Navasfrías e Museu Casa Lis de Salamanca

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Nos anos quarenta e cinquenta do século passado, a minha terra, Aldeia do Bispo, dependia mais das povoações vizinhas do lado de lá da Raia do que das do lado de cá. O fraco rendimento agrícola era complementado com as pesetas ganhas com o contrabando que se levava até Valverde, El Payo, Robleda, Eljas, San Martín e, mais para o interior, Coria e Plasencia. Ia-se a Navasfrías (por ali dizia-se Nasfrias) comprar pão e azeite, alpergatas e pana (bombazina) e até remédios.

Museu de Arte Nova e Art Déco Casa Lis, em Salamanca - Capeia Arraiana

Vista nocturna da fachada em vidro «arte nova» do Museu Casa Lis, Salamanca

Estátua representando um Kewpie na Plaza Don Manuel Ramos Andrade - Navasfrías - Capeia Arraiana Boneca de porcelana de 1880 da colecção do Museu Casa Lis - Salamanca Vaso de vidro de Émile Gallé, Museu Casa Lis - Salamanca

(Clique nas imagens para ver as legendas e ampliar.)

Atravessávamos a Raia por veredas e atalhos, com o objectivo de iludir a vigilância dos guardas-fiscais ou dos carabineiros, e íamos abastecer-nos no «comércio de D. Tomás», no «Ti Feliciano» ou no «comércio dos Três». E, quando já éramos rapazotes, lá estávamos, aos domingos à tarde, no baile do «Salão», a dançar com «nuestras hermanas» ao som da concertina do Amador. Acabada a dança, ainda havia tempo para comer «callos» e beber uma cubalibre em qualquer bar. Aliás, só ali podíamos beber coca-cola, porque ela era proibida em Portugal.
Nas aldeias do lado de cá da Raia não havia electricidade, mas Navasfrías, graças a uma mini-hídrica, até tinha cinema: comecei verdadeiramente a minha cinefilia naquela sala modesta, onde vi a «Cabíria», de Federico Fellini, e «Viva Zapata», de Elia Kazan (com Marlon Brando).
Num dos últimos Agostos, fui com minha mulher revisitar Navasfrías, agora por estradas alcatroadas. Muitas coisas mudaram e quase todas para melhor. O meu prezado amigo e colega de escrita neste blogue, Professor José Manuel Campos, bem se tem batido pelo estreitamento dos laços de boa vizinhança com os nossos vizinhos castelhanos. Louvo e aplaudo os seus esforços, bem como os de vários outros autarcas dos dois lados da raia.

Conjunto escultórico da Plaza Don Manuel Ramos Andrade - Navasfrías - Capeia Arraiana

Conjunto escultórico da Plaza Don Manuel Ramos Andrade – Navasfrías

Uma das melhores surpresas que tive em Navasfrías foi a Plaza Don Manuel Ramos Andrade, com um conjunto escultórico formado por duas esculturas de crianças em bronze. Estava uma luz magnífica e um céu muito azul, o que me permitiu fazer algumas das fotografias que aqui se reproduzem. Não havia por ali ninguém que me pudesse esclarecer sobre o significado daquele monumento tão singular mas, mais tarde, a Internet esclareceu-me.
Don Manuel Ramos Andrade (este nome parece mais português que espanhol, o que nos leva a supor uma provável ancestralidade portuguesa), nasceu pobre em Navasfrías, em 1944, e cedo emigrou com a mãe e as irmãs para o Norte de Espanha. Estudou, correu mundo e tornou-se antiquário em Barcelona, transformando-se num dos maiores especialistas e coleccionadores de «arte nova» e «art déco». Morreu novo, em 1998, mas pouco antes, em 1990, criou uma Fundação com o seu nome e legou a sua extraordinária colecção à cidade de Salamanca, para com ela se estabelecer o Museu de Arte Nova e Art Déco Casa Lis. O Ayuntamiento de Salamanca disponibilizou um edifício que, com a colaboração do próprio Ramos Andrade, foi adaptado à nova função, nomeadamente através da construção de uma fachada e de uma galeria interior envidraçadas, ao estilo «arte nova». Entre as quase três mil peças da colecção do Museu contam-se numerosas bonecas de porcelana e um dos melhores conjuntos de criselefantinas (peças de ouro ou bronze e marfim), bem como jóias e vidros Lalique e Gallé, etc.
Mas Don Manuel Ramos Andrade, que nunca esqueceu as suas origens modestas, determinou também, nos estatutos da sua Fundação, que parte dos rendimentos do Museu se destinassem a apoiar os idosos da sua terra e a bolsas de estudo para as crianças de Navasfrías. Entre 1995 e 2011 as crianças e jovens de Navasfrías já beneficiaram de 600 mil euros desta mecenática herança, o que permitiu que se formassem engenheiros, médicos e outros licenciados.
Do mesmo modo, Navasfrías beneficiou também do interesse de Don Manuel Ramos Andrade pelo património antropológico local, que o levou a recolher várias centenas de objectos que hoje fazem parte do Museu Etnológico da vila, inaugurado em 1997 (ainda em vida do benemérito) quando era alcaide Don Fernando Flores Ramos.
Daí que o Ayuntamiento de Navasfrías, agora presidido pelo alcaide Don Celso Ramos Blanco, tenha decidido homenagear este notável conterrâneo com o seu nome numa praça da vila e a construção de um monumento. Este belíssimo conjunto escultórico, inaugurado em Julho de 2010, associa-se, por um lado ao interesse estético de Ramos Andrade pela «arte nova» e, por outro, ao seu objectivo de promover a educação das crianças desfavorecidas de Navasfrías: é formado por duas estátuas de bronze da autoria do escultor salmantino Andrés Alvarez, que representam duas crianças, colocadas sobre pequenos barrocos de granito, uma inspirada numa boneca tradicional alemã e outra no famoso Kewpie, inicialmente um pequeno cupido desenhado pela artista americana Rose O’Neill e depois popularizado sob a forma de adoráveis bonequinhos de porcelana.
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Caros leitores e amigos do «Capeia Arraiana», sejamos optimistas: ainda há gente que pensa nos outros. Apesar de todas as crises, tenhamos «alma até Almeida». E, entretanto, convido-os a visitar Navasfrías e, já agora, o Museu de Arte Nova e Art Déco Casa Lis, em Salamanca.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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