Sobre as origens da Capeia Arraiana

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Em Novembro de 2012 participei nas Jornadas sobre Tauromaquias Populares, no Sabugal. Foram apresentadas muitas e variadas comunicações que aguardam a publicação das respectivas actas para chegarem às mãos do público. Entretanto, acho que um blogue que se chama «Capeia Arraiana» é um bom espaço para retomar duas questões que então abordei e que ainda continuam em aberto: «As origens da capeia» e «As origens do forcão». Em duas crónicas sucessivas, tentarei trazer mais algumas achegas a estes dois apaixonantes e discutidos temas da antropologia cultural raiana.

Iluminura da cantiga 144 das «Cantigas de Santa Maria», de Afonso X, o Sábio, sobre o «Touro nupcial de Plasencia» - Capeia Arraiana

Iluminura da cantiga 144 das «Cantigas de Santa Maria», de Afonso X, o Sábio,
sobre o «Touro nupcial de Plasencia»

O tempo das capeias coincide (ou faz-se coincidir) com a época das férias e da vinda dos emigrantes. Tradicionalmente, porém, aqui como em muitas outras regiões do País, as festividades taurinas de carácter popular realizavam-se por altura das festas do Divino Espírito Santo (ou Pentecostes), que aconteciam no fim das ceifas, um tempo de alegria e de abundância. As raízes históricas destas celebrações mergulham muito profundamente. Por toda a região mediterrânica existiam festividades dedicadas à Deusa-mãe, símbolo da Terra fértil que a todos alimenta com generosidade. Estes rituais existiam na época romana e o Cristianismo limitou-se a aproveitá-los, tal como os cultos solares ou os cultos primaveris, modificando-lhes apenas o objecto e a intenção. Não admira, portanto, que os rituais taurinos se tenham também fixado na proximidade das colheitas, geralmente associados à principal festa religiosa de cada localidade.
Segundo penso, a origem da capeia, tal como actualmente a conhecemos, pode encontrar-se nos começos do século XIX. Isto não significa que não possamos detectar na Raia do Sabugal, e até mesmo em toda a região ribacudense, práticas de tauromaquia popular muito mais antigas, de carácter ritual ou sacrificial. Os vestígios artísticos e arqueológicos têm-no demonstrado (as gravuras do vale do Côa revelam uma grande abundância de touros selvagens, os auroques) e a vizinhança da região salmantina, onde encontramos festividades taurinas muito antigas, não podia deixar de influenciar as populações da raia transcudana. A «capeia com forcão», todavia, não nos parece que a possamos fazer recuar para além das primeiras décadas do século XIX.
Na distribuição geográfica das práticas tauromáquicas em Portugal, a Beira Interior não ocupa um lugar cimeiro, como sucede com o Ribatejo ou o Alto Alentejo, por exemplo – não é, tradicionalmente, região de criação de gado bravo e nada nos levaria a suspeitar que a lide de toiros desencadeasse o entusiasmo que encontramos na região fronteiriça do Sabugal, onde se realiza um espectáculo taurino original: «a capeia arraiana com forcão». Como explicar, portanto, o nascimento, a permanência e até a multiplicação desse entusiasmo pelas práticas taurinas populares nas aldeias da beira-raia sabugalense?
Para tentarmos encontrar uma explicação plausível para as origens desta prática de tauromaquia popular temos que olhar para o lado de lá da Raia, onde encontramos capeas e encierros em quase todos os pueblos. No entanto, não era apenas na região mais próxima da fronteira que se efectuavam espectáculos taurinos de carácter popular. Encontramo-los, desde há muitos séculos, disseminados por todas as regiões de Espanha.
Por se situar numa cidade próxima da Raia sabugalense, vale a pena referir o «ritual do touro nupcial de Plasencia». Embora se trate de uma tradição que encontramos noutras localidades, o episódio de Plasencia chegou até nós com maior nitidez – incluindo iconográfica – por ser descrito e ilustrado na cantiga 144 das «Cantigas de Santa Maria», de Afonso X, o Sábio. Como sabemos, trata-se de um original manuscrito e iluminado do século XIII, com 427 cantigas em galaico-português, em louvor da Virgem Maria (letra e música), algumas das quais foram compostas por aquele monarca, avô do nosso rei D. Dinis. Ora a cantiga número 144 conta que um homem de Plasencia se encontrou subitamente, numa rua da cidade, frente a um touro bravo e, tendo rezado a Santa Maria para que o salvasse desta aflição, a Virgem escutou-o e o touro ficou subitamente manso. Narrado e cantado o milagre, perguntamos nós: como foi parar um touro selvagem a uma rua de Plasencia?
O ritual do touro nupcial decorria no dia do casamento ou no dia anterior. O noivo e os seus amigos (a sua «quadrilha») capturavam na floresta um touro selvagem(1) e levavam-no, toureado ou atado com sogas, pelas ruas da cidade, até à casa da noiva. Aí, o noivo devia matar o touro utilizando lanças e bandarilhas enfeitadas pela noiva. Com o touro morto, o noivo, com as mãos manchadas de sangue, limpava-as a um lenço oferecido pela sua futura esposa ou ao próprio vestido da noiva – eis um típico ritual de fertilização, uma clara alegoria à força reprodutiva do touro e também ao sangue virginal. Na cantiga 144, é exactamente quando o noivo e os seus companheiros encaminham o animal pelas ruas de Plasencia até à porta da noiva que ocorre o milagre.
O nosso interesse por este episódio, do ponto de vista deste texto, justifica-se porque ele demonstra como as práticas e os rituais taurinos de carácter popular são antigos e persistentes na orla raiana das vizinhas províncias castelhanas. Ora se as influências linguísticas, alimentares e de costumes atravessavam a fronteira com toda a facilidade, nada de admirar que o mesmo acontecesse com as festividades populares.
A este propósito, podemos dar outro exemplo de carácter antropológico, este relativamente mais recente: nos anos 50 e 60 do século passado era frequente realizar-se em algumas aldeias da Raia a «corrida do galo»: estendia-se uma corda entre duas árvores e nela pendurava-se pelas pernas um galo vivo. Ganhava o galo o rapaz que, a cavalo e em corrida desenfreada, mais depressa conseguisse arrancar à mão a cabeça do cantante. Para além da crueza arrepiante da cena, o que nos impressiona é o facto de haver por ali cavalos e cavaleiros em número suficiente para se disputar um jogo destes, o que se compreende se pensarmos que muito do contrabando era feito com cavalos.
E donde veio este ritual? Das vizinhas aldeias da Jalama (Xalma), da Sierra de Gata e da Sierra de Francia. Logo numa das primeiras cenas do precioso documentário «Las Hurdes», de Luis Buñuel, filmado em 1932 e 1933, assistimos a um desses bárbaros torneios em La Alberca(2): os mozos albercanos fazem a «corrida de los gallos» e, em seguida, bebem, cantam e bailam com as raparigas da aldeia.
Ora, se estes rituais eram trazidos pelos contrabandistas, por que razão eles não haviam também de assistir às capeas e de trazê-las para as suas aldeias?
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(1) Lembremos que não existiam, nesse tempo e até ao século XVIII, touros bravos de lide criados em ganadarias. Os touros eram selvagens, como os veados ou os ursos, e eram caçados em montarias, sobretudo por cavaleiros nobres.
(2) Os leitores que queiram ver esta cena (ou todo o filme), podem fazê-lo: Aqui (com locução em francês e sem legendas) ou Aqui. (com locução em francês e legendas em castelhano).
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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