Memórias sobre o Concelho do Sabugal (22)

:: :: CARVALHAL :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Frescos da Igreja do Carvalhal recentemente descobertos

Frescos da Igreja do Carvalhal recentemente descobertos

Fica a mais de três quilómetros a S. E. de Badamalos esta pequena povoação, onde alveja uma humilde ermida, que, como vamos dizer adiante, foi igreja paroquial da freguesia. O orago é S. Marcos.
Em 24 de Junho de 1779 visitou esta igreja o bispo de Pinhel D. Cristóvam de Almeida Soares, determinando, entre outras cousas, «que se mandasse fazer a Imagem do Sagrado Coração de Jesus, em harmonia com as determinações de Pio VI, bem como colocar em todos os altares um crucifixo, em harmonia com o Breve de Benedito XIV; que se mandasse construir uma urna para na Quinta-feira Santa se expor o SS. Sacramento; que, sob pena de excomunhão, os mordomos não apresentem as contas aos mi- nistros seculares, sem licença dele, Bispo; que comprem um véu para cobrir o vaso do SS. Sacramento e dourassem o mesmo por dentro e outro véu para cobrir o cofre; umas cortinas para dentro do sacrário, tudo com galão e renda de ouro fina, tudo no espaço dum ano; que dourassem o altar-mor, mandando pintar de cal fina toda a Igreja por dentro e que se compuzesse o pavimento da mesma Igreja e os altares colaterais; que os mordomos da confraria de S. Bartolomeu mandassem estufar de novo a dita imagem do Santo, ou fazê-la de novo dentro dum ano»
Não satisfeito com estas ordens, continuou ainda o Bispo: «À custa da fábrica da Igreja do Carvalhal se mandará compor a mesma Igreja, forrando-se de madeira, compondo e estufando de novo a imagem do Santo; que compuzessem o pavimento da Igreja, concorrendo também a mesma confraria».
O Bispo na visita seguinte ameaçou-os por não terem cumprido estas determinações.
Quando D. Bernardo Beltrão em 1817 visitou a igreja disse: «que a considerava interdita, por não terem cumprido o que fora ordenado nas visitas anteriores (interdição que só foi levantada em 1824) e por não ter tampa a pia baptismal. No mesmo decreto de visitação condenou o pároco José António Fernandes em 4000 réis por consentir que se sepultasse na igreja. O mesmo Bispo condenou os padres Manuel António da Fonseca e Martinho, este por não copiar as pastorais, também na multa de 4000 reis (Arquivo Paroquial de Badamalos).
O Carvalhal pertencia em 1835 à freguesia da Bismula, sendo então pároco o P.e Francisco António Varejão.
Tem boas propriedades, lameiros, chãos e outrora algumas vinhas. À saída tem uma boa fonte e um tanque destinado para lavagem e para irrigação. É nesta fonte que começa a ribeira do Carvalhal que vai unir-se ao Beluiz.
Na freguesia de Badamalos há uma escola de instrução primária há muitos anos, tendo casa muito regular.
O rendimento paroquial nesta freguesia é o seguinte: Côngrua, 80.000 réis; Pé de altar, 40.000 réis; Casamentos, 400 réis; Enterramentos, 600 réis e Bens de alma de 3.000 a 9.000 réis.

Um processo célebre
Em 25 de Abril de 1890 respondeu em audiência geral na comarca do Sabugal Bernardo Quelhas, natural de Malhada Sorda, residente em Badamalos, por ter ali casado. Foi advogado dele o notável causídico Dr. Pedroso, residente na Covilhã, mas natural, segundo ouvi dizer, de Almeida.
O acusado era homem estimado, respeitador e de exemplar comportamento. Certo é que, tendo desaparecido um pastor, chamado Joaquim Morgado, rapaz ainda, de 12 anos, só passados 2 dias foi encontrado morto no sítio chamado Vale do Amial. Dada a notícia ao Juiz da Comarca do Sabugal, foram nomeados peritos os Drs. Júlio Alves Pinto e Francisco Augusto da Silva Barbosa.
O desaparecimento do morto foi no dia 9 de Julho de 1884 e o aparecimento do cadáver no dia 11. Ordenada a autópsia, na manhã do dia 13 do referido mês, apenas o Dr. Barbosa compareceu no local, não aparecendo o Dr. Pinto, nem o juiz de paz e houve quem afirmasse que nem o oficial de diligências ali comparecera. Certo é que foi lavrado o respectivo auto, dando-os todos como presentes, assinando também todos os que não haviam comparecido. Devolvido pelo juiz de paz o auto da autópsia, o agente do Ministério Público promoveu que o processo fosse arquivado, o que o juiz deferiu. Era aquele o Dr. António Rodrigues de Almeida Ribeiro e este o Dr. Manuel da Rocha Salgueiro, muito honrando, ambos, a classe da Magistratura. Sucedeu que n’ «O Povo Português» de 27 de Agosto «um anónimo» chamava a atenção do Ministro da Justiça para que não ficasse encoberto e impune, como dizia que se pretendia, o homicídio praticado. O Governador Civil ordenou ao administrador do concelho que investigasse e ele respondeu em 3 de Setembro que «o poder judicial tinha dado a última palavra» ; mas o governador civil da Guarda, D. João de Alarcão, ou o seu substituto, ordenou uma nova investigação, que começou em 9 de Setembro, sendo inquiridas 41 testemunhas, sendo o auto enviado ao governador civil, que o remeteu à estação superior e «acompanhado dum ofício da Procuradoria geral da coroa, em data de 16 de janeiro do corrente ano» (1885) à Procuradoria régia do Pôrto, para se instaurarem os competentes processos».
Sem podermos ser muito extensos, apenas diremos que o Quelhas respondeu em 25 de Abril de 1890, ficando condenado em 25 anos de degrêdo, morrendo na penitenciária, constando que não viveu muito tempo ali. Assisti ao julgamento e recordo-me de que negou o crime e de que, com a devida vénia, lembrei ao grande e talentoso advogado, no tribunal, que me parecia arriscado negar, parecendo-me melhor que alegasse falta de intenção criminosa, porque apenas lhe deu um «encontrão» ferindo-se o rapaz quando caíra. Eu tinha algumas razões no que disse.
Tendo apelado, esperou na cadeia muito tempo a decisão e lembro-me ainda de o ouvir chorar, gritando que estava inocente. Causava dó ouvi-lo todos os dias gritar junto das grades da cadeia. Não se conformava com a condenação e o ilustre advogado perdeu a ocasião de ter conseguido ou a absolvição ou pelo menos uma pena diminuta.
A respeito do autor do artigo publicado por «um anónimo» era opinião assente no Sabugal que fora certo farmacêutico, grande inimigo do doutor Barbosa que foi processado por falsas declarações, não o sendo mais nenhum, e era um homem honradíssimo.
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Joaquim Manuel Correia

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