…a ideia estúpida seguinte

Fernando Lopes - A Quinta Quina - © Capeia Arraiana

Nesta avalanche de euforismo, em que todos gritam por Cristiano Ronaldo (e merecidos), prefiro gritar por Portugal. Não somente o grito pela selecção nacional mas, e sobretudo, um grito de alerta e chamamento. O orçamento que se vai aprovando no parlamento será o pronúncio da redução da condição digna de cidadão à, no máximo, sobrevivência.

Quando as bancadas que suportam o governo anunciam que propuseram a fasquia dos cortes nos vencimentos acima dos 675 euros, contrariando a fasquia do governo que era de 600 euros, compreende-se a noção da realidade que estes senhores têm da realidade. É mais um assalto! Recorrendo, porque real, à vox populi, gostaria de ver algum daqueles senhores viver com esse vencimento! A começar pelos senhores deputados. Pois quando a Assembleia da República apresenta orçamentos de 100 milhões de euros, percebemos quais as gorduras que nunca se cortam! Porque, para estes senhores, gorduras, são os vencimentos e as pensões… dos outros!
E, quando tudo se faz, protelando decisões e arranjando argumentos falaciosos, para não se cumprir a lei e o que está estipulado, mais cedo ou mais tarde algo de mal acontece. É assim, há anos, com os professores contratados. Por cá não houve nenhum tribunal que fosse capaz de “ver” tala atropelo à lei! Foi preciso, esta semana, vir da Europa uma recomendação para que, dentro de dois meses, Portugal resolva o problema dos professores contratados há cinco, dez e mais anos. Pois é! É que a lei diz que ao fim de três contratos consecutivos, o trabalhador, deve integrar os quadros. Grosso modo, há uns milhares de professores que todos os anos são contratados, mas que nunca entrarão para o quadro. Sei que o sr. Crato virá, com aquela ironia estampada na cara, dizer que os professores são uma das tais especificidades. Contudo não o são para o pagamento de taxas, impostos, cortes, etc. Nem o ministério alegou a especificidade quando obrigou professores a desdobrar-se por duas ou três escolas (os tais agrupamentos e mega-agrupamentos), algumas distas de quilómetros, para não lhes pagar ajudas de custo. Desta forma, passou haver mais um requisito para ser professor. Não basta ter uma licenciatura, estágio pedagógico – e agora exame de admissão à carreira – é preciso ter viatura.
O que se constata, é um ministério, que o sr. Crato dizia que era preciso implodir, vir a explodir. As escolas estão asfixiadas em todos os sentidos, os professores afrontados com decisões avulso e burocracia a mais, os estudantes perdidos e sem rumo e as universidades acabam de lhe virar as costas. O panorama educacional encontra-se num pântano. Neste marasmo, parecem respirar as escolas privadas, porque será? Quando o sr. Crato sair do governo, lá o vamos ver nós como consultor de um desses grupos privados da educação.
O problema, é que podia ser a educação isolada no contexto do governo, o que já era preocupante, mas não, é geral a todas as áreas. A estupidez, ou então um autismo intelectual e político, trespassa todo o elenco governativo. Bem, depois de sabermos o que a revista Visão publicou do tal assessor para a comunicação, nada disto devia admirar. Portanto, não resisto a citar um artigo de opinião do jornal Público, “Em Portugal uma ideia estúpida parece ser vezes de mais o melhor caminho para a ideia estúpida seguinte”.
Só mais uma achega, segundo um estudo universitário, cujos resultados foram publicados nestas últimas semanas, aponta para que o interior do país (Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo) perca, nos próximos trinta anos, um terço da sua população. Os valores em números rondam as 160 000 pessoas. É um número alarmante! Todavia, nem uma palavra de responsáveis políticos. E tudo indica, até por notícias recentes, que a visão abrangente e iluminada dos nossos governantes, para a aplicação do próximo quadro de apoios comunitários, se concentre… no litoral.
Preocupa-me a ideia estúpida seguinte.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

One Response to …a ideia estúpida seguinte

  1. João Pereira diz:

    Muito bem Fernando!
    Concordo inteiramente contigo!
    Abraço,
    João Pereira.

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