O valor dos símbolos e o reino latino de Jerusalém

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Balduíno de Bolonha, conde de Edessa, chega a Jerusalém com um magro punhado de cavaleiros, mas com o firme propósito de enaltecer o seu título, invocando ser descendente dos vinte monarcas, que, até então, tinham governado a França. Iria ele próprio criar um trono e sentar-se nele.

E o simples nome do novo reino bastaria, para lhe dar a ele, filho mais novo de um modesto vassalo dos reis de França, um prestígio igual ao dos grandes soberanos da Cristandade e ao novo País um papel do maior relevo a níel mundial.
Sucessor de David e Salomão poderia filiar nos textos bíblicos a potestade da nova potência, que se prefigurava acima dos interesses cristãos e turcos.
E, como portentosa cunha ali no coração da Palestina, não faltam sociólogos que comparem aquele reino franco à situação que vive nos nossos dias o moderno estado de Israel, implantado precisamente no mesmo território e a braços com as mesmas pretensões e dificuldades.
Estado igualmente fundado na sequência de uma poderosa corrente de opinião, mantido por combatentes voluntários e sustentado do exterior por activos apoios…
É efectivamente um destino singular este de Jerusalém cidade disputada pelas três religiões monoteístas – cristã, israelita e islamita.
E se só estas duas últimas lutam pela partilha territorial dos lugares santos e a ocupação do País o facto deve-se à abdicação do Ocidente, depois das teses de Lutero.
Não era assim no tempo das cruzadas, quando religião e política eram inseparáveis.
Então, um homem de Estado – latino, grego, muçulmano – não podia empreender qualquer acção importante sem previamente a ter justificado e motivado sob o ponto de visto do respectivo interesse para a Religião.
E não por demagogia, mas por uma necessidade moral, universalmente reconhecida.
Os interesses materiais e temporais dum povo não podiam ser concebidos fora dos interesses religiosos.
O que não impedia, no entanto, que se negociasse com gregos, turcos ou pagãos.
Ou que um genovês se entendesse mais facilmente com um egípcio do que com um veneziano.
Ou que os pisanos de Antioquia abastecessem os mercados de Tiro ou Tripoli quando estas cidades se encontravam cercadas por barões francos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Deixar uma resposta