Freguesias do concelho do Sabugal em 1758 (14)

Censos 1758 - © Capeia Arraiana

:: :: FÓIOS :: :: Os manuscritos depositados na Torre do Tombo, em Lisboa, são a resposta a um inquérito censório a todo o reino assinado pelo Marquês de Pombal três anos após o terramoto de 1755. O Capeia Arraiana está a publicar as respostas dos párocos das paróquias das 40 freguesias do concelho do Sabugal agora que, pelo menos 10 das retratadas, vão desaparecer para sempre por obra e graça dos senhores mandantes da troika europeia.

Nascente do Côa - Fóios - Sabugal - Capeia Arraiana

Nascente do Côa – Fóios (Foto: José Carlos Callixto)

FÓIOS«Aqui perto nasce o Rio Coa. O Padre Cura, Domingos Martins, descreve-o bem.»

Comarca de Castelo Branco, Termo de Sabugal, Bispado de Lamego.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Dicionário Geográfico, vol. 22, doc. 93, p. 567.
Património arquivista da Paróquia dos Fóios entre 1672 e 1911.
Aqui.

Relaçam do que se procura saber deste Lugar dos Foyos nos interrogatórios do bilhete junto.
1 – Fica na Provincia da Beyra alta, hé bispado da cidade de Lamego, hé comarca da notavel Villa de Castello Branco, hé termo da Villa do Sabugal, hé freguezia de Sam Pedro ad vincula, anexa da igreja Matriz do lugar da Nave.
2 – Hé de El Rey nosso Senhor; só paga tres alqueires de centeyo, cada anno, ao Conde Meyrinho mór da Villa do Sabugal.
3 – Tem dez vezinhos, e trinta e tres pessoas mayores e nove menores.
4 – Está situada em o fundo de huma Serra chamada das Mezas, e rodeada de muitas, que por piquenas nam tem proprios nomes, senam chamadas as serras dos Foyos. Della nam se descobrem povoaçois algumas.
5 – Nam tem termo.
6 – A parrochia está fora do Lugar, seram duzentos passos, em hum oiteyro para a parte do Norte; nam tem lugares nem aldeyas nenhumas.
7 – O orago hé o Senhor Sam Pedro ad vincula. A igreja tem tres altares. No altar mor está o Senhor Sam Pedro; no altar da direita está Sam Sebastiam; no altar da mam esquerda está a Senhora do Flozario. Nam tem naves nem lrmandades. `
8 – O Parocho hé Cura annual. Prezenta-o o Vigario da Nave. Tem de porçam cento e vinte alqueires de senteyo, os quais pagam os moradores, e seis mil reis em dinheiro os quais lhe pagua a Comenda dos frutos da tulha dos dízimos. ‘
9 – 10 – 11 – 12 – 13 – 14 – Nam tem Beneficiados, nem Conventos, nem Hospital, nem Mizericordia, nem Ermidas, nem Romagens.
15 – Os frutos que os moradores colhem com mais abundancia hé o pam centeyo, que esta terra nam dá trigo nem cevada, nem milho, nem mais fruto algum, por ser muito fria.
16 – Tem Juis espadaneo, que chamam da vara do povo; está sugeyto ao Juis ordinario da Villa do Sabugal.
17 – Nam hé Couto, nem Cabeça de Concelho, nem honra, nem Behettria. Nam há noticia que della sahissem homens insignes por Letras, nem Armas, nem vertudes.
19 – Nam tem feira em dia algum do anno.
20 – Nam tem Correyo, nem se serve de algum, por ser povoaçam muito piquena.
21 – Dista vinte e tres Iégoas da cidade de Lamego, que hé a capital do Bispado e dista cincoenta e oyto Iégoas da nobre cidade de Lisboa, capital deste Reyno.
22 – Nam tem privilegios nenhuns.
23 – Tem só duas fontes: huma para a parte do Norte, junto do povo, de ágoa muito fria e delgada e corre todo o anno; outra para a parte do Sul, também junto do povo, de ágoa muito grossa e algo fria: corre todo o anno.
24 – Nam hé porto de mar.
25 – Nam hé murada ou praça de Armas, nem tem castello nem torre alguma no seu distrito ou lemite.
26 – Nam padeceo ruína nenhuma no terramoto de 1755.
27 – Nam há mais que declarar desta terra do que fica escrito nos interrogatorios.

O que se procura saber da Serra desta terra hé o seguinte: SERRA

Chama-se Serra das Mezas, porque no princípio della se findam e há em coatro Bispados, dois deste Reyno de Portugal, que vem a ser este da cidade de Lamego e outro da cidade da Goarda. e dois do Reyno de Castella que vem a ser o de Cidade Flodrigo e o da cidade de Coria.
2 – Tem seu princípio na estremadura, distante deste Reyno com o de Castella daquy meya légoa para a parte do nascente. Corre toda a Estremadura adiante; dentro deste lemite, tem huma légoa de largura e outra de comprimento. Aonde finda nam tenho a certeza.
3 – Os nomes dos principais braços della sam, por a parte da raya de Castella por onde corre chamam o sitio das Centieyras, e para a parte deste lugar tem outro braço no sitio chamado a Veyga, no lemite deste lugar.
4 – Nasce no princípio della hum rio chamado o Rio Coa; corre para a parte do Poente athé daqui a tres légoas que hé a divizam deste Bispado de Lamego com o da cidade da Guarda, e mais nam tenho notícia e nam tem mais rios dignos de memoria.
5 – Nam tem Villas nem Lugares nenhuns.
6 – Nam tem fontes nenhumas.
7 – Nam tem minas nem canteyras.
8 – Nam se cultiva em parte alguma por cauza de ser muito fria, nam tem ervas medicinais; he povoada de arvores silvestres nem dá fruto nenhum.
9 – Nella nam há mosteyros nem igrejas algumas.
10 – A qualidade della hé ser muito fria em todo o anno, e por isso nam dá frutos.
11 – Nella nam há criaçam de gado algum, nem animais, só nella se criam algumas perdizes e coelhos muitos, e nam cria mais caça de genero algum.
12 – Nam tem lagoa nem foyos.
13 – Nam tem mais couza de que se possa fazer memoria.

O que se procura saber do Rio desta terra hé o seguinte: RIO

1 – Chama-se o Rio Coa. Nasce nos princípios da Serra das Mezas, junto ao pé da raya de Castella no sitio chamado os Turais da Moreyra, lemite deste Lugar, para a parte do nascente.
2 – Nasce quieto e corre todo o anno.
3 – Dentro do lemite deste Lugar nam entra nelle rio algum.
4 – Nam hé navegavel, nem capaz de embarcaçois algumas.
5 – He de curso muito arrebatado dentro do lemite deste lugar, que hé distante de huma légoa, por ser terra muito agreste.
6 – Corre do Nascente para o Poente.
7 – Cria peixes chamados trutas em muita abundância no lemite deste Lugar, e nam cria outra casta de peixes.
8 – Neste nam há pescarias particulares, sam comuns todo o anno para quem quer pescar, excepto nos tres mezes Abril, Mayo e Junho, prohibidos pella Ley deste Fieyno.
9 – As pescarias no lemite deste Lugar sam livres, nam tem senhor particular.
10 – Nam se cultivam as suas margens, por ser terra muito agreste, tem muito arvoredo, mas todo silvestre, que nam dá fruto.
11 – Nam tem veitude nenhuma as suas ágoas.
12 – Sempre conserva o nome Rio Coa, e nam sey que tenha nem nunca tivesse outro.
13 – Tenho noticia certa que morre no chamado Douro, ao pé da Villa Nova de Foz Coa, daqui dezoito légoas, o sitio como se chama nam tenho noticia.
14 – Nam tem cachoeyra, repreza, nem açudes nenhuns dentro do lemite deste Lugar.
15 – Tem hum pontam de pao ao pé deste Lugar, em huma estrada que vay para a Vila de Valverde, Fieyno de Castella, que dista deste Lugar huma légoa.
16 – Tem dois moinhos, cada hum com sua pedra de moer pam centeyo, nam tem mais engenho assim.
17 – Nunca se tirou ouro dele, nem de suas areas, dentro do lemite deste Lugar.
18 – O povo uza das suas ágoas livremente sem pençam alguma.
19 – O Rio tem dezoito légoas desde o seu nascimento que hé no principio da Serra das Mezas daqui meya légoa, passa ao pé deste Lugar para a parte do nascente, daqui vay ao Lugar de Val de Espinho que dista daqui huma légoa, e dahi vay ao Lugar de Coadrazais, que dista daqui duas légoas, e dahi vay a Villa do Sabugal, que dista daqui tres légoas, e sempre pella parte do Nascente e das mais povoaçois por onde passa, nam tenho certeza dos seus próprios nomes.

Nam há mais que relatar deste Lugar dos Foyos, nem da sua Serra, nem do seu Rio, mais do que vay já escrito pelos interrogatórios do bilhete neste incluso, e por verdade me assigney.

Foyos, de Mayo treze de mil sete centos e cincoenta e oito annos.
O Padre Cura Domingos Martins.»

Ver perguntas do inquérito. Aqui.
Fonte: Alfaiates-Na órbita da Sacaparte. Autores: Pe. Francisco Vaz e Pe. António Ambrósio.
(Continua.)

jcl

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