Excelente viagem pela história dos panteões, numa altura em que se fala tanto do Panteão Nacional a propósito da morte de Eusébio.
    Afinal os panteões nacionais, como bem nos elucida o Professor Adérito Tavares, estão espalhados por todo país e, na verdade, qualquer local pode, desde que comummente aceite, ser um digno repositório do corpo de um herói. Há até por esse mundo conhecidos mausoléus construídos de raiz para receberem corpos de gente ilustre. E há heróis quer jazem em campas rasas, muitos deles por vontade própria que os vindouros respeitaram e outros cujos corpos foram cremados e deles não restam campas nem relicários…

    • Adérito Tavares diz:

      Caro Dr. Paulo Leitão Batista
      Obrigado pelas suas palavras amigas. Eu é que devo agradecer, a si e ao Dr. José Carlos Lages, pelo meritório trabalho que têm desenvolvido, ao longo destes anos, na manutenção e dinamização deste blogue, que tanto tem contribuído para a defesa e a divulgação da cultura raiana. As secções relativas ao linguajar e, mais recentemente, às “Memórias…” de J. M. Correia são exemplos actuais bem dignos de aplauso.
      Um abr. raiano.
      Adérito Tavares

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