Badamalos – o Irmão João Laiginha da Fonseca

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

João Laiginha da Fonseca nasceu na freguesia de Badamalos (Sabugal), em Abril de 1923, filho de Antónia Laiginha e de António da Fonseca. Viveu a infância nas margens do Rio Côa, onde outrora as tropas anglo-portuguesas escorraçaram os soldados de Napoleão, aquando das Invasões Francesas.

João Laiginha da Fonseca

João Laiginha da Fonseca

Aos dezassete anos, com o apoio do Pároco Francisco Pinto, tomou a decisão de ingressar, a 10 de Janeiro de 1942, no Seminário da Alpendurada (Marco de Canaveses), pertencente à Congregação dos Missionários do Coração de Maria (Claretianos). Esta Congregação foi fundada pelo catalão António Maria Claret, que foi confessor da Rainha Isabel II de Espanha e Arcebispo de Santiago de Cuba, quando Cuba era um colónia de Castela. Os Missionários do Coração de Maria chegaram a Portugal a 12 de Maio de 1898, fundando um colégio na Aldeia da Ponte (Sabugal), lançando mais casas na Freineda (Almeida) e no Tortosendo, pertencentes à Diocese da Guarda.
Nos finais do Século XIX, esses Missionários desempenhavam uma atividade apostólica e evangélica importante, através de pregações festivas e missões populares, marcando a fé de muita gente e granjeando admiração das populações, em particular dos mais novos. Das pessoas que conheci e me lembro da Bismula (Sabugal), várias integraram esta Congregação: José Maria Fernandes Monteiro, Manuel Francisco Leal, Eduardo Joaquim Videira e Manuel Leal Fernandes. No global, diz-se que não há Freguesia do Distrito da Guarda, que não tenha na sua história um elemento dessa Congregação.
A Diocese da Guarda foi, nessa época, a «galinha dos ovos de ouro» das vocações missionárias e religiosas. Teve um papel importante na evangelização, mas também na impulsão de cultura, na subsistência para muitos e no acesso ao conhecimento. Muitos sentiram o apelo missionário da partida e fizeram malas para as mais longínquas paragens continentais.
O nosso Jovem de Badamalos (Sabugal) iniciou em 1942 um longo e extraordinário percurso de missão. Entre 1948 e 1949, foi cozinheiro no Seminário das Termas no Pinheiro (Penafiel), atividade que voltaria a exercer entre 1949 e 1959 no Seminário dos Carvalhos (Porto).
Entre 1959 e 1965, mudou-se para o Seminário do Cacém (Sintra), sendo responsável pela cozinha, sapataria e quinta.
Regressou ao Colégio dos Carvalhos, onde permaneceu até 1989, com a atribuição de diversas tarefas e responsabilidades pelo pessoal trabalhador como ecónomo. Antes de se fixar na Comunidade Claretiana em Setúbal, junto à Igreja da Boa Hora (Grilos), ainda esteve por duas vezes em Fátima.
Em Setúbal viveu alguns anos e foi aí que o conheci. Convivemos pouco, mas agradável tempo. Lamento não ter tido mais contato com este missionário anónimo e laborioso, porque muito teria aprendido.
Com a responsabilidade de ecónomo, tratava todos com muita afabilidade, sempre com boa disposição, sempre jovem, tinha na alma o espírito beirão.
No 90º aniversário do seu nascimento, a Comunidade Claretiana proporcionou-lhe uma festa de homenagem. Além de quase um século de vida, contava também setenta e três anos no serviço missionário. Na sua peregrinação exemplar, o Irmão João Laiginha Fonseca correu o país de lés-a-lés, Norte, Sul e Centro. O seu lema era «ora e labora», o que se adequa à vida de trabalho deste Homem, entre a cozinha, o economato e a agricultura, sempre ao serviço dos outros.
Cozinhou para as grandes Comunidades Claretianas da Alpendurada, Carvalhos, Cacém, Fátima ou para a pequena comunidade de Setúbal. Cozinhar é uma arte e neste Homem era uma arte de amar.
Tinha agendada uma entrevista com ele. Infelizmente foi sendo sucessivamente adiada, porque nos últimos meses a sua saúde piorou. Após um curto período internado num Lar em Lisboa, no dia 24 de Novembro, partiu para o eterno descanso.
Em Benfica (Lisboa) em 25 de Novembro, perto da sepultura do Padre Cruz, regressou ao ventre criador da terra.
«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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