Visceral incompatibilidade

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Ao sair duma audiência que lhe havia sido concedida por João XXIII, o genro de Krouchtchev, ao tempo satrapa de todas as Rússias, reconhecia, aliás com a maior das honestidades, não ser possível qualquer coexistência entre a doutrina comunista e a religião católica.

Comentando a notícia, quando ela foi acontecimento, Jacques Ploncard D’Assac, prestigiado politólogo cristão, escrevia no seu livro Le poids des clefs de Saint Pierre, bien sur que non:
«On ne s’en souvient plus, parce que toute une propagande s’est greffée sur l’histoire de cette audience pontificale, et que Jean XXIII mort, la légende a été habilement entretenue d’une église qui aurait accepté de reconnaitre le communisme comme, jadis elle aurait reconnu la démocracie.»
A questão punha-se dilematicamente.
Se a Igreja reconhecera a democracia, integrando-a mesmo, com a chamada democracia cristã, mais dia menos dia, acabaria por reconhecer e, porque não, integrar até a doutrina marxista-leninista.
Ploncar d’Assac continua:
«Les plus perspicaces des observateurs se rendaient cependent bien compte que l’ équivoque ne serait pas si facile a entretenir autour du communisme qu’autour de la democracie qu’on avait toujour la ressource de baptiser crétienne, laissant entendre qu’on n’avait parler que d’une tel democracie.»
E interrogava-se:
«Était-ce possible avec le communisme, matérialiste, négateur de Dieu?»
«Au lendemain de l’election de Paul VI, (Le Monde», edição de 30-6-1963), comprenait bien que le temps des equivoques etait a la fin, ecrivait jusqu’a quand pourra t’on faire des avances vers Moscou en evitant de rappeler a l’interlocuteur communiste cette desagréable verité – que Dieu existe.»
Em face do dogma da existência de Deus: «Un jour ou l’autre, un Paul VI, un Jean XXIII, butera comme Pio IX sur un de ces non possumus dont est semé son chemin.»
E então o único caminho é o do Syllabus, com a condenação de todos os modernismos.
Enfim, a constatação de que se não pode ser cristão e marxista, que o genro de Kroutschev anteviu, é exacta, porque um cristão não pode ser ateu.
De modo que qualquer interpretação de quaisquer textos pontifícios de qualquer sumo pontífice em qualquer encíclica ou documento menor que fale da conciliação só poderá ter sentido se o Comunismo admitir a existência de Deus.
Da Rerum Novarum à Mater et Magistra, nenhum texto ou frase solta permite outra interpretação.
Mas isso descaracterizaria por completo as teses de Marx e Engels, de Lenine e de Mao.
Mas também o Capitalismo é incompatível com o Cristianismo.
O próprio Karl Marx data-lhe o nascimento do seculo XVI, filiando-o na decomposição do Orbis Christianus, que durou mil anos.
Embora o Cristianismo não vise em primeira linha a resolução de problemas políticos, também não pode ser encarado como uma simples crença religiosa, mas como um código de vida.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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