Freguesias do concelho do Sabugal em 1758 (19)

Censos 1758 - © Capeia Arraiana

:: :: MOITA :: :: Os manuscritos depositados na Torre do Tombo, em Lisboa, são a resposta a um inquérito censório a todo o reino assinado pelo Marquês de Pombal três anos após o terramoto de 1755. O Capeia Arraiana está a publicar as respostas dos párocos das paróquias das 40 freguesias do concelho do Sabugal agora que, pelo menos 10 das retratadas, vão desaparecer para sempre por obra e graça dos senhores mandantes da troika europeia.

Igreja Matriz Moita (Sabugal) - Capeia Arraiana

Igreja Matriz da Moita (Sabugal) – Foto: (D.R.)

MOITA«Esta terra que agora é de El Rei, em tempos pretéritos foi dos Condes da Sortelha.»

Comarca de Castelo Branco, Termo de Sortelha, Bispado da Guarda.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Dicionário Geográfico, vol. 25, doc. 248, p. 1855.
Património arquivista da Paróquia da Moita entre 1696 e 1911.
Aqui.

«Resposta a primeira parte dos Interrogatórios:
1 – Que está este Lugar da Mouta na Provincia da Beyra, e que hé Bispado da Guarda, Comarca de Castello Branco, termo da Villa de Sortelha, e Freguezia de Sam Pedro do mesmo Lugar.
2 – Hé de EI Rey Nosso Senhor, sem ter donatario há muitos tempos, que nos preteritos foi dos Condes de Sortelha, Caza que se extinguio.
3 – Tem sessenta moradores, entrando mulheres viuvas e solteiras, e que tem pessoas de confissam e comunham cento e quarenta e duas, e de confissam somente quarenta e huma.
4 – Está situada em hum valle, entre duas serras, huma chamada a Serra de Opa, outra a Serra do Tresviscal; descobre-se della o Lugar do Castelleiro, em distancia de meya legoa, e a Villa da Covilham em distancia de sinco legoas.
5 – Nam tem termo seu, porque como já disse, o hé da Villa de Sortelha.
6 – A Parochia está dentro do Lugar; e nam tem Lugares nem Quintas sugeitos, e somente tem huma anexa que hé o Lugar de Valdelobo, que hé orago Sam Thiago, em que o Prior desta Igreja aprezenta Cura.
7 – O orago hé o Principe dos Apostolos São Pedro. A Igreja tem tres altares: o Mayor, segundo o Divino Espirito Santo, terceiro da Virgem Nossa Senhora do Rozario; nam tem mais que huma nave; e tem huma Irmandade dedicada as Almas do fogo do Purgatorio.
8 – O Parocho hé Prior da Aprezentaçam do Padroado Real, e tem de renda, computados huns annos por outros, cento e sessenta mil reis.
9 – Nam tem Beneficiados. Nam tem Conventos assim de Riligiozos como de Riligiozas.
11 – Nam tem Hospital. Também nam tem Caza de Mizericordia.
13 – Tem huma Ermida didicada ao Manir Sam Sebastiam, fora do Lugar, em distancia de hum tiro de balla, que pertence ao Povo e a sustenta, digo a fabrica do necessario.
14 – Nam acode a esta, romagens; somente vem do Lugar do Castelleiro, em dia que determinam as Paschoas, em romagem á Padroeira desta Igreja, e nesta Ermida principiam a procissam e nella a finalizam, em que sam obriguados a vir de cada caza sua pessoa, a qual procissam faz o Parocho do mesmo Lugar.
15 – Os fructos que os moradores desta terra recolhem com mayor abundancia hé centeio, algum vinho, castanha, milho, linho, e pouco feijam.
16 – Nam tem Juis Ordinario, e menos Camara, e somente tem dois pedanios, que sam sujeitos a justiça ordinaria da Villa de Sortelha donde hé termo.
17 – Nam hé couto, cabeça de Concelho, Honra ou Behatria.
18 – Nam há memoria que della sahissem, ou florescessem homens insignes, por virtudes, Letras ou Armas, porque sempre se compos de homens lavradores.
19 – Nam tem feyra.
20 – Nam tem correyo, e se serve do de Pennamacor, que dista deste Lugar tres legoas, e entra na mesma Villa nos sabados de cada somana, e sahe logo no domingo.
21 – Dista este Lugar da cidade da Guarda, capital do Bispado sinco legoas, e da muito nobre e sempre leal corte de Lisboa, capital do Reyno de Portugal sincoenta legoas.
22 – Nam tem mais privilegio que nam pagarem os moradores portagem, como consta do Foral dado a Villa de Sortelha pello Senhor Rey Dom Manoel da Glorioza Memoria, que compreendia todo o termo da mesma Villa.
23 – Nam tenho que responder a este interrogatorio; e como nam tem porto de mar, tambem nam tenho que responder.
25 – Nam hé terra murada, nem praça de Armas, nem tem castello ou torre antiga de que se de noticia.
26 – No terramoto do anno de mil sete centos e sincoenta e sinco, pella bondade de Deos, nam padeceo ruína alguma.
27 – Nam há outra couza alguma digna de memoria de que possa dar noticia.

Resposta á segunda parte dos interrogatórios, que pertencem á SERRA:

1 – Emquanto vay no Iemite desta freguezia se chama a Serra da Opa, que em outtras tem outro nome de que os Parochos dellas daram noticia.
2 – Depois que entra no Reyno de Portugal, esta Serra, que pello Lugar de Val de Espinho, termo da Villa do Sabugal e Bispado de Lamego, tem de comprimento nove legoas, e de largura meya legoa, e finaliza no Rio Zezere, junto a hum Lugar chamado Alcaria, termo da Villa do Fundam, e sempre entendo que he braço da celebrada Serra da Estrella.
3 – Desta Serra nasce hum braço chamado a Serra do Tresviscal, que entre ambas está situado este Lugar, como já disse, e tem legoa e meya de comprimento e meya de largura.
4 – O principal rio que nasce nesta Serra, hé no destrito e freguezia do Lugar de Malcata, e se chama o Rio Côa, e que fenece no Rio Douro, e hé o principal pescado delle, trutas, barbos e boguas, de que os povos destas vizinhanças se sustentam. Nasce mais junto da Quinta das Alagoas, huma Ribeira chamada da Nave, que hé povoada de poucos peixes, por cauza das muitas açudes para os moinhos, lagares de azeite, e pizoins, e se mete na Ribeira da Meymoa, e esta no Rio Zezere.
5 – Estam situados ao longo da Serra, da parte do Norte, o Lugar de Val de Espinho, Malcata, Freguezia de Santo Antonio da Urgueyra, este Lugar da Mouta, Castelleiros, Peraboa, e Ferro; e da parte do Sul os Lugares do Meymam, Santo Estevam, Val de Lobo, Escarigo, Quintaens do Salgueyro, Capinha, e Perovizeu.
6 – Nam tenho que responder a este, e da mesma forma ao 7.
8 – Nam sey que seja povoada de plantas ou ervas medicinais, e se cultiva na mayor parte della e os fructos que mais produz he centeyo, alguma castanha, e as mais arvores sam silvestres, como carvalhos, e outras arvores que nam dam fruto.
9 – Namhá Mosteyros alguns, e somente na freguezia de Sam Thiago de Val de Lobo, annexa desta de Sam Pedro da Mouta, está huma Ermida de Nossa Senhora com o titullo da Povoa, imagem milagroza, a que concorrem varios rommeyros, especialmente na segunda outava da festa do Divino Espirito Santo, em que vay a Villa da Sortelha, este Lugar da Mouta, Castelleyro, Santo Estevam, Meymoa, Bemquerença, Escarigo e Caria, e todos com suas folias, e fazem suas procissoins, e no fim desta solemne, que celebra o Lugar de Val de Lobo, a que todos assistem.
10 – Temperamento hé frio.
11 – Hé a Serra povoada de muita cassa, como sam perdizes, coelhos, javalis, veados, e gados de cabello e läa.
12 – Nam tem lagoas, ou fojos notaveis.
13 – Nam ha outra couza de memoria.

Resposta á terceira parte dos lnterrogatorios (o RIO):

1 – O Rio que corre nesta freguezia hé a Ribeira da Nave, e nasce junto á Quinta das Alagoas, que hé freguezia de Santo Antonio da Urgueyra.
2 – Nam nasce logo caudalozo, porque vay crecendo com os regatos que se lhe ajuntam em varias partes, e ordinariamente seca, e por isso nam corre todo o anno.
3 – Nam tenho que responder, e da mesma sorte ao 4 nam tenho que dizer.
5 – Corre do Nascente para o Poente.
6 – No tempo do Inverno hé de curso arrebatado, por correr entre serras.
7 – Nam cria peixes, nem podem subir dos outros rios em que entra, pellas muitas assudes que há de moinhos, pizoins, e lagares de azeite.
8 – Pella mesma razam nam há pescarias em tempo algum do anno.
9 – Nam tenho que responder. `
10 – Cultivam-se as suas margens, semeando-se de centeyo, e em algumas partes, com seu regadio se colhe linho e feyjoins, e tem alguns arvoredos que constam de castanheiros, carvalhos, amieyros e salgueyros.
11 – Nam tenho noticia que as suas ágoas tenham alguma virtude especial.
12 – Desde o seu nascimento athé entrar na Ribeyra da Meymoa, conserva sempre o mesmo nome, e nam há memoria se chamasse de outra forma.
13 – Morre na Ribeyra da Meymoa, e esta no Rio Zezere, e este no Tejo, e o sitio em que entra na Meymoa hé chamado o Anasser, junto ao Lugar da Bemquerença.
14 – Como nam hé navegavel, as assudes que tem nam servem de embaraço.
15 – Nam tem ponte alguma de cantaria, e somente tres de pau: huma no porto que vay deste Lugar para o de Castelleiro, outra no caminho que vay para a Villa da Sortelha, e outra no porto do caminho que vay do Castelleyro para o Lugar de Val de Lobo.
16 – Enquanto corre pello lemite deste treguezia, tem treze moinhos, tres Iagares de azeite e tres pizoins, sem outro mais algum engenho.
17 – 18 – Nam tenho que responder; nam tem impedimento algum, os povos para uzarem de suas ágoas, sem penssam alguma.
19 – A Ribeyra desde o seu nascimento athé fenecer na da Meymoa tem duas Iegoas de comprimento, e passa pello lemite deste Lugar, pello de Sortelha, Castelleyro e Bamquerença, aonde feneliza.
20 – Nam há mais couza alguma digna de memoria de que se dê noticia.

Estas sam as que achei assim pela experiencia que tenho, como por informaçõens que tomei. E por ser verdade me assigney.
Mouta, o primeyro de Mayo de mil sete centos e sincoenta e outo annos.
O Prior: Diogo de Pinna Baptista de Oliveyra.»

Ver perguntas do inquérito. Aqui.
Fonte: Alfaiates-Na órbita da Sacaparte. Autores: Pe. Francisco Vaz e Pe. António Ambrósio.
(Continua.)

jcl

One Response to Freguesias do concelho do Sabugal em 1758 (19)

  1. José Carlos Mendes diz:

    Caro JCL,

    Em nome da minha terra, o Casteleiro, e dos meus amigos da Moita e do Vale, agradeço especificamente estas transcrições de hoje.
    Aguardarei pelas peças sobre Santo Estêvão e Sortelha (se existe esta…) para uma simbiose comparativa que preciso de estabelecer – a seu tempo.

    Hoje, apenas algumas notas sobre o que acabo de ler:

    1 – Quando vi a frase «Nam tenho que responder a este interrogatório», no ponto 23 do 1º capítulo, ainda pensei: «Alto! Cá temos um padre revolucionário que se atreveu a dizer ao Marquês que não queria responder». É que sabemos que os padres, em geral, sentiram-se muito violentados com este inquérito. Mas depois li melhor. E não era nada disso. O Prior Diogo de Pinna Baptista de Oliveyra afinal só quis dizer que nada havia a registar naqueles dois items 23 e 24.
    2 – O Vale de Lobo da altura era uma anexa da Moita: «… somente tem huma anexa que hé o Lugar de Valdelobo, que hé orago Sam Thiago, em que o Prior desta Igreja aprezenta Cura». Mas não fiquem tristes os meus amigos do Vale. No tempo dos romanos, a vossa terra era um forte «entreposto» regional de ligação do Sul ao Norte do «País» da altura: era a praça chamada Lancia Oppidana, com importância regional. Aliás, julgo que o nome da fortificação romana deve derivar exactamente do nome do monte onde estava a sua sede (Opa).
    3 – E cá voltamos ao nome da Serra d’ Opa. O Prior Oliveira diz que ela se chamava Serra de Opa, num determinado passo, e noutro chama-lhe Serra da Opa. Para mim, reforça a minha tese e contraria o que poderia ser mal legível no que a Torre do Tombo quis ler nas respostas da Cura Leal, do Casteleiro: «Serra do Pá» – isso é que nunca, mesmo!
    4 – Finalmente, registo que o pessoal da minha aldeia era muito devoto de São Sebastião. Além de ter lá na terra uma capela a este orago, ainda ia na Páscoa à Moita fazer uma procissão com o Padre Leal em honra daquele santo (iria pelo menos uma pessoa de cada casa): «… vem do Lugar do Castelleiro, em dia que determinam as Paschoas, em romagem á Padroeira desta Igreja, e nesta Ermida principiam a procissam e nella a finalizam, em que sam obriguados a vir de cada caza sua pessoa, a qual procissam faz o Parocho do mesmo Lugar.» Espero não estar enganado. Porque o Prior fala aqui de «uma padroeira» e não um padroeiro…

Deixar uma resposta