Freguesias do concelho do Sabugal em 1758 (25)

Censos 1758 - © Capeia Arraiana

:: :: RAPOULA DO CÔA :: :: Os manuscritos depositados na Torre do Tombo, em Lisboa, são a resposta a um inquérito censório a todo o reino assinado pelo Marquês de Pombal três anos após o terramoto de 1755. O Capeia Arraiana está a publicar as respostas dos párocos das paróquias das 40 freguesias do concelho do Sabugal agora que, pelo menos 10 das retratadas, vão desaparecer para sempre por obra e graça dos senhores mandantes da troika europeia.

Igreja Matriz da Rapoula do Côa - Capeia Arraiana

Igreja Matriz da Rapoula do Côa (foto: rapazão)

RAPOULA DO CÔAEsta terra pertence à Comenda de Santa Maria de Vila do Touro. O cura, Manuel Gonçalves de Matos, queixa-se de que faz falta uma ponte sobre o Rio Coa, no Sítio da estrada que vai para Alfaiates e para a Guarda.

Comarca de Castelo Branco, Termo de Vila Touro, Bispado da Guarda.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Dicionário Geográfico, vol. 31, doc. 16, p. 75.
Património arquivista da Paróquia da Rapoula do Côa (Sabugal) entre 1630 e 1911.
Aqui.

Em observancia de huma carta do Illustrissimo e Reverendissimo Senhor Doutor Martinho Rodrigues, dignissimo Provizor deste Bispado da Guarda, e de hum directorio para responder aos interrogatorios como se procura, o que eu faço conforme o meu limitado juizo me dita, e faço pella
maneira seguinte.

1 – Este Lugar se chama Rapoula do Coa fica na província da Beira Alta, pertence ele ao Bispado da Guarda, fica na Comarca de Castello Branco, e he termo de Villa de Touro, e tem freguezia dentro neste mesmo Lugar; seo Orago he Sancta Maria Magdalena.

2 – Esta terra hé de El Rey; tem Comenda, e pertence a Comenda de Sancta Maria de Villa de Touro; Comendador de presente, me consta ser, o Porteiro-mor do Reino; pagäo os moradores deste povo dos frutos que colhem, de cada doze dois, ao dito Comendador, e huma galinha de cada caza que nella acende lume.

3 – Tem este Lugar sessenta e nove fogos onde se acende lume; o numero das pessoas, segundo o meu Rol de Cotessados consta de noventa e tres pessoas, excepto os de septe annos para bayxo, e onze pessoas absentes.

4 – Está situado este Lugar em hum valle, junto donde corre o Rio por nome Côa; avistam-se poucas terras, e destas que se vem, fica distante esta terra meya légoa, e de hum Lugar por nome Rendo dista huma légoa, e desta terra a Raya de Castella dista tres legoas, e deste mesmo Lugar se vê a dita Raya.

5 – Nam tem termo, antes he termo da Villa de Touro; somente tem fora deste Lugar huma Quinta com hum só morador, a qual se chama Aviloza.

6 – Toda a Parochia está dentro do Povo, excepto a Quinta da Aviloza, com hum só morador.

7 – Tem esta freguezia por orago Sancta Maria Magdalena; tem tres altares: hum na capella mor, e dois por baixo do arco. No altar da capella mor esta o Santíssimo, e Sancta Maria Magdalena; e no do corpo da Igreja a parte do Evangelho, Santo Antonio; e no da parte da Espistolla, Nossa
Senhora do Rozario. Não tem esta Igreja naves nem Irmandades.

8 – O Parrocho desta Igreja hé Cura annual aprezentado pello Vigario de Sancta Maria da Villa de Touro, que hé professo da Ordem de Christo; tem de renda septe mil e quinhentos, e hum almude de vinho, hum alqueire de trigo, que paga o Comendador, ou arrendatario que traz esta Comenda, que pertence a dita Villa de Touro; e para a Igreja dá quatorze arrateis de cera branca e hum arratel de incenso para as funçoins parrochiais, e para se paramentar a capella mor, tem o depozito da Villa de Touro, que nao sei quanto dá annualmente para esta Igreja; para a das Quintas de Sancto Bartholomeo e para a da Villa de Touro, que são as tres da Comenda, os moradores do povo dão vinte fanegas de pão annualmente, ao Cura, que assiste neste povo, e hé a renda que tem.

9 – 10 – 11 – 12 – Não tem Beneficiados; Não tem Conventos nem Caza alguma de que se procura; Não há Hospital; Não tem Caza de Mizericordia.

13 – Tem esta freguezia huma Ermida, ao fundo do povo, e tem Sancto Domingos; pertence ao mesmo povo, e hé paramentada pellos moradores do mesmo, com suas esmolas voluntarias, e mandão abundantemente a Sam Domingos pellos beneficios de Deos, alcançados por sua intercessão.

14 – Não tem romagens salvo alguns devotos que imploram o patrocinio do Sancto e o Cura deste povo com seos freguezes vam a dita capella, dia de Sancto Marcos, e hum dia das Ladainhas á dita capela, cantando as mesmas.

15 – Os fructos em mais abundancia desta terra são pão bastante para ella, e trigo, e gados de Iam e de seda, e vinho mediano.

16 – Tem este Lugar dois Juizes da vara, sugeitos aos Juizes ordinarios da Villa de Touro.

17 – Não hé couto; somente tem as vargens, em que EI Rey terça, cujas contas tomão os Provedores da Comarca de Castello Branco, a quem pertence, por ser este Lugar da dita Comarca, como fica dito.

18 – Não me consta tenhão florescido homens de fama ilustres, por ser esta terra povoada de lavradores que cultivão os campos.

19 – Não tem feira.

20 – Não tem correio, e quando hé necessario se serve do correio da cidade da Guarda, e dista esta terra à dita coatro legoas.

21 – Dista este Lugar á cidade da Guarda, capital do Bispado, coatro legoas, e á cidade de Lisboa, segundo informaçoins, sincoenta legoas.

22 – Não me consta ter previlégios particulares alguns.

23 – Há nesta freguezia, no sitio que chamão os Banhos, huma fonte que nasce na borda de huma Ribeira que chamão a Ribeira do Boy, que tem ágoa muito diferente da natural, e com o olfato a inxofre, a qual ágoa tem receitado e receitão os médicos da cidade da Guarda a muitos infermos.

24 – Não hé porto de mar, nem a este tenho couza que possa dizer mais.

25 – Não tem muros, mais que humas paredes feitas pellos lavradores, onde em tempo de guerra punhão huns canceloins e guardas determinados pe)lo capitão da ordenança.

26 – Não padeceo esta terra ruina alguma no terramoto de 1755, nem nella se ouvi o mais que hum tremor de terra; e não sey mais de que possa informar e dar meo parecer nos interrogatorios da primeira lauda.

Em quanto aos da segunda, não tenho que lhes responder, por esta terra estar situada em hum valle, como já fica dito. E no tocante aos interrogatorios da ultima conclusão, responderey como o limitado discurso me ditar:

1 – Corre junto a esta terra, hum tiro de bala, hum rio por nome Rio Côa; consta-me que nasce em huma Serra, junto a hum Lugar por nome Foyos, termo da Villa do Sabugal, Comarca de Castello Branco.

2 – Consta-me que nasce em humas fontes e lagoas, mas a breve espasso corre caudalozo; consta-me tambem ter-se secado alguns annos, principalmente nesta terra athé á Villa de Almeida, e eu o vi sem correr no anno de 1756.

3 – Entra no dito Rio Côa, junto desta terra distante meya legoa, huma Ribeira que tem por nome Ribeira do Boy.

4 – Não hé navegavel, por não ser necessario, e somente tem pontes e poldras para dar passagem.

5 – Nasce este Rio a Nascente, e quando passa junto desta terra corre a Norte.

6 – O curso do tal Rio hé arrebatado em toda a sua corrente.

7 – He muito fecundo de peixes, mas pequenos, por que cria barbos, trutas, inguias, bordallos, bogas, xardas, mas mais de abundancia de barbos e trutas.

8 – Em todo o anno, excepto quando prohibem as leis do Reyno, se pesca nelle.

9 – Na pescaria não há lugares, porem hé comum para quem quer ser curiozo.

10 – São cultivadas as margens do Rio, ainda que padecem algum naufragio com as inchentes; hé povoado de arvores silvestres, como são amieiros, carvalhos, salgueiros.

11 – As ágoas do tal Rio são naturais.

12 – Não me consta, nem consta tenha outro nome senão Côa, desde o seu nascente athé o seu ocaso que hé no Douro.
13 – Tem o tal Rio o seu ocaso no Douro, junto a Villa Nova de Foz Coa, segundo as informaçoins.

14 – Não tem o tal Rio couza que lhe impida a sua corrente.

15 – Consta-me tem a primeira ponte de cantaria junto a Villa do Sabugal; e a segunda junto a Villa de Villar Mayor, distante quazi huma legoa, que chamão Ponte de Sequeiros; tem a terceira junto a Villa de Almeida, praça de Armas, cabeça de Provincia, e não sey de mais; somente tem varias poldras, para passarem, mas com muito trabalho, e mezes sem darem passagem, e sucederem de todos os annos incovenientemente e contratempos nos passageiros, principalmente em humas poldras que estão junto a este povo, que tem huma estrada para a Villa de Alfaiates, praça de Armas, e desta para a cidade da Guarda, pello que era bem necessario huma ponte neste sitio.

16 – Tem neste Lugar e seus lemites, sinco moinhos de tres pedras huns, e outros de duas, que moem todo o anno, com as agoas do dito Rio, excepto os annos de muita secura, como foy o de 1756.

17 – Não me consta se tenha tirado ouro, nem prata, de suas areas.

18 – São livres as ágoas deste Rio; somente os donos dos moinhos pagão huma certa penção todos os annos ao Comendador desta Comenda.

19 – Este Rio Côa tem principio em o Lugar dos Foyos, que dista deste Lugar tres para quatro legoas; e dahi, segundo informaçoins, vem hum Lugar por nome Vai de Espinho, e dai a Villa do Sabugal, e dahi, das Quintas de Sam Bartholomeu, e dahi a este Lugar da Rapoula de Côa, e daqui a Seyxo do Côa, e dahi vem correndo athé a Villa de Almeyda. E os Lugares por onde elle passa, desde o Seyxo do Côa athé fenecer no Douro, o não sey, nem houve quem mo dissesse, ainda que eu o procurey, por esta terra não ter homens que tenhão passado pello Rio, ou ao redor delle athé de Foz Côa, que he onde este Rio fenece, e tem o seo complemento finaliza o tal mesmo Rio Côa.

E por esta maneira, me parece ter respondido ao que se procura; e se nesta informacão faltar alguma couza sustancial, o possão suprir os Superiores, a quem em tudo e por tudo me remeto e sugeito, como subdito obediente.

Rapoula do Côa, outo de Mayo de 1758.

O Cura: Manoel Gonçalves de Mattos.

Ver perguntas do inquérito. Aqui.
Fonte: Alfaiates-Na órbita da Sacaparte. Autores: Pe. Francisco Vaz e Pe. António Ambrósio.
(Continua.)

jcl

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