A dívida e o défice aos olhos de um ignorante

António Pissarra - Raia e Coriscos - Capeia Arraiana

«Com papas e bolos se enganam os tolos» e penso que é assim que a maior parte dos portugueses se sentirão com a evolução do País nos últimos anos. Convenceram-nos que «o passado foi lá atrás» e o futuro só poderia ser, a cada dia, melhor. O presente esclarece, de forma cruel, as opções do passado.

Raia e Coriscos - António Pissarra - Capeia Arraiana

A solução para a dívida passa sempre por castigar os mais fracos (Foto: D.R.)

A maior parte dos portugueses não compreende nada das questões técnicas da economia e da finança. As pessoas entendem como dívida os encargos que pessoalmente têm perante terceiros e como défice um azar que lhe aconteceu, um imprevisto, como um acidente automóvel, cujo rendimento habitual não consegue cobrir sem contrair dívida ou fazer recurso a poupanças. É por isso que são tantas as vozes a afirmar que não devem nada.

A verdade é que o Povo foi enganado pelos sucessivos governos e pela banca. Os mesmos que agora castigam a economia e as famílias, obrigando a taxas de juro enormes, não «alugando» dinheiro e reduzindo salários.

Voltando ao tema, o défice orçamental resulta da diferença da riqueza que o País consegue produzir num ano, o PIB, e o dinheiro que se gasta. Ora aquilo que se verificou, nos vários patamares do Estado, desde ministérios a autarquias, foram sucessivos orçamentos, inflacionados ano após ano, embora não tivessem sustentação financeira do lado da receita. Défices sucessivos acumulados fizeram com que a dívida pública se fosse incrementando ao ponto de toda a riqueza produzida num ano pelos portugueses ser insuficiente para fazer face à dívida que ultrapassa já, em muito, os 100 por cento do PIB.

Como vemos o défice e a dívida estão intimamente relacionados e o primeiro está diretamente ligado à pujança da economia. Se a economia crescer o PIB cresce e o País pode apresentar uma diferença entre receita e despesa positiva para as contas do Estado, um superavit. É por isso que a emissão de dívida pública tem as suas virtualidades, uma vez que o Estado apenas paga juros, geralmente baixos, dos empréstimos que contrai e no final liquida o valor do empréstimo. Se o dinheiro assim obtido servir para desenvolver a economia, aumentando o PIB, está tudo bem, mas se, como aconteceu em Portugal, for utilizado em opções ruinosas, alimentando o ‘monstro do Estado’, investindo no alcatrão e outros e pouco em bens transacionáveis, nomeadamente aqueles que permitam evitar importações e, mais importante, incrementar as exportações, então, tudo está destinado a correr mal. Foi o que aconteceu no nosso país na última década; em 2001 a dívida era de 50,4%, já em 2010 era de 92,4% do PIB. Este caminho foi fruto de défices excessivos e de uma taxa de crescimento quase invisível. Neste caso é fácil identificar os culpados; os governos de José Sócrates e tantas autarquias.

Poder-se-ia pensar que o governo que se seguiu a Sócrates, depois das promessas que fez, de um programa eleitoral que foi sufragado e do acordo que também assinou com a Troika, invertesse a tendência. Infelizmente, para a maioria dos portugueses, assim não aconteceu e a miséria afeta já tantos nossos concidadãos e balouça, como uma Espada de Dâmocles, sobre a cabeça de outros tantos. A prova disso, apesar do «tratamento de choque» é que o País está numa situação de calamidade social, a dívida não baixa, o défice também não chega aos objetivos pretendidos e aquilo que se defende, como fez o primeiro-ministro, é tornar ainda mais pobres os empobrecidos portugueses; é o caso da sugestão da redução do salário mínimo, quando, por unanimidade, os parceiros sociais defendem o oposto. O experimentalismo do Governo, a falta de consciência social e a inconsciência de algumas medidas, estão bem patentes nos dados mais recentes do Eurostat; Portugal foi o país que apresentou uma maior queda do PIB na Zona Euro, 1,8%, ainda que a própria Zona Euro tenha tido uma quebra de 0,6%. Quer isto dizer que o que está a correr mal depende de fatores exógenos, mas isso não explica tudo.

A acrescentar às dificuldades anteriormente apresentadas, do défice e da dívida pública, junta-se a dívida privada, fruto da inconsciência individual, do consumismo e da ganância dos bancos em aumentar lucros a qualquer custo. Juntando todos os fatores verifica-se que o endividamento excessivo das famílias, conjugado com a redução salarial, o desemprego e a redução ou corte total de prestações sociais, resulta num terrível caldo de cultura para uma espiral recessiva da qual corremos o risco de não sair por muitos anos.

As questões da dívida e do défice podem ser nebulosas para a maioria dos cidadãos. No entanto, as suas consequências negativas são bem reais e até o mais ignorante dos portugueses as entende como de um doutorado na matéria se tratasse.

«Raia e Coriscos», opinião de António Pissarra

One Response to A dívida e o défice aos olhos de um ignorante

  1. João Duarte diz:

    Não, não.. Isto não é só do Sóc… Já vem muito lá para trás. O sr. Silva acabou com a agricyltura e com as pescas, logo fez aumentar as importanções. E o famigerado “memorando” é só para pagar os prejuízos da Banca… E disso os portugueses não têm culpa, porque quando esses mesmos Bancos tinham grandes lucros dividiam-nos pelos accionistas e esqueciam os portugueses. E esqueceste o caso BPN… São só 8 mil milhões de euros e ninguém é culpado.Caso BPN, onde os amigos do sr. Silva estão enterrados até às orelhas. Não venhas com a história de que foi o Ps que nacionalizou (os prejuízos) , porque PSD e CDS apoiaram a medida na AR. Sei bem quem não a apoiou. Para mim o chefe de toda a nossa desgraça tem um nome e um rosto… Chama-se sr. Silva de Boliqueime

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