A Confraria do Bucho Raiano na Casa Pia (2)

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

A Casa Pia na I República e no Estado Novo (1910-1974) – Prosseguimos hoje a publicação de uma síntese sobre o passado e o presente de uma das instituições de ensino mais antigas e prestigiadas do nosso País, com o objectivo de levar ao conhecimento dos leitores deste blogue a história da Casa Pia. A verdade histórica (na sua relatividade) e não os sensacionalistas «fait-divers» jornalísticos. Simultaneamente, como os leitores se aperceberão, vamos fazendo o enquadramento na evolução histórica do País.

Grupo de casapianos nos começos do século XX, entre os quais se contam médicos, arquitectos, pintores, músicos, agrónomos, oficiais do Exército e da Marinha, etc.
Estátua de Pina Manique, da autoria do escultor casapiano Helder Batista (1990) Retrato de António Aurélio da Costa Ferreira, pelo pintor casapiano Pedro Guedes (1915) Estátua de Garcia de Orta, em Lisboa, da autoria do escultor casapiano Martins Correia (1958)

(Clique nas imagens para ampliar.)

Na madrugada de 4 de Outubro de 1910 iniciaram-se em Lisboa as operações militares e, às primeiras horas da manhã do dia 5 içava-se uma bandeira branca no quartel-general monárquico, enquanto a população invadia as ruas da cidade, confraternizando com os revoltosos. A Monarquia, velha de oito séculos, caía quase sem defensores e proclamava-se a República. A alternativa republicana apontava para uma sociedade mais progressiva e mais justa, criando enormes expectativas nos Portugueses. Mas seria justamente a frustração de muitas dessas expectativas que haveria de criar grandes problemas ao novo regime implantado em 1910. As dificuldades experimentadas pela governação republicana conduziram, logo nos primeiros anos do regime, a uma instabilidade política, económica e social que haveria de ganhar raízes na vida pública, agravada pela participação de Portugal na I Guerra Mundial.
O último provedor da Casa Pia na Monarquia foi Ramada Curto, cuja passagem pela Instituição não ficou particularmente assinalada. O mesmo não pode dizer-se, no entanto, do dirigente seguinte, António Aurélio da Costa Ferreira, médico de renome e pedagogo eminente, nomeado por António José de Almeida em 1911. Costa Ferreira foi pioneiro da psicologia do desenvolvimento e da psicologia escolar na Casa Pia, defendendo a prévia detecção das aptidões de cada aluno, numa antecipação daquilo que viria a ser a orientação vocacional e profissional. Apostou também na educação especial, dirigida a crianças portadoras de deficiência, como a surdez e aquilo que então se chamava «atraso mental».
Entretanto, em 1922, Costa Ferreira morre tragicamente em Moçambique, sucedendo-lhe um antigo aluno, agora professor e sub-director: Alfredo Soares. Discípulo de António Aurélio, dirigiu a Casa Pia até 1929, sob os mesmos parâmetros pedagógicos do mestre.
Os alunos educados na Instituição nas primeiras décadas do século XX, orientados por estes pedagogos de excepção, prosseguiram no caminho da formação integral que sempre foi apanágio casapiano. São estes jovens (entre os quais encontramos Cândido de Oliveira, Ricardo Ornelas e Ribeiro dos Reis) que se tornam pioneiros, entre nós, de novos desportos como o futebol e o basquetebol, e entusiásticos praticantes de outros desportos mais antigos, como o atletismo, a esgrima e a natação. E fundaram, para si e para os seus companheiros saídos da Casa Pia, um clube onde todos pudessem entregar-se livremente a essa verdadeira paixão pelo desporto – o Casa Pia Atlético Clube (1920).
A Ditadura Militar instaurada em 1926 foi recebida pela população portuguesa (por aquela parte da população a quem as notícias chegavam) com a mesma expectativa que tinha sido recebida a República em 1910: todos esperavam que, finalmente, se instalasse a tranquilidade necessária para que o progresso e a melhoria das condições de vida chegassem. Apenas alguns militantes republicanos mais activos, bem como os comunistas, os anarco-sindicalistas e os democratas mais convictos não se acomodaram e mantiveram acesa a luta contra os militares.
Os generais, perante a alarmante situação das contas do Estado, convidaram para a pasta das Finanças um reputado professor dessa matéria na Universidade de Coimbra, António de Oliveira Salazar. Entre 1928 e 1932, o Professor Oliveira Salazar revelou-se um ministro exigente e competente, que equilibrou as contas do Estado e ganhou um prestígio enorme. Finalmente, em 1932, o presidente da República, general Óscar Carmona, nomeia Salazar Presidente do Conselho de Ministros, como era previsível.
Em parte inspirado no fascismo italiano de Benito Mussolini, o regime do Estado Novo foi um autoritarismo de Governo, corporativo, anti-liberal e anti-comunista, com boa parte dos poderes concentrados na pessoa do Presidente do Conselho. Apoiado pelos militares, pela maior parte do clero católico e pela alta burguesia, o regime salazarista soube durar, defendido pela Censura e pela Polícia Política (PVDE/PIDE/DGS).
Com uma taxa de analfabetismo a rondar os 40% em 1950 e um enorme atraso na industrialização (na mesma altura, 49% da população activa portuguesa trabalhava na agricultura), Salazar deu finalmente ouvidos aos industrialistas e, através dos Planos de Fomento e da abertura do País ao investimento estrangeiro e ao turismo, Portugal começou a modernizar-se. Esse progresso, porém, foi insuficiente para travar o enorme surto de emigração dos anos 60 para a Europa industrializada: cerca de um milhão de portugueses partiram. Simultaneamente, o Estado Novo via-se confrontado com o problema que haveria de lhe pôr fim: a guerra colonial, iniciada em Angola em 1961. Intransigente na defesa das «Províncias Ultramarinas», o regime recusou sistematicamente os apelos da ONU à descolonização, declarando-se «um Estado pluricontinental e multirracial».
Em 1968, incapacitado por doença, Salazar é substituído por Marcelo Caetano, que prometeu ao País «renovação na continuidade». No entanto, as esperanças de democratização desvaneceram-se rapidamente: a guerra colonial continuava e agravava-se e a «primavera marcelista» revelava-se uma liberalização fracassada. Perante a recusa da solução política para o problema ultramarino e com a solução militar esgotada depois de 13 anos de guerra, o Movimento das Forças Armadas, constituído sobretudo por jovens capitães, desencadeia um golpe militar que haveria de se transformar em revolução: o 25 de Abril de 1974, que pôs fim ao regime do Estado Novo e lançou as bases do Portugal Democrático.
Os seis anos de Ditadura Militar pouco ou nada mudaram na Casa Pia de Lisboa. O tenente-coronel Câmara Leme, provedor desde 1929, não deixou na Instituição qualquer contributo digno de registo. Em 1935, porém, o Estado Novo dá início a uma profunda reforma da Assistência, encarregando o respectivo director-geral, Braga Paixão, de a preparar e executar. Esta reforma haveria de mudar radicalmente a Instituição Casapiana.
at_20130421_005bSão concentrados na Casa Pia de Lisboa todos os estabelecimentos de educação e assistência social dependentes da Direcção-Geral de Assistência: cada uma dessas instituições passaria a ser considerada secção da Casa Pia de Lisboa. Em 1940, o próprio dr. Braga Paixão assumiu as funções de provedor.
A reforma Braga Paixão (concluída no final de 1942) integrava os seguintes institutos na Casa Pia de Lisboa: Asilo D. Maria Pia, Asilo Nuno Álvares, Instituto de Surdos-Mudos Jacob Rodrigues Pereira, Asilo de Nossa Senhora da Conceição, Asilo de Santa Clara, Asilo 28 de Maio. A «antiga Casa Pia» passava a ser a «Secção de Pina Manique».
O autoritarismo do regime salazarista, como não podia deixar de ser, entra e enraíza-se dentro desta instituição complexa, com uma gestão centralizada, burocrática, distante das crianças e do seu quotidiano, nos antípodas das teorias e da prática de um Aurélio da Costa Ferreira. Nas décadas finais do Estado Novo (50 e 60), a Casa Pia de Lisboa reforçou esta tendência autoritária, centralista e nacionalista e a Instituição atravessou um período cinzento, sem chama, com as crianças e jovens sofrendo algumas privações.
Do ponto de vista pedagógico, todavia, a qualidade do ensino, particularmente do ensino técnico-profissional, manteve-se, o que permitiu conservar muito do prestígio herdado da «antiga Casa Pia».
:: ::
(Continua)
«Na Raia da Memória», crónica de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

2 Responses to A Confraria do Bucho Raiano na Casa Pia (2)

  1. jclages diz:

    Caro Professor Adérito Tavares

    Atrevo-me a acrescentar a esta crónica mais umas linhas retiradas do livro «História de 50 Anos do Futebol Português», editado pelo jornal A Bola:
    «… Mas para que Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis se lançassem na mais apaixonante aventura das suas vidas, precisavam ambos de cinco mil escudos. O que se sabe é que o sonho explodiu quando Vicente de Melo, outro companheiro da tertúlia do Restauração, lhes garantiu que não seria por falta de dinheiro que o sonho se dissiparia. E não foi.»
    Assim, dois casapianos (Ribeiro dos Reis e Cândido de Oliveira) em conjunto com Vicente de Melo fundaram a sociedade Riviarco que passaria a chamar-se, algum tempo depois, VICRA. O dinheiro de Vicente de Melo (cujo neto é actualmente administrador) e o talento de Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis (cuja filha foi, também, até há poucos anos administradora) fundaram em Janeiro de 1945 o jornal desportivo «A BOLA».
    José Carlos Lages

    • Adérito Tavares diz:

      Caríssimo José Carlos Lages
      Obrigado pela achega “futebolística”. De facto, foram casapianos que estiveram na origem do jornal “A Bola”. Cândido de Oliveira, para além de dirigente desportivo e jornalista, foi também futebolista de grande mérito, tendo capitaneado a selecção nacional na sua primeira internacionalização, em Madrid.
      E, já agora, outra informação interessante: encontramos igualmente dois casapianos na fundação do Benfica, Cosme Damião e o Dr. Januário Barreto, co-fundadores do “Sport Lisboa”. Este último, médico e desportista, casado com a Dra. Carolina Beatriz Ângelo, sobre a qual já tive oportunidade de aqui escrever, foi o primeiro presidente eleito do “Sport Lisboa” e da Liga Portuguesa de Futebol. Tanto Cosme Damião como Januário Barreto estiveram depois na origem da fusão do “Sport Lisboa” com o “Sport Benfica”, em 1908.
      Adérito Tavares

Deixar uma resposta