À fala com Orlindo Pereira

À Fala Com... - © Capeia Arraiana

Estivemos à conversa com o tenente-coronel Orlindo Pereira, de 66 anos, natural das Quintas de São Bartolomeu, concelho do Sabugal. Agora na reserva, começou a carreira militar como oficial miliciano, combatendo em África. Visitámo-lo em casa, na Chamusca, onde falámos da sua participação na Revolução de 25 de Abril de 1974, altura em que fazia serviço no quartel da Guarda e foi destacado para Vilar Formoso para encerrar a fronteira, prender os elementos da Pide e assegurar a ordem.

Tenente-coronel Orlindo Pereira

Tenente-coronel Orlindo Pereira

– Quando se deu o 25 de Abril de 1974 era um jovem oficial colocado no quartel da Guarda. Qual eram as funções que desempenhava nessa unidade militar?
– Na altura eu era tenente e detinha o comando da única companhia operacional. O Regimento de Infantaria 12, como era designado o quartel da Guarda, tinha uma companhia operacional, uma companhia de serviços e, uma vez por ano, no verão, tinha também uma companhia de recrutas – durante o resto do ano, devido aos rigores do frio, não havia instrução.
– Conte-nos o que sucedeu no dia da Revolução.

Major-General Augusto Valente

Major-General Augusto Valente

– Na madrugada do dia 25 de Abril o na altura capitão Augusto Monteiro Valente, da Miuzela, que era o delegado do MFA, chamou-me e colocou-me ao corrente do que se passava. Eu aderi de imediato ao Movimento e ele deu-me uma missão que consistia em conduzir a minha companhia a Vilar Formoso para tomar conta da fronteira.
– Ficou ciente de que se tratava de mudar o regime político em Portugal?
– Exactamente. Havia rumores de que se preparava um golpe, mas eu, que tinha sido oficial miliciano, estava algo afastado das questões políticas. Como era o comandante da força operacional do Regimento fui o primeiro a ser chamado. O capitão Valente consultou depois o comandante da unidade, o coronel António José Ribeiro, assim como o segundo comandante, um tenente-coronel de Nave de Haver, mas eles mostraram-se relutantes. O Valente teve a hombridade de dizer ao comandante: «meu coronel isto é uma revolução, o Movimento das Forças Armadas quer devolver a democracia ao povo, de maneira que o senhor tem toda a vantagem em aderir». Só que eles hesitaram e não atavam nem desatavam. O comandante meteu uma pistola por dentro do blusão e disse que ira pensar no assunto. Entretanto eu formei a minha companhia, armei-a, municiei-a e montei-a nas viaturas, pronta a sair do quartel.
– Mas faltava a ordem para entrar em movimento…
– A questão era que os comandantes não se decidiam e a Pide da Guarda estava no muro a oeste do quartel a vigiar-nos com binóculos. À hora de almoço o capitão Valente deu mostras de que estava farto de esperar. «Temos que tomar uma atitude», disse-me, e acompanhei-o à messe de oficiais onde se dirigiu ao coronel: «Meu comandante, o senhor adere ou não adere?». «Você está louco!», respondeu-lhe o comandante, ao que o Valente puxou da pistola e apontou-lha, tendo eu apontado a minha ao segundo comandante. Este tentou avançar para nós e o Valente deu um tiro para o chão, que perfurou a alcatifa. Eles então convenceram-se que era melhor não tentarem nada. Chamámos os aspirantes novos que estavam a estagiar no quartel – um deles era o Mário Lucas do Sabugal – e conduzimos, com todo o respeito, os comandantes para os seus quartos, a cujas portas o Valente colocou os aspirantes a guardá-los com G3. Eu então coloquei-me à frente da minha companhia para seguir para Vilar Formoso e o Valente, com o sentido de responsabilidade que sempre o caracterizou, chamou um oficial, um sargento e duas praças para testemunharem a saída do quartel. No portão, dirigiu-se ao sentinela e disse-lhe: «vou assinar e entregar-te um documento onde consta a ordem para abrires os portões para que a força armada saia em missão». Antes de sair reiterou-me que eu era o comandante da força e o responsável operacional da missão e que ele me ia acompanhar mas apenas para fazer a divulgação politica e contactar as autoridades de Vilar Formoso para lhes explicar as razões da revolução.
– E não interferiu no comando da operação?
– Ele optou por seguir no meio da coluna e apenas me pediu para parar no Alto do Leomil. Lá chegado, formei a companhia e apresentei-lha. Ele disse o que ninguém ali sabia: o estado em que estava o país, as razões que levaram o MFA a derrubar o governo para instalar a democracia e o papel das Forças Armadas como instrumento para essa missão. Passou-me depois a palavra e eu chamei os cinco oficiais e os doze sargentos que estavam sob o meu comando e expliquei-lhes a táctica militar: como seguiriam as viaturas a partir dali, qual era a distribuição das metralhadoras, etc… Eu desconfiava de algo e levei praticamente todo o material pesado que havia no quartel – metralhadoras, bazucas e morteiros.
– Desconfiava de resistência em Vilar Formoso?
– Não era isso que me preocupava… Mais à frente explicarei essas razões. Coloquei de novo a coluna em movimento e quando cheguei a Vilar Formoso isolei a fronteira e contactei as autoridades espanholas. Um oficial espanhol pediu-me para não apontar as armas para Espanha, e eu reparei que de facto havia uma metralhadora que estava para lá voltada, o que corrigi de imediato. Havia muito movimento de carros na fronteira, imigrantes e excursionistas, incluindo um autocarro cheio de chilenos, coisa rara naquele tempo. Os excursionistas chilenos fizeram um baile junto à Alfândega, dando vivas ao Pinochet, algo insólito, quando se estava ali a fazer uma revolução contra o fascismo.
– Não houve percalços em relação ao planeado?
– Do ponto de vista da missão operacional correu tudo bem e o capitão Valente foi cumprir a sua missão, falando com as autoridades civis de Vilar Formoso e de Almeida, com os párocos e com quem ele bem entendeu para explicar as razões da revolução. Da minha parte cumpri a minha missão, que incluiu fechar a fronteira, quer a estrada, quer o caminho-de-ferro, e conduzir todos os elementos da Pide para um recinto onde ficaram isolados. Não lhes fiz mal nem deixei que alguém os tratasse indevidamente. Responsabilizei o chefe deles, indicando-lhe que deveria ser ele a falar comigo para que tudo se resolvesse. Houve até o caso curioso de um deles me dizer: «queria enviar esta cartinha para a minha mulher, está aberta para o senhor a ler». Disse-lhe para a fechar imediatamente: «É isso que a gente está agora a combater, esse tempo em que se lia a correspondência dos outros acabou».
– E o que aconteceu depois aos detidos da Pide?
– Esperei por ordens de Coimbra, do Comando Militar da Região Centro, para saber o que fazer com eles. Tinha comigo 22 pides. Só ao fim do dia, pelas seis horas, é que recebi a ordem para os conduzir ao Estabelecimento Prisional da Guarda. Mandei vir uma viatura adequada e fui lá entregá-los contra uma guia assinada. Entretanto fui buscar os três pides que estavam em Barca de Alva, onde apenas encontrei dois, já que um estava de férias. Os da cidade da Guarda mandei buscá-los ao respectivo posto – alguns deles tinham seguido atrás da coluna para Vilar Formoso para vigiarem os movimentos da tropa e esses tinha-os prendido logo juntamente com os que faziam serviço na fronteira. Na Guarda houve a lamentar a atitude de alguns civis que acompanharam a tropa que destaquei ao posto da Pide, pois invadiram selvaticamente as instalações e destruíram e roubaram documentos, nomeadamente processos individuais que nunca mais apareceram.
– Há pouco falou do material pesado que levou, que afinal não foi utilizado…
– Na verdade usei algum desse material quando regressei de Vilar Formoso. Bati a tiro de metralhadora o morro que está defronte à ponte do rio Côa, desconfiado que houvesse ali resistência. Fora informado por telefone, por um alferes de Alfaiates, o Serafim, que hoje trabalha num banco, que havia um problema no quartel: o capitão Pina, de Pinhel, que era um homem mais velho, aliciara os aspirantes que estavam a guardar os comandantes, libertou-os e eles assumiram de novo o comando do quartel. Disse-lhe que não havia problemas já que todo o armamento pesado estava comigo – as arrecadações estavam vazias. Eu estava desconfiado e levei aquele material comigo por pensar que se ficasse na Guarda nos poderia causar danos no nosso regresso. O comandante até terá dito que os que tinham saído quando regressassem seriam recebidos a tiro. Mas o material pesado, como disse, estava comigo, nem todo montado e pronto a usar, mas a maior parte dele acondicionado.
– E o que resultou de terem reassumido o comando do quartel?
– Não deu em nada, pois as noticias que estavam a ser divulgadas davam conta do triunfo da revolução e eles acabaram por aguardar sentados nos sofás o regresso do Valente. Quando chegou ao quartel, ele revelou mais uma vez o seu total sentido de responsabilidade e o profundo respeito que tinha pelas hierarquias. Para acautelar reacções indevidas, mandou-os conduzir ao hotel de Turismo da Guarda onde ficaram instalados até haver ordens da região militar quanto ao seu destino. E as ordens foram para os conduzirmos a Coimbra, ao comando, onde de facto os entregámos.
– Entretanto a fronteira de Vilar Formoso ficara entregue à Guarda Fiscal?
– Nessa fase ainda não. Eu regressei à Guarda com dois pelotões e deixei outros dois em Vilar Formoso, para onde voltei depois e me fui mantendo, com idas e vindas à Guarda, até que a situação normalizou. Recebi uma mensagem informando que a esposa do general Spínola vinha da Suíça, onde fora em excursão, e lá fui eu apresentar-lhe cumprimentos. Entretanto a fronteira tinha sido reaberta.
– Não houve problemas com as demais autoridades?
– Tudo correu bem com a Guarda Fiscal e com a Alfândega, que continuaram com a sua missão. O único problema foi com a GNR. Eu instalei o meu comando nas instalações da Pide e mandei chamar o comandante da GNR, que era um sargento, para me informar do plano de patrulhas, já que queria colocar um dos meus homens em cada uma dessas patrulhas, pois o quartel do Carmo tinha-se rendido e a GNR estava à disposição das Forçar Armadas. Recebi a resposta de que se queria falar com o sargento teria que me deslocar ao quartel da GNR. Tentando chamá-lo à razão, enviei-lhe o recado de que eu não podia abandonar o local do comando e era melhor ser ele a deslocar-se. Voltou-me a enviar a mesma resposta. Eu não podia aceitar toda aquela relutância, pelo que chamei o furriel José Santos, do Soito, e fomos os dois ao posto da GNR, onde encontrámos os guardas todos formados, com o cabo à frente. Perguntei-lhe pelas armas e ele mostrou-me o armário onde estavam, deu-me a chave e manifestou-me estar à nossa inteira disposição. Perguntei-lhe então pelo sargento e o cabo disse-me que ele estava no andar de cima a tomar o pequeno-almoço com a esposa e a filha. Pedi-lhe para o chamar e lá veio ele finalmente. Perguntei-lhe a razão de não ter ido a ter comigo, fazendo-lhe notar que a GNR estava sob o comando das Forças Armadas. A reacção dele foi perguntar-me: «vou preso?». Disse-lhe que ninguém o queria prender, que desejava apenas falar com ele. Mas ele insistia em dizer-me que só saía dali se fosse preso. Eu então fiz-lhe a vontade: «Está preso!». Mas para minha surpresa virou-me as costas e fugiu para dentro das instalações do quartel. O Zé do Soito apontou-lhe a arma e eu vi que ele ia mesmo disparar e tive que lhe dizer para o não fazer. O sargento corria acompanhado pela mulher ainda em pijama e a filha atrás gritava que não lhe matassem o pai.
– Pelos vistos foi mesmo difícil chamá-lo à razão…
– Eu levava uma bazuca e mandei apontá-la ao edifício e disse que lhe dava dois minutos para sair, sob pena de arrasar o posto. Todos os guardas saíram imediatamente e colocaram-se à minha disposição. Ao fim dos dois minutos o sargento também saiu e disse-me «agora já posso ir preso». Levei-o no meu jipe e conduzi-o ao meu gabinete, onde lhe fiz ver que a única coisa que queria dele era a constituição de equipas mistas para as patrulhas, explicando-lhe que era importante mostrar que a GNR estava ao lado das Forças Armadas. Anos mais tarde vim a saber que o sargento quando me fugiu para dentro do quartel da GNR fora telefonar para a Guarda, para o comandante dele, o tenente Rodrigues, queixando-se que a tropa o estava a tratar mal. O tenente Rodrigues foi ao quartel da Guarda, onde já estava o capitão Valente, a queixar-se de estarem a tratar mal o comandante da GNR de Vilar Formoso.
– Quantos militares tinham seguido para Vilar Formoso?
– Foi a companhia operacional completa, um total de 130 homens.
– E como se tratou da logística, nomeadamente da alimentação desses militares?
– Nós fomos prevenidos com ração de combate completa, para 48 horas, e dei autorização para se abrir para o primeiro dia. Estava também planeado receber abastecimento de comida quente a partir da unidade. Mas a verdade é que se passou algo muito curioso. Começaram a aparecer pessoas, quase todas do concelho do Sabugal, carregando cestos com presuntos, queijos, pão, chouriços, tudo para a tropa. Cito desde logo o Toninho do Soito e o cunhado dele, o Manel Zé, que tem a pastelaria. Também veio gente de Alfaiates com muita comida. Não nos faltou nada. E veio quase tudo do concelho do Sabugal. Para além de mim havia vários outros militares do concelho do Sabugal e talvez tenha sido isso que motivou as pessoas a nos irem lá apoiar.
– Sentiu então um grande apoio da população, à semelhança do que aconteceu no resto do País?
– Sim, houve um grande apoio popular e tudo correu de forma ordeira, tirando alguma manifestação de desagrado para com a Pide e a GNR, mas sem grande significado, e que logo contivemos.
– O movimento na fronteira normalizou rapidamente?
– As filas dissiparam-se ao fim de algum tempo e tudo ficou normalizado. Tenho para contar que no dia 28 de Abril recebi uma mensagem ordenando-me que recebesse o Dr Mário Soares que vinha de França no comboio. Entrei no comboio de capacete e de G3 e quando cheguei ao pé do Dr Mário Soares, que estava no compartimento a pentear-se ao espelho, apresentei-me e ele deu-me um grande abraço com as lágrimas nos olhos e disse-me: «Este é um momento histórico». Depois saí do comboio para verificar se estava tudo em ordem, voltei passados alguns minutos e perguntei-lhe: «Senhor Dr Mário Soares, dá-me licença para que mande avançar o comboio?». Disse-me que sim e eu despedi-me e saí para indicar que o comboio podia retomar a marcha. Ele já falou disto em várias entrevistas. Entretanto, passados uns dias tudo ficou restabelecido e eu voltei definitivamente à Guarda. O Valente foi nomeado comandante do regimento e eu, que era um simples tenente, fiquei segundo comandante. Mas isso foi por muito pouco tempo.

(A entrevista continua, para falarmos sobre a carreira militar do já falecido capitão de Abril Augusto Valente que chegou a general).
plb

2 Responses to À fala com Orlindo Pereira

  1. cidadão do mundo diz:

    Orlindo,
    seguramente teria estado contigo. Uns meses antes fui mobilizado desse quartel para a guerra. Um aparte… é pena que não possamos continuar a sonhar. As elites do antigamente e os banqueiros estão a tirar a desforra.

  2. Hélder Pires diz:

    Excelente entrevista.

Deixar uma resposta