Joaquim Sapinho – o realizador raiano

À Fala Com... - © Capeia Arraiana

À Fala Com… Joaquim Sapinho – «Deste lado da ressurreição» é o mais recente filme do realizador sabugalense Joaquim Sapinho. A longa-metragem produzida pela Rosa Filmes teve estreia mundial no Festival de Cinema de Toronto e «pede-nos» uma análise à nossa interioridade enquanto encarnamos um surfista místico que leva o seu corpo aos limites entre a Praia do Guincho, em Cascais, e o convento dos Capuchos, em Sintra. Na entrevista ao Capeia Arraiana o sabugalense Joaquim Sapinho surpreende-nos ao longo de uma conversa intimista que quase nos «obriga» a ser espectadores do filme da sua vida enquanto montamos os frames da nossa própria infância. Perturbador.

À fala com... Joaquim Sapinho
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Esta entrevista deve ser lida com o som de fundo escolhido por Joaquim Sapinho. Bach-6 Cello Suites, por Janos Starker. Aqui.
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– Os seus pais, José Gonçalves Sapinho e Maria Adelaide Sapinho, são naturais do Sabugal. Que recordações tem das terras raianas?
– São as recordações mais preciosas da minha infância… [longa pausa] Há quem pense que é possível traduzir as palavras mãe ou avó, ou avô, por outras palavras. Mas… quando se é uma criança a palavra fica completamente ligada à pessoa e para mim essas palavras não são separáveis das imagens do meu avô Joaquim Fernandes Martins ou da minha avó Rosa Fernandes Martins porque se confundem na mesma significação, a significação do amor. O Sabugal é, para mim, a terra secreta da infância. Embora não vivesse no Sabugal havia um segredo. Havia o segredo do Natal com os meus avós, com a neve e com uma ideia de Natal que também não é traduzível. E quando deixámos de fazer o Natal no Sabugal o Natal já não tinha o mesmo valor. Faltava o significado do amor e de me sentir protegido numa maneira de viver em que não havia separação entre as palavras e as coisas. Havia uma força em que tudo era para aprender pela primeira vez. Era o mundo dos prados, dos bichos e das abelhas que os meus avós maternos tinham na quinta do Roque Amador. Estamos aqui os dois a falar mas eu estou a visualizar as diferentes casas das minhas tias na aldeia. Estou a vê-las melhor do que este sítio em que estamos a conversar. Foram momentos impregnados pela força do amor e ficaram registados não como uma memória mas como a verdadeira vida. Há ainda outra coisa muito importante para mim no Sabugal: o Rio! A casa da minha avó era perto do Rio e toda a vivência no Sabugal era junto ao Côa. No Verão passávamos dois meses na praia e um mês no Sabugal com a minha avó. As aventuras nas margens do Rio, a própria descoberta dos percursos e dos perigos do Rio, os amigos… [pausa] No Sabugal é possível conhecer toda a gente ao contrário dos outros sítios. Conheci pessoas extraordinárias. Havia um rapaz, o «Mináu», que era muito corajoso e que se atirava dos últimos ramos das árvores para o Rio e nós tínhamos uma admiração muito grande por ele. Havia as pessoas que sabiam pescar, havia as pessoas que sabiam apanhar os pássaros, havia as pessoas que sabiam ir roubar fruta, havia as pessoas que sabiam andar a cavalo… O Sabugal é um sítio onde uma criança sabe fazer tudo. Nós jogávamos hóquei sem patins. Mas não passava pela cabeça de ninguém ir comprar os sticks. Nós fazíamos os nossos próprios sticks. Era um mundo integrado verticalmente. Para fazer os sticks precisávamos de encontrar os ramos com as curvas correctas, depois precisávamos dos canivetes… era um processo em que tudo era feito com as nossas mãos. Tinha uma grande amizade com o vizinho da casa da minha avó, o Júlio Franco, [actualmente é advogado em Lisboa] que gostava muito de desporto e sabia tudo sobre corridas de bicicletas. Mas eu não sabia nada sobre corridas de bicicletas. E nós divertíamo-nos na casa da minha avó – que era gigantesca e infinita – a fazer «corridas de bicicletas» com centenas de caricas da Cristalina – esse sumo extraordinário – que tinham por cima rodelas de papel de diferentes cores com o nome dos corredores de bicicletas daquele tempo. E as corridas demoravam dias como se fosse a Volta a Portugal. E como tínhamos de inventar todos os brinquedos, por todos ficava um enorme amor. No Sabugal não havia pobreza. No Sabugal havia um mundo em que o dinheiro não mandava na vida. A comida era cultivada e cozinhada pela minha avó. Era verdadeiramente uma terra natal que eu vivia ainda como mais intensidade porque não passava lá o ano todo. Para os meus amigos tudo era normal mas para mim os dias que eu passava no Sabugal eram uma coisa muito preciosa que eu vivia como se fosse um sonho. No fim das férias as despedidas dos meus avós eram de uma enorme comoção conforme o carro se afastava e os meus avós ficavam ao fundo da estrada a dizer adeus e, pouco a pouco, só ficavam as pedras. Até que um dia morreram e deixei mesmo de os ver. Mas esses momentos eram para mim como que uma antecipação da morte e sentia interiormente que esse tesouro precioso podia um dia desaparecer. Um ano não queria ir às vindimas e o meu pai disse-me: «Tens de registar o que vives e vês no Sabugal porque um dia tudo vai desaparecer.» Foi brutal o meu pai ter-me dito isso mas, no fundo, era o meu olhar como realizador que já estava presente. O que eu filmo é o que vai desaparecer. A amizade vai desaparecer. O amor vai desaparecer. O Sabugal deu-me a sensação de que tudo o que é precioso vai desaparecer.
– Que memórias tem do seu pai, José Gonçalves Sapinho?
– Não se pode saber o que é um pai. Nunca se saberá porque nós estamos dentro, ou seja, se o temos é grande demais e se não o temos a ausência também é grande demais. Nós não existimos sem o pai e aprendemos o mundo através do pai. Tenho a estranha sensação que a relação do meu pai com o Sabugal era muito parecida com a minha. O conflito entre a necessidade de partir e o amor que se tem à terra natal. Mas, no meu pai, essa necessidade de partir nunca esteve verdadeiramente em conflito com o amor que ele tinha ao Sabugal. Para o meu pai o Sabugal era indestrutível porque era a vida dele, era aquilo de que ele era feito. O meu pai tinha uma relação muito especial com o seu próprio pai, Joaquim Sapinho, um homem muito distante, muito rigoroso e muito apaixonado. O meu avô tinha uma casa de pasto no Sabugal e um dia comprou uma bicicleta. Contava o meu pai que naquele tempo poucas bicicletas havia e chegavam a andar nela, por dia, mais de vinte amigos. Até que um dia ele e o meu tio têm um acidente e estragam a bicicleta. O meu pai foi contar ao meu avô e ele apenas lhe disse que «o problema estava completamente resolvido». «A bicicleta estava pendura na parede e nunca mais iria sair de lá porque se houve um acidente é porque não lhe estavam a dar o devido valor e não a mereciam.» Uma vez o director do colégio do Sabugal mandou um recado pelo meu pai para avisar o meu avô que não devia dizer mal do Salazar porque senão fechavam-lhe as lojas. O meu pai contou ao meu avô à hora do jantar, caiu uma grande tensão sobre a mesa e o meu avô, sem querer, parte o copo do vinho e fica a sangrar da mão. Conta o meu pai que ele lhes disse: «Eu até posso roer os vidros deste copo para que vocês possam singrar na vida mas ninguém manda nas minhas ideias.» O Sabugal é um lugar onde uma pessoa volta na memória mas parece ser o sítio do irreversível onde as coisas acontecem para sempre dentro do valor do tempo daquilo que se vai perder, daquilo que vai desaparecer. Eu tive a sorte de o meu pai me dar uma ponte em que o passado está sempre presente.
– Os filmes de Nicholas Ray mudaram a sua visão da vida?
– O cinema é muito importante para mim. Quem tem um passado vivo dentro de si talvez tenha mais dificuldade em viver sincronizado com o presente e o futuro porque o passado ocupa tudo ou quase tudo. O meu passado tem um nome: cinema. As minhas memórias são o cinema. E como ter um futuro se estou todo ocupado com o passado? Só há uma maneira. É fazer cinema, ou seja, é transformar essas imagens num filme que me vai dar o futuro. O Nick Ray fala da forma como cada um de nós cresce e começa a viver em sociedade mas, para mim, que estou ligado ao passado foi muito difícil começar a viver com os outros, separar-me da família, da infância. Mas acho que o Nick Ray acredita mais no futuro do que eu porque o cinema dele mostra que é possível encontrar um caminho para quem vive do passado. Eu acredito mais na transformação do passado em cinema. Não é por acaso que fiz o filme «Mulher Polícia» no Sabugal. É um filme difícil de ver porque está contra a ideia de progresso, contra o esquecimento, contra o abandono do Sabugal. Há dez anos atrás os tempos eram de riqueza e esperança e as pessoas não gostaram do filme porque era pessimista mas, afinal, uma década depois é uma história que se tornou actual. No filme os protagonistas não queriam a sociedade que lhes estavam a propor naquela terra com o passado a ser destruído. Não havia como fugir para trás nem havia como fugir para a frente. As falsificações ideológicas enganaram pessoas que já ficaram para trás. Disseram às pessoas que deviam destruir a família, que não deviam ter filhos, que iam ser muito ricas, que deviam cortar com o passado. Agora continuam com a mesma cara a propor as mesmas coisas mas as pessoas já não acreditam. A «Mulher Polícia» era sobre esse corte da vida das pessoas pela raiz e pelos ramos. O filme fazia uma espécie de profecia mas eu já o sentia como presente.
– Procura fazer um cinema em que o espectador sinta estar a ver a realidade do dia-a-dia?
– Procuro fazer um cinema em que o espectador faça o filme. Tento que o espectador projecte a sua própria realidade com os incentivos que o filme dá. Se a história não abrir um espaço na sala escura para que a pessoa veja a sua própria estória é um filme que a mim não me interessa. Mas se a pessoa não estiver disponível para falar consigo própria não vai gostar dos meus filmes. É difícil ver os meus filmes porque eles estendem a mão e pedem um pacto com o espectador.
– Continua a defender que «as pessoas vivem vidas que não suas» e «o planeta consegue viver sem nós mas o contrário não é válido»?
– A actual filosofia individualista exige a destruição da ideia de comunidade, de família e de que o outro vem primeiro do que nós. A partir do momento em que caímos nesta armadilha ficamos sós e transformamo-nos numa ilha isolada. A Simone Weil, uma escritora muito perturbadora, diz que o problema do homem não é o mal mas sim o bem. Quando o homem é compelido a fazer o bem nunca está em paz. Quando temos uma ideologia que nos obriga a pensar em nós próprios mas a nossa natureza nos leva a ter uma relação com os outros… actualmente tem o nome de depressão. Mas a explicação para as depressões está no cortar das raízes e as pessoas deixam de ser humanas e a vida perde o sentido. Ninguém sabe para que trabalha, ninguém consegue ter filhos, ninguém sabe o que é viver. É uma destruição sistemática feito pelo modelo ideológico e não pode existir a palavra fora deste vazio materialista. Não há ninguém que não morra. Apesar de ter imaginado aparelhos sobre aparelhos o Steve Jobs também morreu. Mas como não sabemos o que é a morte apenas sabemos o que acontece deste lado da vida, deste lado da ressurreição… O objectivo de possuirmos objectos não resolve o nosso problema do amor.
– «Deste lado da ressurreição» acabou de estrear nas salas de cinema. O filme é sobre «o não saber», «não saber para onde se vai», «não saber quem se é» e «nem saber como descobrir». É esta a sinopse do filme?
– Sim. Andei a fazer «Deste lado da ressurreição» durante 10 anos. Já quando realizei a «Mulher Polícia» e os «Diários da Bósnia» sabia que todas as decisões que viéssemos a tomar como sociedade não tinham sentido e os meus filmes dão conta desta inquietação. Agora já estão à vista de toda a gente. Enquanto o «dinheiro», o «eu» e o «indivíduo» forem o primado da vida o homem está condenado. Antigamente criticava-se o sistema de valores porque era hipócrita mas agora tenta-se ensinar como norma a hipocrisia. Estamos constantemente a vender produtos mesmo nas relações entre pessoas. Não se pode continuar a fingir que isto está certo. Não se pode continuar a dizer que a juventude é estúpida. Mas quem é que a ensinou? Fomos nós. Faltam aqui os valores que só os pais podem dar à criança. Não podem ser a escola nem os media a substituir a mãe e o pai.
– A cultura está «bem servida» com o novo secretário de Estado, Jorge Barreto Xavier?
– Tenho muita esperança neste secretário de Estado, não só porque passou a sua infância no Sabugal, mas porque considero que é uma pessoa muito séria, muito rigorosa que põe a arte e o valor da arte no seu lugar. Infelizmente já não se pode confiar nas pessoas mas o cinema português precisa de todos e neste caso concreto do secretário de Estado da Cultura acreditamos nas suas capacidades.

A finalizar deixámos um desafio em jeito de pergunta: «E para quando um filme sobre um contrabandista raiano que se transformou em emigrante?» Joaquim Sapinho, sem pestanejar, surpreendeu-nos com a sua resposta: «O meu pai falava muito nesses temas e na necessidade de os preservar. Espero ser digno de fazer esse filme. Um dia, ao conversar com o meu pai, percebi que não estava a ver bem o que significava o ser emigrante. A emigração não é uma deslocação para se trabalhar e ganhar dinheiro. A emigração é um exílio. E porquê? Porque a pessoa não queria partir mas é forçada a partir e portanto a sua viagem não é uma viagem de descoberta mas sim uma violência que lhe é feita. E perceber isto foi a primeira etapa para eu poder fazer esse filme de que me fala. O problema não pode ser abordado pelo ângulo económico que é uma consequência da pessoa ser violentada, ser transformada num escravo e ser expulsa do seu próprio país. E eu espero um dia estar à altura de fazer esse filme.»
jcl

2 Responses to Joaquim Sapinho – o realizador raiano

  1. fernando capelo diz:

    Palavras perturbadoras de um homem de alma cheia

  2. Luis Carriço diz:

    Só por curiosidade:
    O “Mináu”, será bem “miau”, a quem por brincadeira também chamamos “gato”, e nem sei se o nome lhe não vem dessas peripécias.
    Talvez venha. Chama-se João Luis, é bombeiro e infelizmente a saúde e a idade, já lhe não permitem essas aventuras. Mas ainda sonha com elas….

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