O eclipse total da democracia

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Numa conferência proferida na já remota era de mil novecentos e sessenta e cinco, o politólogo Jean Ousset considerava como um dos fenómenos mais curiosos da segunda metade do século XX o desaparecimento da democracia que apenas subsiste no aspecto formal e a sua substituição por tecnocracias ocultas.

E o que torna a questão ainda mais perturbante é que as democracias modernas, embora manejadas apenas por pequenas minorias, é certo que muito activas, se apresentam de modo a fazer-nos crer que autenticamente se trata de governo do povo, para o povo e pelo povo.
De resto, é a sociologia deste sistema, onde o poder real de uma minoria fortemente minoritária deve dar a aparência de governo da maioria que explica o papel dos mídia no actual conspecto das ainda ditas democracias.
Essencialmente enfraquecidas e perturbadas pelo princípio electivo que lhes serve de base, não escondem uma terrível desconfiança perante as autoridades sociais, nascidas dos chamados corpos intermédios.
Autoridades sociais sempre suspeitas, sempre consideradas como inimigas, ou minime, como rivais pelo poder democrático, sempre receoso de perder eleições.
E quando o povo, finalmente liberto de peias partidárias, encontra vozes que autenticamente o representam, então vem logo o anátema do populismo, sistema que os partidos não toleram.
Não há país real para além dos partidos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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