A Confraria do Bucho Raiano na Casa Pia (3)

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

A Casa Pia no Portugal Democrático (1974-2013). Continuamos, este domingo, a publicação de uma síntese sobre o passado e o presente da Casa Pia de Lisboa.

Coro da Casa Pia de Lisboa
Aula na Escola de Relojoaria da Casa Pia, no CED Pina Manique Actual oferta educativa e formativa da Casa Pia Actuação da Orquestra Ligeira da Casa Pia (CED D. Maria Pia)
Representação teatral por alunos surdos, no CED Jacob Rodrigues Pereira. Escolaridade actual dos casapianos, com base numa amostra de cerca de 800 ex-alunos de três gerações, entre 1940 e 2010 (Projecto MP3) Aspecto do Centro Cultural Casapiano, em Belém (Museu, Arquivo, Biblioteca, Auditório, etc.)

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António Aurélio da Costa Ferreira dizia que as revoluções, apelando embora à transformação, à mudança, não devem ignorar a tradição, a história, o património herdado. Infelizmente, boa parte dos processos revolucionários foram momentos convulsivos que, pelo menos temporariamente, não deixaram pedra sobre pedra. E o «25 de Abril de 1974« não foi excepção: a fase mais radical do processo revolucionário agitou toda a sociedade portuguesa e a Escola não escapou às convulsões.
A crise com que a Instituição Casapiana se debateu na década de 70, nomeadamente entre 1974 e 1980, radica em três variantes fundamentais: um défice de lideranças superiores e intermédias, o que permitiu a instalação, sobretudo nos internatos, de um ambiente de liberdade sem responsabilidade; a perda, por parte dos alunos, dos professores e dos funcionários, da «mística casapiana», do orgulho de pertencer a uma escola especial (só os ex-alunos mais velhos traziam o ganso na lapela, como os ex-alunos do Colégio Militar a barretina); e o gigantismo de uma instituição tentacular, com vários colégios e milhares de alunos, muitos dos quais deviam frequentar outras escolas (porque não precisavam daquela) ou não deviam ali ser admitidos, porque constituíam casos tão problemáticos que a Casa Pia já nada podia fazer por eles.
A partir das provedorias de Baptista Comprido, Damasceno de Campos e Luís Rebelo, no começo dos anos 80, procurou-se pôr ordem na Casa Pia, reorganizá-la e modernizá-la em termos de espaços físicos, apetrechá-la para uma educação adaptada aos novos tempos.
Desmassificou-se o internato, substituindo as enormes e caóticas camaratas de 60 ou 70 alunos por lares com pouco mais de uma dezena de crianças ou jovens, incluindo alguns lares fora dos colégios; alargou-se a oferta educativa, sobretudo através da criação de novos cursos técnico-profissionais; abriram-se mais e melhores perspectivas de prosseguimento de estudos; reabilitaram-se os espaços dos diferentes colégios e construíram-se outros de raiz; prosseguiu-se e cimentou-se uma política de colaboração entre a Casa Pia e as diferentes instituições de ex-alunos. Muito se fez mas muitos outros problemas foram germinando e crescendo, uns porque se ignoravam, outros porque se esconderam debaixo do tapete. Estes, no entanto, acabariam por aparecer depois da explosão da verdadeira «bomba de relógio» que era o caso da pedofilia.
A provedoria de Catalina Pestana, iniciada nos finais de 2002, ficaria marcada principalmente pela necessidade de enfrentar as graves repercussões desse caso, que se foram avolumando e arrastando. O actual Conselho Directivo da Casa Pia de Lisboa (que substituiu a Provedoria) herdou uma situação difícil que, todavia, não demorou nem hesitou em enfrentar. Sob a direcção de Joaquina Madeira primeiro e actualmente de Cristina Fangueiro, o Conselho Directivo prosseguiu a política de desmassificação do internato, foi progressivamente substituindo os lares «intra-muros» por unidades integradas na comunidade, deu prioridade ao recrutamento de educadores bem preparados e bem remunerados, privilegiou a admissão de crianças em risco mas não de delinquentes, foi encaminhando os educandos que, verdadeiramente, não “precisam” de uma escola como a Casa Pia para outras escolas, diminuindo assim o número de semi-internos, acentuou a oferta dos ensinos técnico-profissional, artístico e musical.
Aos Colégios (actualmente designados Centros de Educação e Desenvolvimento) foram atribuídas funções específicas e diferenciadas: uns destinam-se fundamentalmente a acolhimento e encaminhamento; outros encontram-se vocacionados para o ensino artístico (como é o caso do CED D. Maria Pia); outros ainda oferecem o ensino especial (casos do CED Jacob Rodrigues Pereira, fundado em 1834, para crianças e jovens com surdez, e do CED Aurélio da Costa Ferreira, criado em 1996, para crianças e jovens surdocegos); e, finalmente, outros apresentam vasta oferta educativa e formativa nos domínios do ensino curricular (do pré-escolar ao Secundário) e do ensino técnico profissional (incluindo cursos com grande empregabilidade, como relojoaria, optometria, electrónica, energias renováveis, informática, etc.). Para aqueles que revelem capacidades e apetência para a frequência de cursos médios ou universitários, a Casa Pia proporciona bolsas de estudo.
No universo casapiano, a comunidade constituída pelos milhares de ex-alunos viveu intensamente a dramática conjuntura que a Casa Pia de Lisboa atravessou a partir de 2002. As próprias instituições criadas pelos ex-alunos (Casa Pia Atlético Clube – Ateneu Casapiano, jornal «O Casapiano», Associação Casapiana de Solidariedade) não podiam deixar de ser indirectamente afectadas por essa conjuntura adversa e instabilizadora. Perante esta encruzilhada, os ex-alunos da CPL não ficaram indiferentes, antes encararam construtivamente a situação e participaram no ciclo de mudança e de adaptação que se lhes apresentava, valorizando o passado e o presente de uma Instituição que tanto deu ao País e de que este pobre País tanto carece. É minha convicção de que o universo casapiano continua, de alma e coração, ligado a esta escola com características únicas. Chame-se a isso casapianismo, espírito casapiano ou identidade casapiana.
É o meu caso: nascido numa aldeia pedregosa da raia sabugalense, órfão de pai aos quatro anos, que destino me esperava? A enxada, o contrabando ou a emigração. A Casa Pia, porém, abriu-me outros caminhos e outros horizontes. Estou-lhe profundamente reconhecido e estes textos testemunham essa gratidão.
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(Continua)
«Na Raia da Memória», crónica de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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