Em defesa da Europa

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Em defesa da Europa, ou ainda a diatribe camoneana sobre a irrupção do protestantismo.

Camões tinha em alta conta a valia dos povos desta velha mater de civilizações, que em numerosas passagens da sua vastíssima obra, que não apenas em Os Lusíadas, evidencia.
Numa das últimas estrofes da epopeia evoca, directis et appertis verbis, os afamados alemães, galos, italos e ingleses.
E contudo, naquela invectiva com que abre o canto nono e de que já aqui nos ocupámos sob o título Vede los alemães soberbo gado zurze desapiedadamente todas aquelas quatro nacionalidades.
A razão é sempre a mesma – a traição ao espírito europeu.
Traição corporizada essencialmente pela adesão às doutrinas de Lutero e comparsas.
Mas também pela tolerância para com o torpe ismaelita cavaleiro – nome que consigna todos os seguidores de Mafoma, com os quais se cometeu até a heresia das alianças.
Aparece ainda uma terceira causa – a frouxidão ou mesmo a abdicação na defesa dos lugares santos e do Reino Latino de Jerusalém.
Debrucemo-nos agora mais demoradamente sobre os ingleses.
Vede lo duro inglês, assim abre a estrofe.
Mas especifica três causas de dissensão.
O monarca inglês rebelara-se contra o poder papal e, por isso, perdera toda a legitimidade, sendo, pois, um falso rei.
Continuava a declarar-se soberano de Jerusalém – onde, todavia, mandava os turcos.
Nomeava-se rei da santíssima cidade, mas honra tão alheia da verdade, dado que os lugares santos eram senhoreados por terceiros.
Para os de Cristo tinha a espada nua, mas não para defender a terra que era sua.
O ataque, por esta fundamentação, alargava-se aos franceses:
Pois de ti, galo indino que direi – que o nome cristianíssimo quiseste, não por ser por ele e defendê-lo, mas por ser contra ele e combatê-lo.
Referia-se a Francisco Primeiro, que se aliara com Solimão, o grão turco e que andava em disputa permanente com o primo Carlos Quinto.
E contrapunha-o a São Luís, aquele santíssimo rei de quem herdara título, trono e terra.
Porém as causas não da justa guerra.
A diatribe voltava-se depois contra os italianos, mergulhados em vícios mil e em cruentas guerras fratricidas…
Na parte inicial proclama – que direi daqueles que esquecidos do seu valor antigo e acaba identificando-os:
Contigo Itália falo de ti mesma adversa.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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