O barbeiro

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

O barbeiro das aldeias era um cidadão que, para além dessa função também trabalhava a terra como os restantes. Possuia ainda outras valências de natureza curativa que por vezes resultava. Esta profissão foi sendo substituida pelos actuais caleireiros pelo hoje começam a ser raros os barbeiros com as características que antes tinham.

O barbeiro tradicional

O barbeiro tradicional

De entre as figuras características da generalidade das aldeias o barbeiro era sem dúvida um personagem que todos conheciam principalmente os membros da aldeia do sexo masculino.
Nas aldeias, o barbeiro não fazia apenas a barba, ele cortava o cabelo, e em épocas mais remotas ainda era uma espécie de curioso da medicina, opinando e executando pequenas intervenções cirúrgicas que quando tinham sucesso aumentavam a sua popularidade e curriculum. Quando por uma razão ou outra isso não acontecia, por norma tinha sido o azar, ou o não podia ter feito melhor, o que também não manchava o curriculum.

A cadeira do barbeiro

A cadeira do barbeiro

O barbeiro era um cidadão como os restantes embora mais qualificado pois os outros não eram capazes de fazer o que ele fazia. Esta figura era notada por ser por norma única e por ser uma daquelas a que todos os outros tinham de recorrer num qualquer momento.
O barbeiro fazia a barba aos homens da aldeia, ou melhor, como dizia o da minha terra, com ar de erudito, desfazia a barba. Por isso não havia cara que não fosse amaciada pelo menos uma vez por semana com a navalha do barabeiro. A barba era desfeita depois de o barbeiro ter colocado uma espécie de espuma, produzida com sabão em pó ou mesmo em barra, através de várias mexidas com o pincel de barbear, que também servia para espalhar na cara do cliente aquela espuma.
Pincel

Pincel

Navalha

Navalha


Depois era a mão do barbeiro que segurando a navalha de barbear, ia operando com pericia a limpeza da cara do cliente, à medida que cortava os pelos. Este sempre se chamaram pelos e não cabelos, não percebo por quê.
Terminada a barba, e limpa a cara de alguns restos de espuma, o barbeiro passava na cara uma pedra que parecia gelo depois de ter sido molhada com vista a desinfectar algum corte, resultante de uma distracção do barbeiro. É a pedra humes (Alumen de Potássio) que entre outras possui propriedades cicatrizantes. Estanca o sange em segundos e daí o seu uso pelo barbeiro.
O barbeiro também cortava o cabelo aos homens embora com uma regularidade menor que a barba como facilmente se percebe. Para além disso, era o barbeiro que cortava o cabelo aos petizes, e até ajudava a compôr a barba dos defuntos. Em tempos idos e não muito distantes era o barbeiro que cortava o cabelo à “máquina Zero” quando os rapazes iam assentar praça e não queriam sujeitar-se às carícias do barbeiro do quartel onde isso acontecia.
Pedra humes - aftershave dos anis 60

Pedra humes

Nos tempos mais distantes, meados do século passado, o trabalho do barbeiro das aldeias mais rurais não era pago com dinheiro mas em géneros. O barbeiro recebia uma determinada quantidade de centeio ou batatas como pagamento do seu trabalho. Fazia sentido que assim fosse. Sendo o barbeiro mais um habitante da aldeia, que trabalhava as suas terras como os restantes para o seu sustento, o tempo que gastava a fazer as barbas aos restantes não podia trabalhar logo teria de ser compensado. Na minha aldeia creio que, no caso de ser centeio, o pagamento rondava um alqueire por ano e por homem.
Máquina mecânica

Máquina mecânica

Naquela época o pagamento em dinheiro por serviços prestados era frequentemente substituido pelo pagamento em géneros principalmente quando se tratava de personagens que desempenhavam também actividades de utilidade comunitária, como o eram por exemplo: O padre, o barbeiro, o moleiro, o coveiro, etc.
As coisas evoluiram e agora os barbeiros de aldeia são cada vez mais raros. Mesmo nas vilas ou cidades o barbeiro está a tornar-se uma profissão em vias de extinção. Cada vez mais os erviços que o barbeiro prestava são agora executados ou pelo próprio cliente que faz a barba a si próprio e até mesmo o corte de cabelo. Com a invenção de aparelhos cada vez mais sofisticados e economicamente sustentáveis para a generalidade das bolsas profissões como a do barbeiro acabaram por ser cilindradas com o evoluir da técnica e têm tendência a desaparecer.
Mas mesmo assim ainda há sobreviventes, ou melhor subsistentes, em muitos locais, mesm nas grandes cidades. Eu por exemplo corto o cabelo em Lisboa no mesmo barbeiro há mais de 30 anos e é num barbeiro daqueles antigos, o Alfredo, um algarvio de gema que tem sempre uma história para contar. Por norma as gerações mais novas nalguns casos acompanham os pais e por vezes também eles já vão ao mesmo barbeiro hà muitos anos. O ambiente que está associado às barbearias é algo de único e que não se encontra nos locais que as substituiram, os salões de cabeleireiro. No barbeiro tradicional fala-se de futebol, de politica, contam-se histórias e anedotas com graça duvidosa mas que os clientes, naquele local, acham sempre engraçadas, ou fingem que acham.
Hoje, os tradicionais barbeiros cada vez mais estão substituídos pelos chamados salões de cabeleireiros, onde se arranja o cabelo, mas não se faz a barba. Os cabeleireiros passaram a ser mais profissionais, estudaram para desempenhar aquela profissão e por isso é natural que a perfeição no corte de cabelo seja maior.
Antes os barbeiros, os pedreiros, os canalisadores, os electricistas, etc aprendiam as respectivas profissões pela transmissão verbal do conhecimento entre os mestres e os aprendizes. Era uma forma de formação muito directa e praticamente começando logo a meter a mão na massa.
Lembro-me de situações de pessoas que foram mandadas aprender um ofício com um desses raros mestres e que passado algum tempo eram devolvidos à origem com a indicação do mestre, “este, não dá para isto”. Era uma avaliação directa do mestre em face do desempenho e aptidão demonstrada mesmo nas pequenas tarefas iniciais, e por norma até tinham razão.
Aprender um ofício obrigava a muito tempo de trabalho com quem o ensinava e não era raro, por exemplo que um pedreiro só fosse considerado pedreiro ao fim de alguns anos a aparelhar pedra; um barbeiro ao fim de alguns meses.
Há dias, no inicio de uns curtos dias de férias, tentei encontrar um local onde cortar o cabelo no algarve. Essa procura, e as dificuldades por que passei, motivaram esta crónica. Procurei pelos meios usuais, desde a internet até ao porta a porta, por um barbeiro. Mas barbeiros não havia. Depois disso virei-me para os cabeleireiros e lá encontrei um, na Luz.
Chegado ao local, espreitei pelo vidro, o ambiente interior e, nada de semelhante com um barbeiro. Claro que aquele local não era uma barbearia, era um salão de cabeleireiro, unisexo, com 2 empregados, cabeleireiros, pois claro. Quando disse que queria um corte curto, por exemplo um pente 8 respondeu-me que o maior que tinha era pente 4 mas que, com a sua perícia cortaria o cabelo do tamanho que eu quisesse. Aquele local nada tinha de parecido com o barbeiro onde habitualmente corto o cabelo. Não havia jornais para ler, os executantes não falavam de futebol, nem de política, nem diziam piadas de duvidoso gosto, etc. Enfim aquilo não era um barbeiro, mas lá me cortou o cabelo.
Durante o corte, fez muita questão de vincar a difrença entre barbeiro e cabeleireiro e que ele era um cabeleireiro. Pareceu-me a mim, pela conversa havida, que barbeiros actualmente são aqueles que não conseguem ser cabeleireiros nos cursos de formação que frequentam. Será que estou enganado? Seja como for quer uns quer outros continuam a ser necessários conforme a necessidade do cliente. É verdade que as necessidades dos clientes cada vez mais são supridas por eles próprios e por isso é natural que determinadas profissões tendam a desaparecer. É a vida.
«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

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