Memórias sobre o Concelho do Sabugal (21)

:: :: BADAMALOS :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja São Bartolomeu - Badamalos - Sabugal - Capeia Arraiana

Igreja de São Bartolomeu (altar e coro neogóticos) – Badamalos – Sabugal

Na margem direita do rio Côa e numa elevada encosta é situada esta freguesia, que pertenceu ao extinto concelho de Villar-Maior. Fica 28 quilómetros ao nordeste do Sabugal e a pequena distância do rio Côa.
Perto passa também o Beluiz, nome que ali toma a ribeira da Nave, que banha esta freguesia, de que havemos de ocupar-nos, banhando também os limites da Bismula, levando já grossa corrente quando desagua no Côa.
A povoação oferecia um aspecto agradável nos tempos em que era cercada de vinhas, que se estendiam pela encosta do Côa e Beluiz. Actualmente, porém (1905), apresenta um aspecto mais triste, porque a filoxera as devastou. Em 1889 ainda se colhiam ali perto de 2.000 almudes, o que era importante, atendendo a que o almude no concelho do Sabugal tem 28 litros e que a esse tempo já a filoxera tinha feito a invasão e causado grandes prejuízos.
Se, porém, a terrível doença destruíu as vinhas, nem por isso os habitantes ficaram, como tem sucedido na mor parte das povoações, reduzidos à miséria e privados de recursos, porque possuem bons elementos de riqueza, o seu solo é ubérrimo, sobretudo nas margens do Côa e Beluiz, onde há belíssimas veigas e pastagens (lameiros) enfeitados por formosos freixos, carvalhos e amieiros seculares.
Badamalos é povoação muito antiga e nos seus limites têm aparecido objectos dos tempos pre-históricos e da época romana, machados de pedra, moedas romanas e também sepulturas cavadas em rochedos graníticos.
José Monteiro de Almeida ofereceu-nos uma moeda de prata do tempo de Augusto, que oferecemos ao Museu Etnológico de Belém. Em volta da efígie do imperador, coroado de louros, lê-se a legenda seguinte:
AUGE AUGUSTUS… CAESAR DIVI no verso e no alto; PONTIF, e, em baixo, no exergo: MAXIM. Entre estas palavras vê-se o imperador na sua cadeira.

Igreja paroquial
Restaurada e modernamente acrescentada, a igreja paroquial está no centro da povoação, tendo perto e por de trás um campanário construído em 1883, em ponto elevado, donde se disfruta um regular horizonte, descortinando-se de lá a cidadela e a torre de menagem da antiga vila de Vilar Maior, a destacar-se entre penedias, rochedos e fragas inacessíveis
A igreja é ladrilhada, excepto a capela-mor. Esta é notável pelo seu altar e retábulo de boa talha dourada e pelo teto revestido de quadros óleo com molduras, de boa talha dourada, obra também já muito antiga. Existem ali 24 quadros, se a memória nos não falha, nenhum deles de grande de mérito artístico.
O orago da freguesia é S. Bartolomeu.
Os altares laterais são obra dum curioso, o Rabeca, do Souto, que tinha habilidade e aptidões artísticas, faltando-lhe a educação profissional.
Raras são as freguesias do concelho do Sabugal em que não haja um altar ou uma escultura devidas a este fecundo e curioso artista, que, atendendo ao meio em que vivia e à falta de cultura, revelou grande merecimento.
Junto da igreja vê-se a casa da fábrica e a sacristia, onde examinámos uma antiga custódia e cruz de prata, que têm certo merecimento.
A cruz foi há anos mandada consertar a um curioso, de probidade tão duvidosa, que não hesitou em lhe diminuir consideravelmente o pês substituindo parte da prata por pedaços de folha de Flandres ou por simples estanho.
O logro foi, todavia, perfeito, a ponto de os interessados não notarem o prejuízo e só muito tarde o descobriram quando a folha de Flandres começou a oxidar-se.
Santa ingenuidade! Mas quem suspeitava que houvesse artista tão vil e perverso que nem à cruz tivesse respeito?!
O pároco era da apresentação do Reitor de S. Pedro de Vilar Maior e recebia 20000 reis de côngrua.
Em tempos não muito remotos foi pároco desta freguesia J. Inácio de Faria, que por causa duma questão de águas teve de sair, falecendo pouco depois em consequência dos maus tratos, que por causa da questão os paroquianos lhe inflingiram.
Em 1765 tinha esta povoação 66 fogos e em 1889 tinha 219 e 336 almas.
Faz parte da freguesia de Badamalos a povoação do Carvalhal.
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Joaquim Manuel Correia

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