Esta crónica…

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Confesso que inicio esta crónica sem me ter decidido pelo assunto. Espero que o título me surja no fim. Por agora apenas puxo as palavras e chamo um assunto simples. A simplicidade também constrói a vida.

Serra da Estrela - Terras do Jarmelo - Fernando Capelo - Capeia Arraiana

Serra da Estrela (Foto: D.R.)

Olho, então, pela janela em busca do exterior para o observar, para lhe fazer o reconhecimento, para que o exterior me proporcione o tema.
Ainda não escrevo e começo a sentir-me recompensado!
Obtenho, perante os meus olhos, um vale profundo e, para além dele, a majestosidade da Serra da Estrela. A Guarda, cidade, é assim, emparceira-se com a montanha.
Verifico um nevoeiro baixo e inundante que enche o vale até ao meio e faz sobressair os montes. O sol, lá do alto, espreita palidamente a tarde por entre ilhas de nuvens espessas. Adivinho, do lado de fora, algum frio porque a tarde avança e estamos em meados de Março.
Estou, pois, em paz e em espera. Vejo e sinto o que todos vêm e convenço-me que as coisas, contadas com palavras simples, não são um empreendimento absurdo, não são uma inutilidade.
Há uns dias que a celeridade da vida me não deixava ver tão profunda e pacificamente. Há tempos que não deixava a alma sossegar-se, comover-se, límpida e leve, num discreto entusiasmo por estas vistas.
Nada poderá valer esta paz de espírito a refletir-se na claridade da tarde, a visitar os sítios, a verificar as vidas das pessoas que, até ao chegar da noite, não desistem de habitar o dia. Refiro-me a pessoas simples e discretas que se cruzam singelamente com as vidas de outras pessoas. Falo de vidas que se podem contar em poucas palavras, mas que definem as lembranças que nos são comuns a todos.
E, sim, é verdade que o tempo nos envelhece, no sentido de nos aumentar a idade. Mas, por outro lado, o tempo é eterno. Se muda e nos muda, nunca finda. Talvez o tempo nos crie a vontade de permanecermos jovens. Quiçá o tempo nos traga o desejo de esquecer a idade.
Mas, apesar do peso da vida, pretendo que o tempo presente ainda me permita sorrir.
Hoje e agora observo a tarde e o tempo, a serra e as pessoas e consigo voltar a ser criança. Volto, a ver, como já vi mil vezes, o nevoeiro e as pessoas simples que madrugam nas manhãs para vencerem os dias inteiros. Vejo também o sol a tentar iluminar.
Tudo isto me lembra a infância e as histórias que me contavam.
Minha mãe contava-me histórias cujas personagens eram gente simples a conviver com o sol, com os dias e com a montanha. Fechava as pálpebras enquanto contava inclinando a cabeça ligeiramente para trás para inventar, para criar mistério. Agora a Serra
e o tempo lembram-me essas histórias num contexto de há décadas.
Ao olhar pela janela, em busca de um exterior que conheço de cor mas que quero voltar a ver (por necessidade endógena) surgem-me as palavras e vou desvendando mistérios sob um sol escurecido por escassas mas espessas nuvens. Olho como se tentasse descobrir tesouros no Céu e na Serra que são e serão omnipresentes.
Reconheço e verifico tudo o que avisto e consigo voltar a ser menino. Colho a sensação de que desvendo alguns dos enigmas que a simplicidade esconde. E, ao deixar correr a pena, escrevo, tão simplesmente, esta crónica.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

3 Responses to Esta crónica…

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capêlo:

    « …as coisas contadas com palavras simples ». As palavras simples não têm nada a vêr com as palavras superficiais que hoje são usadas, as palavras simples demonstram a profundidade da alma.
    Já reparaste bem na linguagem da Publicidade? Dos jornais? Dos discursos da maior parte dos políticos de turno? Dos especialistas de marketing? Das palavras estrangeiras que povoam o nosso léxico? Esta é a linguagem actual a soldo do grande poder económico, a que nos obrigam a usar.
    Continua com a tua simplicidade eterna na escrita e profundidade na alma, eu continuarei com o meu anacronismo, o tempo um dia dirá quem tem razão…

  2. JFernandes diz:

    Ao ler estas linhas não pude deixar de me rever nelas.
    Principalmente quando me desloco à minha aldeia e deambulo por tudo quanto é sítio, por caminhos desertos, pela margem do rio, a sensação que sinto é algo de parecido com o que descreve.
    Lembranças dos pais, dos tempos idos, ajudam-nos a não esquecer quem e onde nos criou.
    Continuemos assim pois, pois o tempo dirá quem tem razão como diz o comentador anterior.
    JFernandes (Pailobo)

  3. Clara Costa diz:

    Amigo F C.
    Para além do olhar terno sobre o mundo há um outro olhar quiçá mais atento, mais perspicaz, mais feroz, mais real e, após esse olhar, não me sinto “recompensado”, sinto-me impotente, angustiado… muito revoltado!
    Perante os meus olhos… há um nevoeiro baixo, peganhento,inundante que tapa a beleza e esconde a realidade… Apesar do nevoeiro vejo, claramente, que o meu desgaste, as minhas lutas, as minhas esperanças são uma inutilidade quase absoluta. Começo a verificar que a vidas das pessoas, das gentes da minha terra, nada significa para aqueles que lá, na longínqua cidade, tramam, conspiram, trapaceiam, vigarizam, roubam… e que as pessoas simples e discretas que cruzam e se cruzam singelamente a rua, são cada vez menos, mais infelizes, mais abandonadas e menos importantes. Em poucas palavras, são totalmente desprezadas como somos quase todos… Quiçá o tempo nos traga o desejo de esquecer a (real)idade e que o tempo presente ainda nos permita sorrir. Quiçá! Tal como a sua, também a “Minha mãe contava histórias cujas personagens eram gente simples a conviver com o sol, com os dias e com a montanha”. Mas eu não vou poder contar essas histórias, porque essas pessoas desapareceram, as suas histórias de vida foram desvalorizadas, adulteradas…
    Amigo Fernando, ao olhar pela janela, já não vejo a serra, a cidade, a aldeia, vejo um mundo abandonado, desertificado, desprotegido. Vejo “um sol escurecido por espessas nuvens”. Por muito que tente NÃO reconheço a serra, não reconheço a rua, nem os sons, nem as cores, nem os odores… Por muito que tente não consigo sentir-me outra vez menino… As gentes da cidade grande roubaram-me o sonhos, queimaram-me a serra, destruíram-me os campos, mataram-me os pássaros e os animais selvagens, vedaram-me os trilhos, desviaram as pedras da calçada, derrubaram os muros,… apenas não desviaram o sol. Ainda não conseguiram!

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