Paz de espírito

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

O calor iniciava-se a caminho do Verão. Um idoso habitava a aldeia e a tarde aproveitando a sombra. Sentava-se numa lasca de pedra em forma de banco que quase enchia um curto recanto da rua.

fcapelo_idosos01a

Ao sair da quietude o homem levantou-se e provou que era alto embora já algo curvado. Parecia habituado a chãos irregulares. Iniciou uma caminhada lenta, colocando um pé depois do outro. A passada miúda garantia-lhe a segurança necessária. Durante a marcha esticava os braços ao longo do corpo balançando-os levemente. Mantinha as palmas das mãos paralelas ao solo para ajudar a equilibrar o andar.
Havia mais gente na rua mas ninguém parecia prestar atenção ao velho. Nem os pássaros velozes que o sobrevoavam pareciam incomodar-se com a sua presença. Meio zonzo, numa marcha lenta que parecia reaprendida, aproximou-se de duas mulheres e saudou-as:
– Bom dia meninas!
Antes de responderem as mulheres prolongaram a conversa por uns segundos. Falavam de vidas e dir-se-ia que havia pânico nos seus olhos. A mais baixa parecia mais velha e denunciava confusão no rosto. Insistia:
– Vi na televisão, sim senhor. Já não há dinheiro… Não sei se teremos reforma!
O homem chegou e aumentou o grupo. Os três, olharam-se mutuamente encolhendo os ombros. Acrescentaram à conversa coisa nenhuma. Todos três pareciam repetir a mesma questão para si mesmos e, na mesma pausa sem palavras, todos reconheceram o alcance das palavras da mais velha.
O homem fixou, então, o olhar na distância tentando encontrar no infinito as razões que lhe perturbavam o espírito. Parecia meditar. Dir-se-ia que lhe passava pela cabeça a ideia de que a morte poderia valer tranquilidade. Mas, que diabo… ao fim de tantos anos seria justo roubarem-lhe a paz?
O idoso aproveitou o momento e o silêncio para arrastar, de novo, as palavras. Com voz lenta e a língua a articular-se mal comentou para si próprio e para as suas pares:
– Gastaram o que não era deles. Assim não custa a gastar. Agora culpam-nos a nós de fazermos vida de ricos!
O homem não queria acreditar que o esforço de muitos anos para alcançar uma velhice tranquila poderia valer nada. Se assim fosse sobejar-lhe-ia, apenas, o mistério abismático de estar cansado sem poder voltar a deixar de o estar.
Os olhos humedeceram-se-lhe. Custava-lhe a livrar a mente destas cismas. A estranheza da situação comovia-o.
Voltou a olhar os longes, agora, para despertar do pesadelo e também para se encorajar. Sobrava-lhe a certeza de respirar e de sentir o vento. E conformava-se sem saber bem com quê ganhando, ainda assim, algum entusiasmo.
Os olhos cresceram-lhe e, de novo, quis viver. Acreditou que seria capaz de restaurar a paz desde que o olhar de certos homens o não fixassem.
Fez o caminho inverso para se sentar na mesma pedra que lhe havia servido de banco e, na sua pose ingénua, tentou recuperar a paz de espírito.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

Deixar uma resposta