Pelourinhos em Terras de Riba Côa (5)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Castelo Mendo. Ao conceder forais a determinadas aldeias, o Rei reconhecia a sua importância para a defesa do território nacional. Quando essas aldeias entretanto concelhos, perderam essa importância, foram extintos os concelhos. É importante, é necessário, é justo, reavivar a memória dos mais esquecidos.

Castelo Mendo

Castelo Mendo

Brasão de Castelo Mendo

Brasão de Castelo Mendo

Castelo Mendo é hoje uma pequena aldeia do concelho de Almeida localizada na margem esquerda do Rio Côa, logo após este ter recebido as águas do Rio Noémi.
Esta aldeia, foi construída no cimo de um penhasco rochoso de granito, à cota 800, praticamente inacessível do lado voltado ao Côa. Esta aldeia é muralhada desde a data da sua fundação.
Castelo Mendo é uma aldeia Portuguesa mesmo antes do Tratado de Alcanises, possuindo por isso, nessa altura, uma importância semelhante à que possuía a Sortelha. No fundo, esta aldeia fortificada era a última antes da fronteira que na altura se situava no Rio Côa.
Esta fortificação deveria ter para Portugal uma importância idêntica à que Castelo Bom tinha para o reino de Leão. Uma fica quase defronte da outra no vale do Côa.
Não é por isso de estranhar que a Castelo Mendo tenha sido concedido foral logo no inicio do século XIII criando com isso o respectivo concelho. O objectivo principal da concessão deste foral era o povoamento daquele território que após a sua conquista aos mouros se mantinha tão perto da fronteira que qualquer investida se bem sucedida poderia originar a sua perda.
Por tudo isso e principalmente por isso, a preocupação na construção de muralhas em toda a sua volta, muralhas que ainda hoje, em 2013, se mantêm em razoável estado de conservação 800 anos após a sua construção.
O concelho de Castelo Mendo foi criado em 1186, data em que, D. Sancho I lhe atribuiu foral. Em 15 de Março de 1229, D. Sancho II concedeu novo foral. Em 1281 D. Dinis concedeu a carta de feira franca à então vila e, em 1295 concedia-lhe novo foral. Neste caso, com a atribuição do foral, o rei pretendeu atingir três objectivos: povoar, defender, desenvolver. Enquanto que os dois primeiros objectivos eram comuns à generalidade dos forais régios, a verdade é que com a criação pelo foral de uma feira franca que se realizaria 3 vezes durante o ano, (na Páscoa, nas festas de S. João (Junho) e nas de S. Miguel (Setembro) e que cada uma durava 8 dias, não restam dúvidas que naquele local havia muito para comercializar.
O facto de se tratar de feiras francas era mais um beneficio para os seus participantes que assim ficavam isentos de quaisquer impostos sobre os bens trasacionados. Tanto quanto se conhece foi a primeira vez que num foral se faz referência a uma feira destas (segundo Virgínia Rau, ilustre historiadora da Faculdade de Letras de Lisboa) pois por vezes apareciam referências a mercados, mas feiras não.
Estas feiras, como pode verificar-se pelas datas da sua realização estão ligadas e alinhadas com o ciclo da vida rural. Na Páscoa provavelmente comercializava-se gado, em Junho as primeiras colheitas e em Setembro as últimas.
O pelourinho de Castelo Mendo terá sido construído em 1510 data em que D. Manuel I renovou o foral a Castelo Mendo.
Pelourinho de Castelo Mendo

Pelourinho de Castelo Mendo


O pelourinho é uma obra de arte, própria de uma povoação importante e ao estilo Manuelino. É monumento de interesse público e a sua descrição encontra-se pormenorizada (aqui).
Mapa assinalando o concelho de Castelo Mendo

Mapa assinalando o concelho de Castelo Mendo

O concelho de Castelo Mendo era formado desde a sua criação pelas freguesias de: Ade, Aldeia Nova, Amoreira, Azinhal, Cabreira, Castelo Mendo, Cerdeira, Freixo, Leomil, Mesquitela, Mido, Miuzela, Monte Perobolso, Parada, Peva, Porto de Ovelha e Senouras e a sua composição geográfica era a que consta do mapa que ilustra o artigo.
Com a celebração do tratado de Alcanises entre Portugal e Leão e Castela, a fronteira de Portugal deslocou-se para leste, para a zona de Vilar Formoso o que fez diminuir a importância deste concelho em termos da defesa do território, pois agora a fronteira ficava mais longe e por isso, a haver reforço de importância estratégica da defesa ela teria de incidir sobre outras povoações como por exemplo Almeida, Vilar Maior, Alfaiates.
A existência em Castelo Mendo de um Aron (livro da lei) denota a importância que este local teve para os Judeus. Este livro, em rolo, só existia em locais onde as comunidades judaicas tinham grande importância e eram numerosas. Talvez a existência desta comunidade, tenha sentido o chamamento da feira franca, pois como sabemos os judeus sempre foram essencialmente comerciantes.
Assim, Castelo Mendo foi perdendo gradualmente a sua importância até que, em 1855 o concelho foi extinto, tendo as freguesias que dele faziam parte sido incorporadas no concelho de Almeida e a Cerdeira no do Sabugal. Castelo Mendo regressou assim à sua anterior e longínqua condição de freguesia que incluía uma aldeia anexa Paraizal onde se encontra um relógio de Sol.
Também Castelo Mendo, como em quase todas as terras, se conta uma lenda que curiosamente tem uma referência à Senhora do Sacaparte em Alfaiates (aqui).
Actualmente a povoação sofre do mal de quase todas as povoações da zona, isto é, da falta de pessoas. Ainda assim os seus residentes e com a colaboração de vizinhos têm vindo a organizar anualmente, no fim de semana a seguir à Páscoa, a feira medieval que é um evento que cada vez reúne mais visitantes.
E se há local onde a realização de uma feira deste tipo faz sentido é em Castelo Mendo, pois a sua localização, características próprias e a conservação da muralha criam um ambiente único para estes eventos. Vem isto a propósito de agora estar na moda organizar feiras deste tipo em tudo quanto é sítio e muitas vezes em locais que até nasceram muito depois da época medieval. Cada coisa no local que mais se adeque e não todas as coisas em todos os locais.
A paisagem envolvente de Castelo Mendo é duma rudeza tão bela que dificilmente alguém pode não gostar. Parar na zona mais interior do castelo e olhar o Côa através do penhasco inacessível do lado nascente (como acontece com a Sortelha) quase nos faz faltar o ar.
A aldeia faz parte do programa das aldeias históricas o que permitiu manter em bom estado quer a parte interior das muralhas, quer mesmo a devesa.
As muralhas e castelo foram classificados como monumento Nacional desde Janeiro de 1946 (aqui).
Com a reforma administrativa operada em 2013 (aqui), esta aldeia deixou de ser freguesia, passando a integrar uma nova unidade territorial a que se deu o nome de União das Freguesias de Castelo Mendo, Ade, Monte Perobolço e Mesquitela.
Castelo Mendo é daqueles locais que tem que se visitar, pois por mais descritivos que tentemos ser nos textos que produzimos, alguns bastante belos, como por exemplo o do nosso colaborador no Capeia Arraiana, Fernando Capelo, (aqui), nunca substituiremos as sensações que uma visita ao vivo nos proporciona. Não percamos tempo, visitemos esta terra. Não vamos arrepender-nos nem dar por mal empregue o tempo que gastarmos.
«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

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