Freguesias do concelho do Sabugal em 1758 (8)

Censos 1758 - © Capeia Arraiana

:: :: ALFAIATES :: :: Os manuscritos depositados na Torre do Tombo, em Lisboa, são a resposta a um inquérito censório a todo o reino assinado pelo Marquês de Pombal três anos após o terramoto de 1755. O Capeia Arraiana está a publicar as respostas dos párocos das paróquias das 40 freguesias do concelho do Sabugal agora que, pelo menos 10 das retratadas, vão desaparecer para sempre por obra e graça dos senhores mandantes da troika europeia.

Castelo de Alfaiates - Sabugal - Capeia Arraiana

Castelo de Alfaiates – Sabugal

ALFAIATES«Alguém lhe chamou “A Chave do Reino”. Acerca da antiga Vila, escreveu o seu Reitor, o Dr. António de Carvalho Baptista, a que julgamos ser a melhor das memórias, impossível de sintetizar. Dela, destacamos o aspecto histórico, as antiguidades romanas, o Convento da Sacaparte, a igreja da Misericórdia, a guerra de 1709, o castelo e os seus Governadores. Ainda as preciosas informações que nos da dos homens insignes da região, o Joäo Camisão, o Capitão Tolda do Soito, o P. Dr. Manuel Martins de Aldeia da Ponte, e sobretudo acerca de Brás Garcia de Mascerenhas, autor conhecido do “Viriato Trágico” mas do qual geralmente se ignora que é autor de mais obras, tais como “Certamen Eucarístico” e “Saudades Brasilicas”.»

Comarca de Pinhel, Termo de Alfaiates, Bispado de Lamego.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Dicionário Geográfico, vol. 2, doc. 49, p. 411.
Património arquivista da Paróquia de Alfaiates entre 1566 e 1911.
Aqui.

«1 – Topografia de Vila Mira-Estrela
A Villa de Alfaiates está situada na Provincia da Beyra, no partido da Beyra Alta, Sima Coa, Bispado de Lamego. Comarca de Pinhel. Hé della Donatario o Exm° Conde de S. Thiago, e por não ter as doaçoins confirmadas por Sua Magestade, se chama per El Rey. Tem dous Juizes ordinarios, dous Escrivains do publico, hum da Camara, coatro das Almotaçarias. Consta de cento e cincoenta vizinhos e de quatro centos e sete pessoas de Sacramento.
Está situada no extremo de hum monte, que corre do Sul para o Norte, ramo que sahe da Serra de Xalma na raya de Castella, corre esta raya abaixo desde o Lugar de Aldea do Bispo, do nascente ao poente sobre a quinta de Valvelido, dividindo Portugal de Castella, athé junto de Penamacor, e do Lugar de Aldea do Bispo corre a raya do Sul ao Norte, junto a Nossa Senhora da Consolação, distante hüa Legoa desta Villa às Batoquinhas, linha recta ao Norte athé Posso Velho, aonde a Igreja Matriz está no meyo da raya, partindo esta no meio do altar mór, que quem está a missa da parte da Epistola está em Castella e os da parte do Evangelho estão em Portugal.
…Avistace desta Villa a Cidade da Goarda, seis legoas de distancia, situada Nor-Nordeste, em o principio da Serra da Estrella, vendo se toda a serra copada de neve athé junto a Covilhaã, nove legoas de distancia, e nella varias aldeas e arvoredos que fazem aprazível o aspecto: Para o Norte se ve o Castello de Villar Mayor, duas legoas de distancia, e alem da dita Villa se avistão os seus campos athé junto de Malhada Sorda, sendo muito recreavel, a vista dos campos q se vem desde Villar Mayor, correndo do Norte ao Nascente. Avistam-se para poente, correndo ao Sul, os soutos e arvoredos do Lugar da Nave, as capellas de S. Braz e Santo Amaro do lugar do Souto, metidas em frondosos arvoredos e castanheiros.
Divisão se do Poente ao Nascente, pello Sul, todas as serras da Raya athé junto de Aldea Velha, que fica ao Sueste, e nella hum monte de muito arvoredo chamado Sabugal o Velho, aonde esteve hüa villa de que só há, no alto, huma Igreja de Nossa Senhora, pertencente ao Lugar de Aldea Velha.
E noutro monte superior a este e distante hua legoa, se avista a celebrada serra das mezas, aonde estão quatro Bispos sentados à meza cada hum no seo Bispado, dividindo quatro linhas superficiais, do centro aos angulos, o dominio de cada Bispo, que são o da Goarda, Lamego, Corea e Cidade Rodrigo, pelo meyo hüa linha divide este Reyno do de Castella, e há tradição que por padroins esteve a maravilha patente.

2 – O município de Alfaiates
Tem esta Villa trez Lugares de termo, que são Aldea da Ponte, ao Nascente com 167 moradores e quatro centos e quarenta, digo oitenta e quatro pessoas. Reboloza, para o Norte, com 57 moradores e cento e oitenta e quatro pessoas. Forcalhos, para o Sul, com cincoenta e sette moradores e duzentas «e vinte e sette pessoas. Tem curas da aprezentaçäo do Reitor da Igreja de São Thiago desta Villa. Consta a freguesia de S. Thiago desta Villa de cento e sincoenta moradores, trezentas e trinta e sette pessoas de sacramento e setenta menores.

3 – Ouro velho de história e fé
Foi esta Villa cidade populosa do tempo do gode rude edificada por Augusto Cezar Emperador de Roma, como se mostra de hum Letreiro gravado em huma pedra que esta ao simo da Praça por assento, a porta das cazas de Patricio Fiz e junto ao Mourinho, que diz: «CIVITAS CAESARIS AUGUSTI IMPERATORIS ROMAE» – estando as mais letras abolidas.
Mostrão esta antiguidade os vestígios de edificios antigos e calsadas para as estradas de Casteila, varias pedras Lavradas com letras goticas na hombreira da porta do Forno de Thomé Martins; na Rua da Mizericordia desta Villa esta hua pedra como de escudo, no meio sinco favas, tres estrellas de cada lado, orladas ao reedor com cordoins; as cazas dos Bexigas, junto a Praça, tem hum sumptuozo portal, e na toca em hum escudo tem estas armas, que se poem a figura por se não saber o motivo.
Alem de varias antiguidades, se mostra foi terra de Negocio pellas atafonas e janellas que há para comercio nas cazas q todas herão caiadas.
E consta esta Villa só de hüma ireguezia e está a Igreja Matriz no simo della para o Sul, dominando a povoação com tao delicioza vista que do taboleiro da porta principal se estão vendo o que dista do Norte athé junto ao Nascente, fazendo aprazível o aspecto a Cidade da Goarda e seos edificios, toda a serra da Estrella e seos arredores.
Hé orago São Thiago, tem altar mor com huma tribuna primoroza e apainelado, aonde está collocado o Santíssimo; tem hum altar a mao direita com S. Sebastião; tem Irmandade. Outro ao lado esquerdo com S. Barbara, e nelle se acha escrita a Irmandade das Almas, com missa quotidiana em varios dias da Semana. Tem mais duas Cappelas particulares.
Tem hum arco na Capella mor, e quatro no corpo da Igreja, o pulpito, tudo no primor da arte, o Frontesexpicio de pedra fina e entrevistos os ramos. S. Thiago em vulto de proporção ordinaria sobre a porta principal. Tem boa torre de pedra fina, e alta, com oito janellas e dous sinos grandes, e o baptisterio em grave abobeda no fundo da torre; hé toda a obra de pura cantaria. Está primorozamente ornada de custosos paramentos e alguns de bons tiros, excelente Cruz à romana, e a prata necessaria.
Hé Reytoria de concurso, sempre nella tem servido de Parocho pessoas destinctas em nobreza. Hé actual Reytor o Doutor Antonio de Carvalho Baptista, Arcipreste do districto desta Villa, filho de Antonio de Carvalho Baptista capitão mor de Castello Bom, por renuncia ti nelle fez seo thio Flev.° Manoel de Carvalho Baptista, Fleytor que foi nesta Igreja mais de sincoenta annos e morreo com boa opinião de idade decrepita.
Tem esta Igreja quarenta mil reis de porção em dinheiro, e cento 87 alq. de trigo, pagos pela comenda, alem dos uzos que são bons e fazem o Benefício facil.

4 – A Sacaparte Santuário de Riba Coa
Há nesta Villa hum Convento de Padres Menistros dos enfermos da Ordem de São Camillo de Leliz, Fundado na Real Caza de N. Senhora da Sacaparte, distante desta Villa para o Nascente hum quarto de legoa. Fundação que no anno de 1722 principiarâo os PP. Confrades de N. Sra do Alcante da Fornina, os quais viverão com grande proveito das Almas athé o anno 1733 em que professarão a Regra de S. Camillo, dando logo principio a hum sumptuozo Convento, e S. Magestade fidelissima lhe deo o titullo de Fleal Convento e Carta especial de Mercê ti extendeo liberal, em lhe dar primorosos ornamentos a romana para todos os tempos do anno, com que os religiosos fazem vistozas as suas funçoins.
Foi N. Sra. da Sacaparte sempre de immediata proteccão de S. Magestade, tendo as Armas Reaes por timbre no altar mor, guião e mais ornamentos.
Administrava-se pellos Officiais da Camara desta Villa, sahindo o Mordomo da Senhora em pilouro todos os annos com os Juizes e veriadores, regalia que ainda hoje se conserva, como se conserva o de terem os Officiais da Camara banco na Capella mor para as funçoins que á Snra. vai a Camara com as romarias dos Sabados da Quaresma, vindo a Comunidade buscalos à porta da Igreja, e nas tais funçoins e outras de obrigação de voto, canta a Missa o Reytor desta Igreja, solemnizando o acto a Communidade no Coro, cantando a Missa e pregando ao evangelho.
Cedeo a Camara nos Religiosos a Administracao das fazendas da capella, que herâo muitas alen das excessivas esmollas que frequentemente liberalizão os devotos pellos grandes milagres que a Senhora fás.
Hé grande a fé que tem os catholicos em beberem ágoa de hum Posso que está dentro da Igreja, para a parte da epistola, junto ao altar de São Joseph a qual transportão para varias terras para Saude dos enfermos.
Na Segunda feira do Espirito Santo de cada hum anno, vae de romajem à mesma Senhora a Camara da Villa de Castello Mendo, distante desta Villa quatro legoas, com dezoito lugares do seo termo, com estandarte Real em procissão de preces, a que são obrigados aquella Villa e Povos por voto antiquissimo, acompanhando o Senado a Nobreza e Povo da Villa e termo, levando de goarda hum troço de gente armada.
Principia aquella devota acção pelIa tarde, ajuntandosse ao Cruzeiro do fundo da ceroa dos Religiosos, para a parte do Nascente, a Nobreza e Povo de cavallo, formados em boa ordem, vão devotamente dar trez voltas ao Cruzeiro que está de fronte da porta da Igreja da Senhora, a passo, e findas ellas, dão outras trez voltas oorrendo por ezcaramuça, tendo se por grande milagre o de que, fazendo se no mesmo dia hua grande feira naquelle terreiro, não consta que perigace pessoa alguma,
assim das do concurso da feira como dos devotos.
Sendo grande a vigilancia com que os Governadores desta Praça se ouverão sempre em mandarem para aquella ação hum vistozo destacamento de gente miIitar governado por hum Official Maior e subalternoa com o que se evitâo disturbios que pode haver, e tratão os comerciantes com seguro o seu Negocio por ser grande o concurso de CastiIhanos õ vem à feira e por estar o Convento distante de Castella hua
Legoa.
Findo este vistoso aparato se príncipia hüa grande procissão, debaixo do Guião de N. Senhora da Sacaparte, a que se vão seguindo por suas anteguidades os Povos de Castello Mendo, hindo por sua ordem hum homem de cada Povo, nú da cintura para sima, com um Cirio branco, e vão em procissâo à Senhora, a que assiste a Camara desta Villa, dando por urbanidade o lado direito a Castello Mendo: Benzido nella, o Vigario de S. Vicente daquella Villa, que na Igreja CapituIada e diz a oração; e no dia
seguinte, canta a Missa da Festa, offerecendo os cirios à Senhora, com aquella devoção q pede o seo primor, empenhando se os Lugares qual se ha de avantajar na oblação, pois são muitos os cirios de adoba e bem dourados, e em os quais se fazem as funçoins da Senhora com ventajem a outras Cazas de romajem.
Finda a função, se recolhe a Camara a Caza da hospedaria da mesma Senhora, aonde tem grande banquete a custa dos seos concelhos, por graça especial do Soberano.
Hé esta romajem muito antigua, e feita por solemne voto, por faltar todos os annos naquelle termo hum homem, sem se saber o como; e na que era paçada, pellas hostilidades dos inimigos não podendo fazer a romajem, mandarão alguns annos a cera, e por interpelação exprimentarão a falta, pello que não cessão de a comprir com todo o fervor, assistindo todos, no receio de q lhe caia por sorte o castigo.

5 – No coração da Rainha D. Leonor
Há nesta Villa huma Caza da Mizericordia da immediata proteção de S. Magestade, por provizào do Serenissimo Sr. D. ManoeI paçada a 29 de Agosto do anno de 1509, está situada no meio da Praça desta Villa, hé a Igreja sumptuoza, tres arcos grandes no corpo da Igreja e o da Capella mor. Mostra que foi tempIo da idade dos Godos, por que está ornada por fora de pedras grandes, por modo de cornijas no telhado, formadas em pedroins, em que estão abertas em vulto, cabeças de cains, lobos, touros, Molheres, e outras figuras que repugnão a modestia Catholica, e se conservão para memoria da antiguidade, a porta principal está de mesma antiguidade, com letras goticas na hombreira da parte esquerda, no fronteezpicio tem hum oculo maraviIhoso.
Foi está Igreja Matriz de S. Sebastião, a que estava obrigado o Lugar da Rebolosa deste termo, e outras Cazas q se extinguirão, ainda se conserva a pia do Baptismo a mão ezquerda da entrada da Igreja feita primorosamente e mostra foi aquella freguezia populosa.
Tem bastantes fazendas juros e annuais para o ornamento da Caza e conservação da lrmandade que consta de 180 Irmãos.
Tanto dão as quartas feiras missa da Capella que instituhio o Reverendo Domingos Manso desta Villa que dotou com duzentos mil reis que andão a juro, e varias fazendas.
Tem outra capella de dez missas cada anno, que instituhio D. Thereza, Molher de PauIo Correa, Governador que foi nesta Praça.
Tem outra Capella que instituhio Maria Lourença, Molher de Antonio Alz. Torres desta VilIa, com obrigacão de missas que dotou com varias fazendas. Tem missa todas as sextas feiras pellos Irmãos e bemfeitores.
Há na Santa Caza Jubileo prepetuo em varios dias do anno, principalmente na vespera de Dominga da Payxão athe a Segunda feira por bulla que concedeo o Santissimo Padre Inocencio undecimo, paçada a 17 de Agosto do anno de 1680, no quarto anno do seo Pontificado, por se fazerem na Dominga da Payxão os Passos nesta Villa, para o que há devotas Imajens e bons preparos, e na Segunda feira se faz o anniversario geral.
Tem hum altar collateral a mão direyta em que está collocado o Menino Deus, outro a mão esquerda do Espirito Sancto, com lrmandade administrada pellos mossos solteiros.
Há huma Caza de Pobres e Peregrinos.

6 – Com os santos nos caminhos da paz e da guerra
Tem esta Villa hüa capella de S. Lazaro fóra das Muralhas, hüa milha para Nascente.
Tem outra junto as portas, de S. Miguel, para o Norte, dotada com fazendas. Hé administrador della o Pe. Manoel Aiz.
Há huma Igreja fora dos Muros, para o Norte, com trez arcos bons, de N. Senhora da Painça, que foi a Matriz do Lugar da Nave, e ainda conserva a pia de Baptizar.
Há tradição que formando os moradores do Lugar da Nave a Igreja no dito Lugar, levarão para ella a Senhora em procissão e no outro dia tornou a aparecer no seo altar; continuarão por vezes a Ieva-la e a Senhora tornava para esta Villa, aonde se conserva e lhe paga a Igreja e comenda de Sancta Maria da Nave, todos os annos, hua porção de trigo em memoria do prodigio.
Há naquella Igreja dous altares: hum da Senhora do Rozario a mão direita, outro de Santo Antonio a mão ezquerda. Hé muito frequentada dos devotos desta Villa.
Há nesta Villa a Sumtuosa e Real Caza de N. Senhora da Sacaparte, hoje Convento dos Padres Camillos, tão milagrosa que em todo o anno hé frequentada por Romajens pellos muitos milagres, de que são testemunhas as paredes e marmores da Igreja.
Hé a Igreja magnifica, com primorosa Capella mor, e hum arco muito levantado, tem duas naves e quatro arcos de cada parte com hum altar da Snra. do Carmo do Lado direito, aonde está collocada a Senhora do Carmo, com ordem professa, de q hé perpetuo Comissario o Padre Perfeito do Convento, tem muito Irmão a Ordem, que com os annuais a fazem rendosa, tem missa quotediana e altar priviligiada.
Nos quatro sabados da quaresma, paçada a primeira somana, vai esta Villa em Romajem à mesma Senhora e nos mesmos dias são obrigados a mesma Romajem os tres Lugares deste termo, a Villa de Villar maior e sete Lugares de seo termo, e quatorze Lugares do termo de Sabugal. Diz nestes dias a Missa da Festa o Reytor desta Igreja, a q assiste a Camara, como assima se disse.
Na festa da Pascoa de FIores, as mesmas Villas e Lugares vão em Romajem à mesma Senhora com procissoins, sendo esta Villa a Capital e a que prefere em tudo.
Em sabado do Espirito Santo, vai esta Villa em romajem à mesma Senhora, levando São Bernardo, e vai na procissão a Irmandade da Mizericordia, com a Bandeira, Provedor e Meza, Ievando a lmajem de hum Sancto Christo devota, e diz o Reytor missa na Senhora, assistindo a Camara, que paga as festas.
Está a lgreja de Nossa Senhora e Convento, situado em a Raiz de hum Monte, para a parte do Nascente, e no plaino delle, aonde principia hua Iarga campina para as partes de CasteIIa, avistando se tudo o que vai das Serras das Mezas athé Xalma, continuando a Serra de Gata athé junto a Bexar discorrendo a Serra de Penha de França, vendo se, no alto da mesma Serra, o Convento de N. Senhora de França, quatorze Legoas de distancia para o Nascenta Castella a dentro; e para o Les-Nordeste se avista na mesma Longitude o campo de arganhão, e metida para o Norte
no dito campo, distante desta Villa seis Legoas, se avista Cidade Rodrigo, divizando se claramente no anno de 1705, as baterias que nosso exercito lhe pôs athé que a tomarão para esta Coroa.
Foi o Terreiro de Nossa Senhora da Sacaparte na guerra paçada, theatro aonde a nossa Cavalaria dizputou com a de Castella varios encontros, e no anno de 1709, vindo ao Terreiro quinhentos cavallos inimigos com outros tantos Infantes, fizerão hum cordão sobre esta Praça no alto da Sacaparte, que domina por todo o monte da atalaia que corre do Sul ao Norte a tiro de pessa, sendo o seo projecto levarem a Praça de surpreza, que nesse tempo não tinha goarnição, por se acharem as tropas e Regimentos na Restauração de Miranda.
O Governador que estava nesta Praça, Francisco Estevez Florido e Mendonça, exprimentado na Guerra por ter servido em Africa e varias Armadas, não desprezando as noticias que de Castella se lhe participavão, mandou formar em bataIhõins só de frente hua tropa de egoas que estava de goarnição, e que montassem a cavallo todas as pessoas que estivessem; e em varios batalhõins fizerão frente ao inimigo
na Campanha, mandando dentro da Praça tocar caixas de Guerra, pellos Baluartes e Praça de Armas. As molheres animosas Bolonas (sic) tomarão as armas e correndo as MuraIhas valerosas, estavão promptas a dar a vida pella Liberdade da Patria.
Levantou o inimigo o campo, em apressada marcha de recolher a Cidade Rodrigo, hindo os nossos em seo seguimento, emquanto lhe deo lugar o dia para tão heroica ação.
Por lingoas que o inimigo mandou tomar, reconheceo fora industria dos Portuguezes, e revestido de colera, tornou paçados alguns dias sobre esta Praça, vindo com vistosa Cavalaria sobre os Carrascais da Rebolosa, aonde a Artelharia desta Praça, com discargas, Ihe fez perder a formaz e tendo ja recolhido de Miranda as tropas da Restauracão de Miranda, ajuntandosse as tropas do Souto, Quadrazais, Malcata e Sabugal, aliadas a esta Goarnição, Ihe sahirão ao encontro, obrigando as tropas inimigas a huma vergonhoza retirada, em que os nossos paçarão à espada a maior
parte dos CasteIhanos, levando-os, em victoriozo conflito, desde Aldea da Ponte pella Mofada athé junto a Filouro de Castella, recolhendo com varios prisioneiros e cavalos, sem mais perda dos nossos que alguns feridos, sendo João Rodrigues Lima, Capitão de Couraças, o que valeroso movia aos mais para o dezempenho de brios Portuguezes.
Não foi menor a vigiIancia com que esta Praça, conservou sempre illezo o seo respeito, porque havendo na Villa de Albergaria, Reino de Castella, distante da raya mea legoa e huma desta Villa, hum forte Castello, a que o inimigo se recolhia, e delle em varias sortidas sahirão a hostilizar esta fronteira e barrer os campos: sahio desta Praça hum corpo de gente, e adepois de o tomarem, o arazarão por minas, e refugiandosse o inimigo ao Castello de Trebelhos, distante quatro legoas da raya, em que por estar empadrastado se consideravão siguros para virem a este Reino fazer insultos, o dito Governador deo conta a Sua Magestade, e se lhe ordenou ocorresse a tão violenta opressão, e mandado-se logo por prompta a Cavalaria, com ordem que huma tropa fosse barrer os campos de Trebelhos, e q se as tropas inimigas lhe sahissem, se fossem retirando para Castella. Assim o fizerão, e tanto que a nossa tropa se retirou a parte onde a Artilharia do Castello os não podia offender virando Caras a retagoarda, se puzerão em forma de batalha, e sahindo as nossas tropas que ficarão de escolta, embuscadas em hum Monte, dando-lhe pella
retagoarda, paçarão tudo a espada, trazendo para esta Praça mais de quatrocentos Prizioneiros, cavalos e armas, sem perda dos nossos: Ação foi esta que dissoadio ao inimigo de tornar a emprehender a vir a esta Praça ou seos arrabaldes.
Imitarão sempre os moradores desta Praça as inatas rezoins e valor de seos antepaçados, porque sendo esta Villa, ja queimada e arruinada nas Guerras precedentes, nunca os naturais a dezampararão, mas animosos pellos Balluartes e lazaroins defenderão vaIerosos a Patria, Coroa e Reyno, pello que os Senhores Reis deste Reino emnobrecerão a esta Villa e moradores com priviIegios e coutos de que se dará noticia em seo lugar.

7 – Ao colo da Senhora da Sacaparte
Renascendo nelles mais o brio para a Guerra na segura protecção de Nossa Senhora da Sacaparte, que desde sua milagrosa aparição a tem socorrido como deffensora desta Villa.
Na Guerra paçada, virão os Lugares desta ViIla este prodigio: por dezamparando-se os Povos das Arajas, os moradores recolherão à Igreja da Senhora toda a sua riqueza, estando a montes o fato athé o telhado, que apenas se dava passo o altar maior, e, estando a Senhora ao desemparo, não consta faltasse cousa alguma, nem o inimigo teve arojo de entrar dentro da lgreja. Fez mais avultado o milagre, o ver que no terreiro da Senhora se aquartelou o exercito, que governou Dom Sancho de Faro e Souza, extendendo-se o campo a mais de legoa, sempre conservou inviolavel o sagrado.

8 – Celeiro do povo, presente da Coroa
Os frutos que a terra produz em muita abundancia são: trigo, centeio, cevada e milhos, em tanta quantidade que se leva de carreto para varias partes.
Produz a terra boas ortas, e meIõins, que se crião deliciosos, sem mais trabalho que semearem se ao arado e apenas hum leve sacho. Hé a terra abundantissima de grãos, ervilhas, e mais cerodalhos, tem já bastantes vinhas que se crião facilmente, são as uvas gostosas e o vinho frezco. São os campos fertis e aprasiveis, pellas muitas agoas, e capases de se fazerem em boas quintas. Porem os moradores oprimidos da Guerra so se aplicão a Lavoura.
Para a parte do Povo, em hum ameno vale subordinado à entrada principal da Villa, tem huma veiga cercada de parede em quadro, que leva quatro centas fanegas de linhaça, que dá primorosos linhos que produzem muito dinheiro; rega se toda por suas levadas grandes de agoa: huma pello simo e outra pello meio; dá boas ortas, melõins e feijõins, aboboras e de inverno nabos, em quantidade, rabaos(sic) e couves. Hé de particulares, vistoza pella ordem da repartição e primor das quoaIidades na cultura.
Tem bons tapados para trigos, centeios e mais frutos, bons prados para fenos, devezas largas e pastos em abundancia para muitos gados que há, vacada, egoas de criação q produzem muito macho, mulas e potros, de que tem os naturais bons rendimento.
Foi esta Villa couto, por ter sido arazada e queimada pello inimigo, o Senhor D. Manoel lhe ampliou o couto aos criminosos, às Villas de Villar Maior e Sabugal, por alvara de Mercê, paçado em Coimbra, aos 7 de 9br.º de 1532, que está nesta Camara, confirmado pellos Snrs Reis athé o Senhor D. Fedro Principe Regente, por alvará de 2 de Abril de 1669.
Consta da mesma Carta de Couto, fora o Senhor D. Manoel o que mandara fazer as Muralhas e Castello como agora se acha, cujas palavras são as seguintes: “A quantos esta nossa Carta virem, fazendo saber que nos temos feito Couto a nossa Villa de Alfaates por numa nossa Carta que para isso passamos aos moradores da dita Villa e porque Nos dezejamos que a dita Villa se acrescente e povoe, pello que nella mandamos fazer muitas despezas em a Cerca e fazer huma fortaleza por estar na Raya, entre estes Reynos e os de Castella; ordenamos, etc.”

9 – Seiva de heróis
Estava nesse tempo a Villa e Castello arazado e da Muralha antigua, só há hum Rebolim por corpo espinho fora da Praça, na cortadura q se lhe fez para o Norte, dentro do qual está a lgreja de N. Senhora da Painsa, de que asima se fala, e ainda se acha em ser calsada athé junto ao Rebolim, à Caza da Senhora que hera a Rua direita, e os fossos antiguos ao redor delle.
Mostra se ser assim por ser a Muralha da mesma cantaria que o Castello, e o Rebolim antiguo hé de Alvenaría so os angulos de cantaria.
Foi natural desta Villa João Camizão, descendente de Fidalgos das Montanhas de Leão. Nas Guerras que com os Mouros trouxe el Rey de Leão, fez obras tão heroicas que, para se distinguir dos mais, vestia hum Camizão branco sobre as armas brancas e hera temido das Luas Otomanas.
Sucedeo captivar o Mouro a EI Rey de Leão, e o valerozo Camizão o libertou à força do seo braço, pello que lhe deo o titulo de Fidalgo, e por Armas em campo vermelho hum Camizão orlado de azul com oito estrellas de ouro ao redor, e por timbre hum grifo de sua cor. Tem, nesta Villa e seos aredores, descendentes. Está o escudo das Armas e Fidalguia na mão de Lazaro Moreira Camizão, capitão de Fermedo, concelho de Cabeçais, Provincia da Beira, filho de D. Maria Camizoa desta Villa e de
Roque Landeiro, sargento maior, foi tirado do Cathalogo de Simancas, a requerimento de João Camizão de Aldea da Ponte deste termo, cazado com Maria Gomes, e dele tem tirado copias varios descendentes seos, que viviam em Xerez de La Fronteira e outras partes de Castella.
Foi natural desta Villa Rui Tavares de Brito, Professo na Ordem de Christo, Capitão de cavalos na Guerra da Aclamação, cuja descendencia escreveo já Antonio de CarvaIho da Costa no Cap. 35 da Geografia Portugueza, e de seo filho Bernardo de Tavora, lnquizidor Apostolico do Sancto Officio da Cidade de Lisboa.
Destes descende Luis de Brito CaIdeira, da Cidade da Goarda, Mestre de Campo do terço desta Villa, na Guerra passada, sobrinho de Paulo Affonso, Inquizidor Apostolico no Sacro Officio de Lisboa, que nesta Villa tem cazas e Morgado, que hoje s’acha na Caza do Sardoa.
Floresceo no mesmo tempo de Goarnição nesta Praça, o valeroso Capitão Tolda do Lugar do Souto, distante desta Villa hua legoa, temido raio de Marte, cujas obras são dignas de louvor, porque ficou victorioso de hum choque que teve com o Duque de Luna, a quem tirou o cavallo ricamente ajaezado com huma seIa cuberta de ouro, q se conserva ainda, e trouxera captivo a esta Coroa seo troço de Cavalaria que levava não se afastasse da Rota.
Premiou-lhe Sua Magestade os serviços com dar Abito de Christo e com mil reis de tença a sua filha D. Lionor, que cazou com Bernardo da Costa Pacheco, dos Costas de Linhares, Capitão de cavalhos nesta Guerra paçada, e D. Lionor morreo muito velha, há poucos annos.
Foi natural desta Villa, João Giz Monteiro, Capitão de Cavalos a Guerra passada, que com a sua tropa defendeo estas Fronteiras, achando-se ruina do Castelo de Albergaria, choque de Mofeda, e do Castelo de Trebelhos. Premiou-lhe Sua Magestade os serviços com o Abito de Christo e quarenta mil reis de tença para sua filha D. Maria, que cazou com o Capitão João Baptista da Cunha Pinhately, de Santo Estevão.
Nasceo deste Frei Manoel, Religioso Capucho da Provincia de S. Miguel de Castella, aonde foi Prelado, e pellas suas Letras e virtude hera Examinador sinodal do Bispado de Corea e Cidade Rodrigo, morreo com boa opinião.
No tempo da ditosa Aclamação foi Governador desta Praça Brás Garcia Mascarenhaa cujas obras de valor andão escritas na sua vida q trás Vareato Tragico, aonde fala do celebrado choque de Sancta Clara, que ainda hoje chora Castella, sem embargo de que a oposição dos Generais causou disgosto ao forte Mascarenhas, foi esmalte de seo valor, e não querendo aceitar o governo desta Praça, a que com honra foi restituido, S. Magestade o fez Comissario Geral da Cavalaria, hindo graduado servir ao Brasil donde recolheo premiado, e no socego das Armas, compôs o seo Vareato(sic) Tragico, com a celebrada inscripção da Serra da Estrela e suas lagoas, das antiguidades do Reyno, expulsão de Godos e Romanos. Deo à luz o “Certamen Eucharistico” e “Saudades Brasilicas”, obras em tudo dignas de extimação, e filhas de hum soldado que aos peitos de Marte alimentou nesta Praça as Muzas, sem largar de mão a espada.

10 – Em banho de sangue, a chave do Reino
Pudera-se neste Capitulo dar mais larga noticia das derrotas que teve esta Villa nas Guerras antecedentes, de que fala o Abade de Pera, no seo tratado de Guerra da Beira, e o Pe. Antonio de Carvalho na sua Geografia, Cap. 35, ainda que tem aquella necessaria expressão de huns tempos a outros, o que foi falta de informaçãa e de se não lerem as doaçõins desta Villa e papeis antigos, e como os tais autores são dignos de toda a veneração fora faltar ao preceito, e quem esta noticia encontrar o que se acha já com notoria probabilidade.
Foi esta Praça o alvo a que o inimigo fez sempre tiro, por ser Praça de muita importancia, como lhe chamou o Abade de Pera e o Exm.° Monsier Carle, vindo nesta para ver as Praças da Fronteira, particularizando as circunstancias desta, lhe chamou “Chave do Reyno” o que por não fazer digreção, ainda que importante, se não declara. Podemos, sem ser pleonasmo, apropriar a gloria desta Villa a queimar na Guerra da Aclamaçâo o Duque de Luna ao Lugar do Souto, distante esta Praça hua legoa.
Querer o mesmo generaI queimar o lugar de Aldea da Ponte deste termo, e defendendo-se os moradores valerosos da Torre da Igreja que hera forte, lhe matarão della tres embaixadores que lhe mandava para se renderem, peIejando tão valerosos, que huma Bala ferirão da Torre ao mesmo Duque de Luna na cara, de que irado mandou minar a Torre, e pondo-Ihe o fogo a arazou, querendo antes morrer por Gloria da Patria que serem captivos de Castella.
Acha-se hoje a Torre mais sumptuosa e forte, que reedificarão os moradores a sua custa, para que conservando-a por gloria de seo valor, vivão acautelados para o futuro.
Na Guerra paçada, roubou o inimigo o lugar de Coadrasais, distante desta Villa duas legoas, levando prisioneiro ao Doutor Paulo Correa, Abade da mesma Igreja.
Paçados poucos dias, com hum grande numero de gente, deo o inimigo sobre Malcata, distante desta Villa tres legoas e junto a Raya, ao Poente, querendo leva-lo de assalto e queimalo, foram os moradores que vigilantes estavão intrincheirados, defenderão na madrugada valerosos e acodindo as tropas, athe que huas tropas de cavalos q paçavão para Penamacor rondando Raya no Sabugal, derão ao amanhecer, em Malcata, sobre o inimigo que cobarde se põs em retirada, e tudo paçarão os nossos a espada, morreo da nossa Cavalaria so hum Tenente de Cavalos de Lisboa, e não falta quem diga o matou huma bala disparada do Forte, por se querer adiantar de mais para a victoria.
As molheres que igualmente pelejavão animosas como os homeins, fizerão tal mortandade nos Castelhanos com chusos, espetos e outras armas, que se assenta não perdoarão a vida aos que deixava para trás a Cavalaria; digno de mais memoria foi este choque que o de Aljubarrota, e hé digno de sentimento se não conserve em laminas de bronze, para eterna gloria de Malcata.
Das Villas das Erjas e Valverde, Reyno de Castella, forão tantas as pessoas que morrerão, que hera maravilha achar Molher com Marido, havendo ruas e ruas sem moradores. Todo este empenho mostrava Castella em destruir os Povos vizinhos a esta Raia para a por na catastrofe de hum total dezemparo: porém sempre ficou victoriosa, pella vigilancia de quem a governava.

11 – Cruz e Espada
Em o Lugar de Aldea da Ponte deste Termo, e distante huma legoa, hera natural o Doutor Manoel Martins, Mestre em Artes na Universidade de Evora e nella Theologo, o quaI pello exemplar de sua vida e zelo apostolico fertilizou este Reyno com doutrinas, sendo conhecido nas Cortes e Universidades pella rara aplicação da Sagrada Escriptura e memoria local da Biblia e Breviario, tendo nas Universidades conferencias com homeins abalizados em Letras. Tão abstinente que paçava dias e dias sem comer, e quando comia, hera só huma vez, não dormia nunca em cama, profetisava na vida infaustas mortes, que nos dias prefixos, se vião confirmadas, com dor dos coraçõins, sarava enfermos com hüa só benção, dizia que hera Sancto, pello q o reputavão louco. Sendo rico tudo dava aos pobres e pedia para comer.
Foi chamado pello Corregedor e ConseIho dos Reinos de Castella, para hir aquella Villa orar Deos, em hua epidimia mortal que graçava naquella Villa, mandando Ihe dizer que tivesse fee em Jezus Christo, que elle rogava a Deos por elles, e a poucos dias se lhe mandou carta de agradecimento e q Deos por sua Misiricordia levantara o contagio.
No Convento de S. Filipe Neri de Freixo de Espada a Cinta, adoeceo gravemente hum Padre de Auttoridade, pedindo lhe por conta deprecace a Deos por elle, e na mesma hora recebeo a carta em Aldea da Ponte, melhorou o Padre em Freixo.
Simão Caldeira Frazão, Sargento maior da Villa do Sabugal, hindo de Romajem a Nossa Senhora de Penha de França, adoeceo gravemente em o lugar de Albergaria, Reino de Castella, em caza do Dr. Medico João Rodrigues Custodio, achava-ce prezente o Virtuoso Doutor, lançou-lhe a Benção e o mandou continuar a jornada, ficando livre da doença. Pronosticou no mesmo dia morte violenta a certo camarada dos da Romajem, que se vio comprida a breves dias. Obrou na vida prodigios em tantas quantidades que fora necessario muito tempo para o referir.
Devia escrever se lhe a vida, emquanto ha testemunhas que virão as maravilhas, que se espera tempo em que se veja comprida a profecia de que nas suas cazas se lhe havia de fazer hua Igreja.
Morreo este virtuoso Doutor na mesma caza onde nasceo, ficou flexivel, sentava-se, se o sentavão, com os olhos abertos, e no estado que o punhão assim ficava. Está sepultado na Igreja Matriz do mesmo Lugar, junto ao altar da Senhora do Rosario e arco maior, da parte da Epistola, hé a sua sepuItura muito frequentada de Romajena e continuamente se lhe estão cantando responsos na sepultura, e missas todos os dias. Tem sobre a sepultura sempre luz a cera com azeite que liberalizão os devotos.
No mesmo Lugar nasceo Fr. Manoel Martins Portugal que adepois de cursar algum tempo em Coimbra, se foi meter Religioso Capucho na Provincia de S. Miguel de Castella, aonde jubilou Mestre, e foi voluntario para as Felipinas, Missionario aonde fez serviço a Deos, e morreo Martri prezo a hua arvore aseteado.
Seo sobrinho Domingos Martins Portugal renunciou os bens patrimoniais que herão bastantes, na Congregação de Nossa Senhora da Sacaparte. Professou na Ordem de S. Camillo no mesmo Convento e morreo no Convento do Hospital Real de Lisboa.
Fr. Pedro da Sacaparte desta Villa he religioso Observante, e tem sido Goardião no Convento da Cidade da Goarda e outras partes.
Foi natural desta Villa Affonso da Costa, Cavaleiro do Abito de Christo, de quem ficarão descendentes D. Maria de Mendonza e D. Mena del Rio, que morrerão sem sucessão, instituindo hum grande Morgado nesta Villa, SabugaI, Rendo, Nave, Aldea Velha, termo da dita, que hoje administra Antonio da Sllva e Castello Branco, da Povoa de Redemoinhos.
Foi della natural Hieronimo de Magalhãins, Cavalheiro do Abito e familiar do Sancto Officio, que teve huma filha casada com Paulo Cardozo, Governador que foi nesta Praça, pessoas illustres e de conhecida Nobreza, por ocazião da Guerra forão assistir a Arganil aonde tem o seo Morgado, deixando nesta Villa boas fazendas. Destas familias são descendentes os Saraivas da Goarda e Foncequas de Castello Branco.

12 – Intercâmbio de riqueza, comunhão de vida
Tem esta Villa quatro Feiras Francas no Roxio(sic) de N. Senhora da Sacaparte: huma a vinte e sinco de Março dia de N. Snra. outra na Segunda feira do Espirito Sancto, outra a 15 de Agosto, e outra a oito de Setembro nas Festas da Senhora. São de muito concurso pellas vezinhanças de Castella.
Tem provisão do Sr. D. Manoel, paçada em Almeirim, a 7 de Fevereiro de 1500 para se fazerem Mercados todas as Quintas feiras: a Camara porém só permite se faça na segunda 5.ª feira de cada mês. São de concurso e de toda a casta de Boiz, Bestas e Porcos. São Francos e priviligiados para os Castilhanos.
Não tem correio, vem lhe as cartas pelo correio de Almeyda, Goarda e Panamacor, distantes cada huma seis legoas.
Tem esta Villa Privilegio concedido pello Senhor D. Manoel, por Carta paçada em Almeirim, a 14 de Fevereiro de 1514, confirmados athé o Senhor D. João 5.°.
Consistem os PriviIegios: que as Justissas serão sempre dos muros adentro; que os moradores não serão obrigados a servir a S. Magestade por mar, nem por terra, nem a acompanha-lo da Villa para fora; os soldados que assentão praça voluntarios livrão-se em querendo por requerimento na Vedoria; não são obrigados a egoas ou cavallos, carruagens ou aposentadorias; que logo que qualquer pessoa arenda caza, hé havido por morador: que se lhe dará terreno para caza, orta, vinha e pumar; os almocreves da Villa nâo pagarão Portagem neste Reino, e outras liberdades.

13 – Torre de Menagem sentinela do Reino
Hé Praça d’Armas: cercada de Muralhas de cantaria, que na Guerra paçada, se fortificarão com faxinas; tem hum Castello Forte no simo da Villa para o Sul, cercado de bons Rebelins e hum Baluarte sobre a porta principal. Tem tres Baluartes e duas meias Luas para o SuI; huma meia Lua e um Rebelim principiado, da parte de fora, que fora de conveniencia nesta Praça o acabar-se. Tem Artelheria, varias Guaritas. Tem tres portas: a da Veiga, a de S. Miguel e a do Castello, com bons rastilhos pella parte exterior. São os Baluartes Capazes de boa Artelharia, porque nos tres da Muralha se podem acomodar doze pessoas, e nos dous da Senhora do Rosario se podem acomodar outras doze; sobre o Castello, que nesta Guerra teve Artelharia, podem estar duas; além de outros sitios convenientes para a defeza.
Na Guerra tem Regimento proprio. Tropas de Cavallos de meio alqueire, e Artilheiros, além de sinco tropas formadas nos Lugares desta Raya, que à pressa do Rebate, acodem aos Rebates.
Tem Governador perpetuo, no fim da Paz e Guerra paçada, foi Governador Balthesar da Foncequa, Coronel de lnfantaria, morreo no anno de 1706, premiou-lhe S. Magestade os serviços com Abito de Christo e cento mil reis de tença, que se verificou em seus filhos os Srs. Antonio Freire de Andrade, Cavalheiro Professo, tem a sua caza na Freineda, termo de Castello Bom.
Por morte deste, entrou a Governador desta Praça Francisco Estevez Florido e Mendonça, Coronel de Infantaria: morreo no anno de 1721, premiou-Ihe S. Magestade os serviços com cento e quarenta miI reis de primeiro despacho e Abito, que se verificou com seo filho o Doutor Francísco Estevez Amaral e Mendonça, Clerigo Presbitero, e tem o segundo despacho decretado. Tem a sua caza em Penamacor.
Entrou logo a ser Governador Guilherme Cardoso e Campos, Coronel de Infantaria: premiou-Ihe S. Magestade os serviços com cento e vinte reis e Abito, que verificou em seo filho Verissimo de Campos, Capitão mor de Villa Nova de Foscoa; durou poucos annos.
Entrou a Governador João Folque de Castro, Thinente Coronel de Cavalaria: premiou-lhe S. Magestade os serviços, que se verificou a mercê em seo filho Capitão mor de Proença. E ficou sem Governador athé a promoção Geral que sahio provido o Capitão Simão Alvrez.
Tem esta Villa hum Posso no meio da Praça com as Armas Reaes, junto a Caza da Camara, muito abundante de agoas, huma grande cisterna dentro do Castello varios Possos particulares; quatro Chafarizes, duas Fontes de cantaria, huma primorosa do Povo no Roxio de N. Senhora da Sacaparte, ficando tres Chafarizes e duas Fontes debaixo da ArtiIharia. Não tem as agoas virtude.
Tem hum Pilourinho primoroso e de maior altura dos do Reino, de hua pedra só. Boa Caza da Camara.
Na Praça humas nobres Cazas q se diz foi Palacio do Marquez de Castello Rodrigo, a quem pagão hüa penção de trigo e de outras fazendas.
As Cazas dão indício de sua antiguidade e nobreza, que mostrão todas forão robocadas.
Dista esta Villa de Lisboa 64 legoas, de Lamego Capital do Bispado vinte e duas.
Não padeceo ruina no Terramoto.

14 – Vértebras duras – As serras
Está situada a Villa no braço que sahe da Serra das Mezas do Sul ao Norte. Corre a dita Serra ao Norte direito a de Xalma, pella Serra de Xalma, junto a Almeida direito a Penha de França, Furdas e athé dar na de Guadarrama; da Serra das Mezas corre ao Poente athé junto a Malcata, dividindo a raya de Castella, aonde divide hum braço ao Norte direito a cidade da Goarda, outro direito ao Poente, athé junto de Penamacor, que virando ao Sul vai a Pena Gracia, raya abaixo athé dar em Salvaterra do Extremo e a Penamacor; continua outro braço ao Poente direito a Alpedrinha, athé junto a Sertãa.
Esta Serra tem matos de xara, medronho, torga e carvalho, aonde há muita colmeia e cassa grossa de viados, corsos, Porcos montezes, e alguns gamos.
Os matos desta Villa são Carvalhos, que dão muita glandula para Porcos.

15 – Veias a escorrer ouro – os rios
Na Serra das Mezas nasce o Rio Coa, que corre ao Norte direito ao Sabugal, Almeida, athe Villa Nova de Fozcoa, q entra no Douro sempre caudaloso e utilissimo.
Para o Poente, em Castella, nasce o Rio Elja, no mesmo monte que corre junto a Salvaterra e Segura, dividindo a raya athé se meter no Tejo caudelozo.
Para o Nascente nesce, no mesmo monte, o rio chamado Rubioso, que morre junto a Aldea do Bispo e Lagiosa deste Reino, athe o ponto de CANTARURUNA, aonde passou o nosso Exercito das Magestades que penetrou Castella, e naquelle sítio, perdendo o nome de Rubioso, se chama Agueda, que vai junto a Cidade Rodrigo, aonde tem huma sumptuosa ponte de doze arcos, arruinada pelos nossos, e se vay meter no Douro, correndo ao Norte, dividindo este Reino do de Castella, junto a Matta de Lobos, Escalhão, e Villa de Castello Milhor.
Na mesma Serra das Mezas, agoas vertentes para esta Villa, junto a Sabugal o Velho, nasce hua Ribeira que chamão a do Rodo Castanho, que corre do Norte ao Sul e na Malhada Alta da mesma serra, correndo ao Poente a serra, nasce outro Rio que corre ao Norte, dividindo este termo do do SabugaI, que retrocede ao Nascente athé junto a esta Villa, chamada a Ribeira da Granja, aonde se ajuntão ambas com curso ao Norte, junto a Villa, e perdendo os nomes se chama a Ribeira de Alfaates, que vai junto a Vilar Maior meter-se no Coa. Correm todo o anno, e por serem as agoas frias sahem dellas os linhos da Veiga bons.
São estes rios amenos, com as arvores de amieiros e avelouras, que formão huma vista aprasivel: ficão estas ribeiras ao Poente.
Da parte da Villa, ao Nascente, corre outro Ribeiro que nasce a Atalaia Nova e corre junto a Villa ao Norte, regando boas ortas e lameiros, e se vai meter no rio grande.
Para o Norte da Villa nasce hum Ribeiro ao Nascente correndo ao Poente, a meter-se no Rio, correndo sempre por amenos prados de particulares e vistosos.
De Poente, junto ao Rebordilho, nasce outro Ribeiro chamado da Balsa, que corre ao Nascente athé se meter no Rio, junto com os dous Ribeiros, que rega bons prados e devezas do concelho. De sorte que os sinco Ribeiros, cercando a Villa em emcontradas correntes, tecem na Primavera huma apraziveI ordem e recreio aos moradores.
Traz o Rio bastantes trutas, bordalos, e emguias, que são saudaveis em todo o tempo. São as pescarias Iivres e as agoas delles para regadios dos particuIares, e fora a terra fertilissima se os moradores fossem curiozos em tirar agoas para as margens delles, que são todas cultivadas e opulentas.
Tem esta Ribeira huma Ponte de pedra boa, ao Fundo da Veiga, para a entrada da Villa ao Poente. Hum pontão de pedra mais abaixo na estrada Real, outro pontão junto a Villa na Ribeira do Rodo Castanho, outro pontão na Ribeira da Granja; dous na Ribeira da Senhora e outro no Ribeiro das Tapadas e outro no Ribeiro da Balsa: todos de pedra.
A Ribeira da Granja, desde que nasce athé junto a Villa tem oito moinhos e trez pizoins; a do Rodo Castanho, athé ao mesmo sitio, tem tres moinhos e hum pizão; o Ribeiro da Senhora tem hum moinho.
Os Rios, donde nascem athé se meterem no Coa, tem seis legoas de curso.
Tem esta Villa quatro Atalaias: a Nova, a da Senhora, a das Vinhas, a do Mandrião.
Hé a terra fria de inverno, com as neves a nordeste; e calida no verão.
Puderão-se dar mais largas noticias desta Villa e suas circunstancias e antiguidades, o que se não faz por entrar em suspeita a ponderaçâo da verdade.
Só se diz que, o estar no extremo da raya e com o termo da Guerra, a dezemparão os naturais, que elevados ao auge honorifico, receião ver-se arruinados e extintas suas familias, o que tudo podia ter remedio se Sua Magestade, assim como a emnobreceo de privilegios, mandace findar a fortificacão, goarnecendoa da Artilharia necessaria com que vivessem seguros, e lhe desse Goarniçao perpetua, q sem faltar ao Real Serviço se restabelece para aumento das fazendas.
Alfayates de Junho 2. de 1758.

O Reytor: Antonio de Carvalho Baptista.»

Ver perguntas do inquérito. Aqui.
Fonte: Alfaiates-Na órbita da Sacaparte. Autores: Pe. Francisco Vaz e Pe. António Ambrósio.
(Continua.)

jcl

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