José Carlos Callixto – um místico da paisagem

Joaquim Martins Tenreira © Capeia Arraiana

Já há muito tempo que tinha em mente escrever um artigo sobre a pessoa da nossa terra que nos merece a maior estima e consideração. Trata-se do nosso amigo José Carlos Callixto. Quando no seu último mail, que enviou aos amigos, nos confiou que ia em romagem a Vale de Espinho para festejar, no dia 19 de abril, os 40 anos de amizade com esta aldeia, não podia adiar mais a minha homenagem ao um homem que modificou completamente a nossa maneira de ver e estar nestas terras.

José Carlos Callixto - Vaie de Espinho - Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

José Carlos Callixto

Há cerca de vinte anos escrevi um artigo para o Jornal do Fundão e A Guarda que tinha por titulo «Um emigrante à descoberta da raia beirã». Fazia-me impressão ver os nossos conterrâneos que vinham da Europa do norte e de outros bandas e, ao chegarem à nossa terra, desfaziam-se em lamúrias por não haver nada que ver em Vale de Espinho e arredores.
O que me admirava era quando eu levava familiares e amigos, ficavam sempre encantados não só com as gentes, mas também com as deslumbrantes paisagens que lhes ficavam para sempre na memória. Mas como dar a volta a isto? Como poderíamos transmitir uma outra imagem do nosso Vale de Espinho?
Foi precisamente o nosso amigo Zé Carlos Callixto que encontrou o bom tom (certamente que ele é músico) para fazer a melodia das nossas terras. Quando um outro amigo, José Ilídio, me ofereceu, há seis anos, um vídeo designado – Vale de Espinho, uma melodia a quatro estações –, da autoria de José Carlos Callixto, disse para mim próprio: aqui está o músico que vai fazer o verdeiro hino da nossa terra. Vi, revi e dei a ver este vídeo. Está cheio de poesia. Enaltece a naureza selvagem, as paisagens que encantam e a natureza que nos transforma. Pela mão do Zé Carlos também eu descobri Vale de Espinho. Vi-o muito mais bonito e encantador. Nem pensava que fosse tão belo. Reconciliou-nos com uma beleza que desconhecíamos. Mas só um poeta com esta grande sensibilidade é que nos pode modificar a nossa maneira de ver e transmitir-nos tantas alegres sensações.
O Zé Carlos Callixto é um verdadeiro místico da paisagem. Calcorreia montes e vales sem fim para contemplar todos os cantos e recantos das nossas terras. Extasia-se e faz-nos extasiar diante da natureza pelas belas imagens que tantas vezes contemplámos, mas através da ótica do Zé Carlos elas são ainda mais belas. E quando as fotos que nos envia são acompanhadas de textos, o Zé Carlos é um verdadeiro escritor. O seu blogue «Por fragas e pragas» são uma autêntica dádiva. Por ali perpassa a alma de um verdadeiro poeta e místico da paisagem, e o próprio design do seu blogue é em si mesmo uma cuidada obra de arte.
Há quarenta anos que o Zé Carlos anda pelas nossa terras. Ao princípio pela mão de sua esposa Eulália que aqui veio desencantar e depois com outros amigos, este casal contagiou-nos com as suas descobertas, sempre incansáveis, à procura de cantos e recantos que fazem inveja ao melhor serviço de turismo da região.
Temos de lembrar o traçado do passeio pedestre ao longo do rio Côa, da nascente até à foz, feito por etapas, acompanhado de uma reportagem fotográfica digna dos melhores roteiros turísticos, as caminhadas pela Serra da Gata, Serra da Malcata, Serra de Aldeia Velha, Serra de Bejar, os passeios pelas aldeias raianas de Fóios, Aldeia do Bispo, Forcalhos e tantas outras – legado impar – que nos cria apetite para também nós irmos à descobertas dessas terras.
Aquele Côa, aquelas paisagens são a tua e a minha paixão. Se ainda há alguns anos se dizia que na raia beirã não havia nada que ver, foi necessário vires tu e a tua Lala para nos abrirem os olhos e ficarmos todos arrelampados, como se diz nas nossas terras.
Releio o teu mail de ontem: «Estou neste momento a bordo de um autocarro a caminho de Vale de Espinho. Porquê? Porque a próxima 6.ª feira, 19 de Abril, é um dia especial: no dia 19 de Abril de 1973 (há 40 anos)… entrei pela primeira vez em Vale de Espinho! Levado pela minha “pequena arraiana” e por aqueles que viriam a ser meus sogros, conheci pela primeira vez as terras que viria a adoptar como minhas, que viria a palmilhar de lés a lés … ao som da melodia das 4 estações do ano … de uma melodia com 40 anos! E por isso a próxima 6.ª feira, 19 de Abril … vai ser dia de mais uma “aventura”.»
E o Zé Carlos Callixto foi novamente, neste dia, à aventura, às suas Fontes Lares, sítio mítico e fundador desta relação telúrica que o ligou para sempre à sua Lala e a todos nós, e, para se redimir, atravessou sozinho, a pé, a Serra da Malcata, pela Lomba acima, chegou até à Ladeira Grande, desceu a Pesqueiro, passou por Valverde del Fresno, rumo a Penha Garcia onde foi recolhido pelos seus amigos e companheiros, prestes a reiniciar outras caminhadas.
Zé Carlos, graças a ti, podemos olhar agora para Vale de Espinho e para as nossas terras raianas de uma maneira diferente. Emprestaste-nos o teu olhar, a tua visão mais ampla e mais bela, e quando lá vamos é como se estivéssemos a ver um filme encantador.

Feliz aniversário e muito obrigado, Zé Carlos Callixto e Lala!
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Para ver o blogue «Por Fragas e Pragas». Aqui.
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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins

7 Responses to José Carlos Callixto – um místico da paisagem

  1. José Manuel Corceiro diz:

    O amigo José Fino deixou o seguinte comentário : – José Antunes Fino Também eu, José Carlos Callixto, me quero associar à homenagem que o nosso ilustre conterrâneo, Joaquim Tenreira Martins, de modo tão eloquente, acaba de te tributar neste dia especial da tua vida junto da tua amada arraiana.
    Temo, porém, que este meu desiderato fique definitivamente prejudicado perante o elogio tecido à tua volta todo ele recheado de princípios e valores que, justamente, te enobrecem.
    Emparceirar com o nosso conterrâneo, correria o risco de descer o nível de apreciação que bem mereces e que ele, tão brilhantemente, descreveu.
    Quero, contudo, trazer aqui à colacção um poema de alguém que, como tu, é um místico da Natureza: nada mais nada menos que S. Francisco de Assis.
    Não sei se és crente, agnóstico ou ateu, nem isso me interessa.
    Sei, apenas, que se fosses contemporâneo deste santo e com ele convivesses, ele faria parte do teu grupo de caminheiros e, contigo, caminharia por veredas e caminhos, por cantos e recantos, sempre a desvendar os mistérios da Mãe Natureza!
    Por isso, convido-te a saborear o “Cânticodas Criaturas de S. Francisco” que Luís Miguel Cintra transcreveu no prefácio do livro “Um Deus que dança” de José Tolentino de Mendonça:

    Louvado seja Deus na natureza,
    Mãe gloriosa e bela da Beleza,
    E com todas as suas criaturas;
    Pelo irmão Sol, o mais bondoso
    E glorioso irmão pelas alturas,
    O verdadeiro, o belo, que ilumina
    Criando a pura glória – a luz do dia!

    Louvado seja pelas irmãs Estrelas,
    Pela irmã Lua que derrama o luar,
    Belas, claras irmãs silenciosas
    E luminosas, suspensas no ar.

    Louvado seja pela irmã Núvem que há-de
    Dar-nos a fina chuva que consola;
    pelo Céu azul e pela Tempestade;
    Pelo irmão Vento, que rebrama e rola.

    Louvado seja pela preciosa,
    Bondosa Água, irmã útil e bela,
    Que brota humilde. É casta e se oferece
    A todo o que apetece o gosto dela.

    Louvado seja pela maravilha
    Que rebrilha no Lume, o irmão ardente,
    Tão forte, que amanhece a noite escura,
    E tão amável, que alumia a gente.

    Louvado seja pelos seus amores,
    Pela irmã, madre Terra e seus primores,
    Que nos ampara e oferta seus produtos,
    Árvores, frutos, ervas, pão e flores.

    Louvado seja pelos que passaram
    Os tormentos do mundo dolorosos,
    E, contentes, sorrindo, perdoaram;
    pela alegria dos que trabalham,
    pela morte serena dos bondosos.

    Louvado seja Deus na mãe querida,
    A Natureza que fez bela e forte;
    Louvado seja pela irmã vida
    Louvado seja pela irmã Morte.

  2. José Manuel Corceiro diz:

    Depois destas assertivas e merecidas palavras, escritas eloquentemente, por dois estimados Valespinhenses, que fielmente expressam as qualidades pessoais, aliadas a uma sensibilidade humana impar, complementada por um espírito inabalável e tenaz, temperado na persistência, que germinou a paixão com que o nosso amigo, José Carlos Callixto, tem vindo, ao longo dos anos, a dar a conhecer com arte e a exaltar com amor, a magia e o encanto da nossa linda aldeia, Vale de Espinho….
    Posto isto, só me resta parabenizar e agradecer, ao José Carlos, o empenho majestoso que lealmente tem dedicado, abnegadamente, à divulgação das nossas terras e das suas nobres e trabalhadoras gentes…
    Um abraço, José Carlos…

  3. Meus amigos, Joaquim Tenreira Martins, José Fino, José Manuel Corceiro e tantos outros, meus amigos de Vale de Espinho e das terras raianas … sinto-me ao mesmo tempo lisonjeado e emocionado com as vossas palavras.
    A minha “melodia” de ligação a Vale de Espinho, que agora completou 40 anos, é realmente uma melodia de paixão, de paixão por terras e gentes que aprendi a amar, que adoptei como se fossem minhas. São terras e gentes, são sabores, cores, cheiros, sensações, a que costumo chamar o meu retiro espiritual, porque realmente o é, um retiro onde me encontro comigo mesmo … e não só.
    Não quero por isso deixar de salientar que por trás desta minha paixão também está um grande homem, um grande Valespinhense, com o qual de certo modo me encontro ao longo das veredas e caminhos, dos cantos e recanto que palmilho. Se foi a minha “pequena arraiana” que me ligou a Vale de Espinho, não posso nem quero esquecer que foi o pai dela que pela primeira vez lá me levou, o meu querido e saudoso sogro, José Clemente Malhadas. Homem com ‘H’ grande, homem a quem devo tanto do que sou, homem com quem tanto aprendi e que tão cedo partiu, quando tanto tinha ainda para nos dar. Quando percorro os caminhos das Fontes Lares, as veredas da Malcata e da Marvana, quando me deleito a ver correr as águas do Côa, não tenho dúvidas de que também ele me guia nesas minhas “peregrinações”, nessa minha catarse purificadora. E como me sabe bem “senti-lo” na brisa da serra, “vê-lo” além de cada colina, por trás de cada nuvem escura, ou sorrindo com o Sol que me ilumina o caminho e as paisagens raianas.
    Joaquim José, um grande obrigado pelas palavras que entendeste dedicar-me, que me emocionaram e comoveram. Um grande, grande abraço, para ti e para todos os Valespinhenses que um dia me levaram a beber da água da Fonte Grande, Vale de Espinho à qual fiquei e ficarei para sempre ligado. Bem hajam!

  4. José Baleiras diz:

    Neste espaço,mais próprio para os Valespinhenses deixarem os seus comentários, quero, no entanto associar-me a esta homenagem ao Zé Carlos, amizade ainda recente mas cheia de partilhas de momentos e palavras que nos enriquecem.Entre elas ter-me mostrado as belezas de Vale de Espinho e o seu rio Côa. Um abraço Zé Carlos.

  5. Alberto M L Pachê diz:

    Um belo texto do amigo Kim Zé a homenagear como ele diz um “místico da paisagem” .O Callixto sente a natureza melhor que ninguém e ligou-se às terras raianas pelo amor a uma mulher,Lala de seu nome.As Fontes Lares são um lugar místico;senti isso mesmo desde pequeno quando calcorreava aquelas paragens.Por lá encontrei o falecido Manuel Tomé que por lá tinha uns terrenos e penso que uma casa..Callixto não esquecerei a caminhada que fizemos à Quinta do Major!Obrigado a ambos..

  6. Aurora Martins Madaleno diz:

    Acabo de ler os comentários a partir de “José Carlos Callixto – uma mística paisagem”. São bons amigos e todos, conterrâneos ou não, vivem cheios de bons sentimentos pelas nossas terras raianas.
    O nosso torrão natal é engrandecido com as descrições e as melodias naturais de José Carlos Callixto. Ele ama esta terra e esta gente. Tem um coração que abarca toda a vivência deste nosso povo.
    Gostei de ler os seus textos sobre o que sente e vê quando calcorreia a Serra e palmilha as margens do Rio. Ilustra-os com fotografias que me dizem muito mais do que pretende mostrar-nos.
    Também o reconhecimento ao sogro José Clemente Malhadas, o amor pelos primeiros passos nestas terras, o carinho pela sua “pequena arraiana” e pelos seus príncipe e princesas, mostram bem o coração sensível e bom deste nosso amigo de Vale de Espinho.
    Estamos todos de parabéns por termos um amigo assim. Lendo o que escreve sobre as caminhadas e olhando a sua imagem de braços abertos à Natureza, apetece dizer que

    A magia anda no ar,
    Nas fragas e nos ribeiros,
    Na água do Rio e do mar,
    Nas courelas e lameiros.

    Um abraço cheio de amizade e gratidão, José Carlos Callixto.
    Aurora Madaleno

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