Raia – o Algarve do Interior

Já em tempos, então diretor de um jornal, me referi à Raia Sabugalense nos termos que o faço neste título. Fi-lo, e faço-o, com a convicção que assim é relativamente ao potencial turístico que esta região pode ter, principalmente no mês de agosto. Pode argumentar-se que a comparação peca por excesso. Talvez, mas também penso que temos aproveitado por defeito as possibilidades que a Raia, as suas tradições seculares e o seu património humano e natural oferecem para uma realidade socioeconómica que poderia apresentar outro cariz.

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António Pissarra - Raia e Coriscos - Capeia ArraianaHabitualmente me manifesto sobre a injustiça que tem sido feita com o esforço de tantos sabugalenses que tiverem que partir à procura de um futuro melhor, principalmente em terras de França. O seu esforço, os seus sacrifícios, contabilizaram-se em números, nas remessas de dinheiro que enviavam para Portugal. Apesar disso, também por culpa própria, essas verbas serviram principalmente para desenvolver outras regiões. É certo que havia/há muita gente que teve arte para ganhar dinheiro, mas faltou-lhe sabedoria para o investir, nomeadamente no concelho. Investimento que criasse emprego e mais riqueza para todos, impedindo o êxodo que se tem observado nas últimas décadas. Faltou também, talvez, uma estratégia por parte dos responsáveis autárquicos que ajudasse a que as coisas fossem diferentes.
Voltando às comparações com as Terras do Sul, podemos dizer, para os mais pessimistas, que também o Algarve não está cheio o ano inteiro, mas sabemos como um bom verão pode «salvar» o ano inteiro. Salvaguardadas as devidas distâncias, também a Raia pode ter um bom verão que ajude o resto do ano. Quem não gostaria de ver nas diversas aldeias o movimento que se verifica no verão? Também os empresários algarvios desejariam o mesmo. Tal não é possível quando se fala de prestação de serviços e não na produção de produtos transacionáveis.
Apesar de as duas atividades serem distintas, uma e outra podem estar ligadas, nomeadamente, na Raia, no que aos produtos tradicionais se refere, e são estes, aqueles que são diferentes e que constituem uma marca de identidade, que podem ser uma mais-valia para o concelho.
A classificação da Capeia Arraiana como Património Cultural Imaterial, pelo Instituto dos Museus e da Conservação, pode ajudar, mas vale de pouco se não se lhe acrescentar valor. Não se trata de regular, por lhe retirar autenticidade, uma manifestação de cultura popular, que emanou do Povo, é vivida pelo Povo e paga pelo Povo. A Capeia não pode ser vítima da sua notoriedade mais recente e deve ser fiel ao seu passado. No entanto, pode haver algumas iniciativas que potenciem este fenómeno, sem deixar de ser aquilo que sempre foi: uma festa do Povo.
Quando este verão, em Nave de Haver, observei uma banca de uns nossos vizinhos espanhóis a vender miniaturas de forcões a 10 euros, pensei para comigo: «Caramba, generosa é a gente da Raia, todos lá vão buscar e ninguém leva para lá nada!» Será que a culpa é de quem tem iniciativa ou de quem a não tem? Certamente é de quem a não tem. E já é tempo de fazer alguma coisa. Voltaremos ao assunto, apresentando algumas sugestões.
«Raia e Coriscos», opinião de António Pissarra

António Pereira de Andrade Pissarra é natural de Vila Garcia, concelho da Guarda, tem 50 anos, é professor de comunicação social no Instituto Politécnico da Guarda e foi o último director do Jornal Nova Guarda. Casado em Aldeia Velha, concelho do Sabugal, tem dois filhos, e mantém uma forte relação sentimental com as tradições raianas. Estudou na Guarda, leccionou em Évora, onde frequentou o curso de engenharia agrícola (que não concluiu), licenciou-se em Tecnologias da Informação aplicadas à educação, fez o mestrado em comunicação educacional multimédia e frequentou o doutoramento em processos de formação em espaços virtuais na Universidade de Salamanca. Actualmente é presidente e fundador do Guarda Unida Futebol Clube.

O Capeia Arraiana dá as boas-vindas ao jornalista e professor universitário António Pissarra que inicia hoje uma série de crónicas sob a rúbrica «Raia e Coriscos». O nosso bem-haja por ter aceite o convite para integrar e valorizar este painel da opinião raiana.
jcl e plb

7 Responses to Raia – o Algarve do Interior

  1. João Duarte diz:

    Bem vindo Prof Dr Mestre….

  2. fernando lopes diz:

    Amigo Pissarra, bem vindo a este espaço. Será um prazer ler as tuas crónicas. Quanto a esta, partilho por inteiro atua visão.
    Abraço

  3. Luis Fernandes diz:

    Bela crónica.
    O caro professor, aborda o que é mais importante quando diz: «Será que a culpa é de quem tem iniciativa ou de quem a não tem? Certamente é de quem a não tem.». A capeia é património imaterial? quem o afirmou a toda a gente na raia? quem procurou tirar partido disso? o que diferente se passou para valorizar a tradição e tirar dela melhor partido?
    Noutro qualquer local, de gente esperta, haveria cartazes, panfletos, spots promocionais, falando até à exaustão: a capeia é património imaterial – defenda-a, valorize-a, respeite a tradição.
    Quem andou pela raia a defender que os tratores e as motas saissem dos encerros? quem defendeu que se mantivessem os rituais de passeio dos mordomos, pedido da praça, o tamborleiro, os carros de bois a fechar as praças improvisadas, etc??? Ninguém…
    Caro professor Piçarra, a sua crónica, juntamente com o do professor F. Lopes põem o dedo na ferida. Lançaram o alerta. Esperemos que a câmara passe agora a actuar com responsabilidade – sim, a câmara, porque foi ela, tanto quanto se ouviu dizer que conseguiu o reconhecimento da capeia como património imaterial. E alguém por acaso viu a câmara em agosto na raia a promover o resultado da sua própria iniciativa e a defender a tradição?
    Professor, continue a oferecer-nos os seus oportunos textos. Tinha saudades de o ler, pois eu era assinante desse grande jornal (em volume e em qualidade) que era o Nova Guarda.

  4. jclages diz:

    A história das miniaturas dos forcões vendidos por nuestros hermanos trouxe-me à memória uma estória que me marcou.
    Sou «viciado» (q.b.) em pipas que, para quem não sabe, são sementes de girassol.
    Na minha juventude esse prazer metafísico (que substituía o chocolate) chegava-me à mão por intermédio da minha prima que vivia em Vilar Formoso e as comprava nas «Fontes».
    Agora já podem ser adquiridas em vários outros locais como, por exemplo, o quiosque do Carlos do Sabugal. A Lurdes quando me vê entrar já sabe ao que vou. Dar a minha olhadela diária à banca dos jornais e comprar uns saquitos de pipas.
    Mas a estória que gostaria de partilhar tem a ver com o sentido de oportunidade das tais miniaturas de forcões. No tempo dos grandes subsídios para a agricultura, logo depois da nossa entrada na CEE, abriram candidaturas para plantação de girassóis. No Alentejo e outras regiões de Portugal os girassóis foram semeados, os subsídios foram recebidos, e por lá ficaram a secar nos campos sem mais nenhum aproveitamento. Do lado espanhol os campos foram semeados, os subsidios foram recebidos, e… os girassóis foram apanhados para fazer óleo e para transformar as sementes em produto tipo «aperitivo». E acreditem que já vi à venda pipas com mel, com sal, fritas, sem casca, e por aí fora.
    E depois ainda nos perguntamos porque somos diferentes do lado de cá. Pois…

  5. Chico Tó diz:

    Quero felicitar o Professor Pissarra por ter abordado um tema tão pertinente e tão atual, que faz tanto ou mais sentido numa altura em que todos sofremos desta condição de esquecidos….era bom que todos olhassem para as potencialidades, tão vastas, das zonas do interior do país, e outras, e as tranformassem em mais valias…ficariamos todos a ganhar e o nosso Portugal havia de fazer bem mais boa figura nos raikings caseiros e até internacionais.
    Dou também os parabéns à “Capeia arraiana” por contar com um colaborador de tão alto gabarito.

  6. Caros amigos, agradeço os vossos generosos comentários e votos de boas-vindas. Estou também atento ao que escrevem e espero, com o meu modesto contributo, ajudar no debate sobre divulgação, soluções e tudo o que possa acrescentar alguma coisa ao desenvolvimento (ou pelo menos menor definhamento) desta nossa esquecida região.

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