As peias dum deputado

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

O menos que se pode dizer de um deputado é que ele não é livre. Para começar o rol de subserviências, dir-se-á, desde logo, que não goza de qualquer autonomia ante o seu partido que o fez eleger e o subvenciona e que, em troca, lhe exige disciplina de voto.

Não é livre perante os seus eleitores, com os quais estabeleceu um pacto social sui generis, a que os franceses chamam Donnant-Donnant e que se repercute na troca de favores
Não é, por igual livre perante o governo, grande dispensador de comendas, prebendas e outras benesses, que também chegam aos deputados da Oposição, até para estabelecer compromissos de reciprocidade.
De maneira que no momento do voto, no supremo momento em que se defrontam dever e obrigações, a consciência pesa pouco.
Gonçalo, o da «Ilustre Casa de Ramires», tinha de vestir a libré para, no momento de prestar menagem e lealdade, se desbarretar ante o horrendo careca que chefiava o partido.
In «A Queda dum Anjo», Calisto Eloi de Silos e Benevides da Barbuda, forçava a consciência para obter em favor do mestre-escola eleitor o hábito de Cristo.
E, quando está em causa o assento num cadeirão de qualquer majestática que através de voto pouco consciençudo se pode alcançar, não há quem vacile ou oscile
O conselheiro Manuel Bernardo, pai da Morgadinha, para não perder eleições levava aos lábios um copo de vinho já meio aldaido na taberna do Canadas.
Dir-me-ão que isso é literatura e que, se foi assim, foi no passado.
Eu, por mim, responderei que a literatura é espelho da vida e que os homens são sempre iguais ou quejandos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

3 Responses to As peias dum deputado

  1. José Fernandes diz:

    Concordo em absoluto. Tudo continua na mesma ao longo da história. O mal é que mesmo hoje, mesmo conhecendo nós e criticando atitudes antigas, tenhamos de levar com posições precisamente do mesmo teor. Será que alguma vez conseguimos mudar isto?

  2. aemidio diz:

    Mestre:

    O eterno regresso do mesmo.

  3. José Fernandes diz:

    Totalmente de acordo. É pena que, com tantos exemplos ao longo da história e que por norma achamos jocosos, continuemos a tolerar as situações actuais que tão parecidas são com aqueloutras.
    um abraço
    jfernandes

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