Natal adiado

«Recordando outras emigrações…» foi a epígrafe que a sabugalense Irene Cardona escolheu para o conto «Natal adiado», que escreveu e que nós aqui publicamos por se enquadrar na quadra festiva que se aproxima, deixando claro que nem sempre o Natal é tempo de felicidade.

Ei-los que partem...

Ei-los que partem…

O comboio com destino a Portugal parava agora na estação de Burgos, em Espanha. Era uma estação como outras que nada registava senão o desejo de chegar – a terras de França, onde o sonho vivia ou terras das Beiras, onde a saudade morava.
Hoje a carruagem evidenciava uma certa ansiedade: vários homens faziam a travessia com “papéis” na algibeira, mas papéis que muitos nem sabiam ler – eram passaportes que, na verdade, apenas tinham a vontade de serem verdadeiros.
N. era um homem calmo. De estatura média e ombros largos impunha uma presença tímida mas confiante. Nunca gostara da clandestinidade e a viagem “a salto” para França tinha sido o único acto ilegal na sua vida pacata mas difícil em terras sabugalenses. As dificuldades de uma agricultura pobre, a preocupação com o futuro dos filhos e o desejo de vida melhor tinham-no levado a esta decisão. França tinha sido sonho, transformara-se em realidade e essa realidade trazia-o de novo a Portugal. Bom trabalhador e homem de bem tinha ganhado a confiança do patrão francês e este prometera enviar-lhe uma “carta de chamada” para, legalmente. trabalhar para ele.
Era com esta confiança que fazia a viagem de comboio de regresso a Portugal e, sentado naquele banco junto à janela, ia desfiando saudades, recordações e sonhos. Outros portugueses vinham na carruagem, cada um tomando conta de malas, sacos e histórias de vida.
De repente, uma certa agitação na carruagem e, ao longe, misturavam-se sons e palavras incompreensíveis para N.
– O que estará a passar-se? – interrogava-se, sem se atrever a perguntar. A agitação continuava e havia alguns homens em pé que gesticulavam e falavam – alguns deles eram portugueses. N. continuava no seu lugar mas menos calmo. Lembrou-se do “papel” que tinha na algibeira – ainda bem que ele tinha aquele papel – o patrão afirmara-lhe que com este papel nada lhe aconteceria: poderia passar descansadamente a fronteira. Dois homens vão-se aproximando do seu lugar – têm ar de polícias mas não estão fardados. Começa a ficar ansioso. Aproximam-se mais, param na sua frente, identificam-se como sendo guardas civis e pedem passaporte. N. olha-os com desconfiança e, logo a seguir, desvia o olhar – dois portugueses estão atrás dos guardas e o seu ar é de caso; mas ele tem um “papel” do patrão… mete atabalhoadamente a mão na algibeira e o papel lá está dobradinho como o patrão lho entregara.
– Aqui está! – disse timidamente estendendo o papel a um dos guardas. Este, sem o olhar, pega no papel e lê-o apressadamente.
– Mais um clandestino! – e com ar severo pega no braço de N. e, ao mesmo tempo, informa-o que está preso.
– Isto não é um passaporte e vai acompanhar-me ao Posto da Guarda. N. não entende o que se está a passar e olha, mais uma vez, os outros com ar interrogativo, mas o silêncio é a resposta. Toda a confiança e todos os sonhos se desmoronaram num só momento.
– Mas não pode ser! Eu não fiz nada! – ainda se atreveu a retorquir.
– Acompanha estes homens, também são portugueses – acrescenta o guarda.
A tremer, mais de raiva, que de medo N. junta-se aos outros. Todos sentiam o mesmo e os dois guardas insistiam em cumprir o seu dever – dever que impedia outros de ter direitos: direito a querer mais, direito a uma vida melhor, direito a ser feliz.
Aqueles três homens seguem os guardas com a revolta bem estampada no rosto; lá fora um carro da polícia espera-os e vai levá-los até ao Posto para serem “ouvidos”.
– Com mais calma, eu vou explicar que tenho este papel legal e tudo se resolve – pensa N. ainda com esperança. Tudo foi explicado: a promessa do patrão, a entrega do papel, as intenções da viagem mas nada fez efeito e a ordem de prisão é confirmada.
– Mas isto é um pesadelo – quanto tempo durará? Como vou avisar a minha mulher? – são os pensamentos que agora se sobrepõem.
É conduzido, de imediato, a uma pequena cela – e, de repente, lembrou-se da cadeia da sua terra, onde os presos espreitavam a liberdade pelas janelas – muitas vezes os tinha visto e tinha pensado na sua solidão e desespero; mas eles tinham praticado crimes, talvez tivessem merecido a prisão, mas ele? O que tinha feito? Uma viagem de comboio que atravessa a fronteira? Era isto um crime?
Quantas vezes essa fronteira tinha sido atravessada por montes e vales, vendo o comboio ao longe! Ele próprio o tinha feito quando foi a primeira vez para França. Tinha voltado para não ser clandestino em França e tinha sido preso, por ser clandestino, na viagem de comboio que lhe traria a legalidade. Ironia de um destino!
Era Dezembro e a noite estava fria. Depressa se deitou para tentar esquecer, mas o sono não chegava. Fechou os olhos e, cansado, adormeceu.
A manhã seguinte apenas lhe trouxe a certeza de algum tempo de prisão e a angústia da incerteza.
Lá longe, na casa para onde se tinham mudado há pouco tempo, a sua mulher e os seus filhos esperavam notícias, pois sabiam apenas que N. tinha saído de França. Dias depois, a notícia numa carta com breves linhas: “fui preso em Burgos quando voltava para Portugal, não sei quantos dias vou ficar aqui, mas espero que sejam poucos; depois conto tudo” – esta foi a mensagem que alguém escreveu para ele, mas em cada linha, bem marcadas as saudades.
Esta carta trouxe algum alívio aquela família que, dia após dia tinha experimentado a angústia da incerteza. Sabiam agora onde N. estava, e preso, não podia estar muito tempo – não tinha feito qualquer mal!
N. na cidade espanhola e a família na sua terra viviam, cada dia, a mesma ansiedade – hoje e amanhã sucediam-se na esperança do dia desejado. E o mês de Dezembro continuava a decorrer.
Nos dois países vizinhos e em cada cidade, vila ou aldeia começavam os preparativos de Natal. As famílias combinavam os seus encontros e as crianças ansiavam as pequenas prendas no sapatinho. Na casa de N. a família não se atrevia a marcar qualquer encontro de família e a prenda desejada era o regresso do pai. O dia 25 de Dezembro chegou mas o encontro de família só aconteceu uns dias depois (muitos dias para quem espera…) – o Dia de Natal, esse ano, para a família de N. teve de ser adiado!.

Conto (em jeito de homenagem!)
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I. C.

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