Porco à mesa – ritual colectivo e prazer individual (1)

Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Transcrevemos a Lição de Sapiência pronunciada no Sabugal no dia 5 de Março de 2011, sábado gordo, no II Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, pelo confrade João Luís da Inês Vaz. Por ser extenso, o texto foi dividido em três partes, que publicaremos em dias sucessivos. (parte 1 de 3.)

João Luís da Inês Vaz profere a Lição de Sapiência - Capítulo da Confraria do Bucho Raiano


Diz um adágio popular que «A vaca é nobreza, a cabra é matança, a ovelha é riqueza, mas o porco é tesouro» e uma outra tradição conserva o testamento do porco que diz:

«Deixo…
– o focinho ao camponês para procurar as trufas;
– os dentes fabricante de papel para cortar as folhas;
– as cerdas ao sapateiro para fazer os atacadores;
– os pelos ao pintor para os pincéis;
– a bexiga às crianças para jogarem à bola;
– a pele ao moleiro para os sacos;
– o toucinho ao químico para a cola e o sabão;
– o sebo para as velas de alumiar;
– a banha ao tecelão para amolecer o cânhamo;
– os ossos ao jogador para esculpir os seus dados;
– o fel ao viajante para tirar os espinhos dos pés;
– as unhas ao hortelão para adubar a terra;
– a carne aos comilões.»

É assim que o povo encara o porco e que se criaram tradições à sua volta. Pensa-se que foi há 10.000 anos aproximadamente que o porco começou a ser domesticado. Quando, por 12.000 a.C. o clima aqueceu e o homem se fixou num terreno, começou a domesticação das plantas e animais. Estes vieram, certamente, atraídos pelos restos que o homem lhes deitava ou deitava fora e eles aproveitavam num ciclo ambiental perfeito que o homem tinha no início da civilização. Osso, aqui, grão de cevada ali, o animal aproximou-se e assim começou uma relação homem-animal que até hoje mais não desapareceu. Entre estes animais estava o porco que se pensa terá começado a ser domesticado na China, dizia-se há uns anos ou no Próximo Oriente, pensa-se mais hoje, há cerca de 8.000 anos. O que é certo é que, independentemente disso, e porcos há-os por todo o lado, em estado selvagem, não haja confusões,… e, portanto é possível que tenha existido mais que um centro de domesticação mais ou menos simultâneo.
Semi-domesticado ou domesticado, o que é certo é que a partir daquele momento o porco, com licença de todas V. Senhorias, nunca mais deixou de estar presente na mesa dos homens, ricos, pobres ou remediados. Passou a ser um verdadeiro tesouro que o homem podia ter num curral ao lado de casa, que podia estar num lameiro mais afastado ou num «côcho» mesmo por baixo da própria casa. A criação do porco, com «viandas» cruas ou cozidas passou a ser uma prática familiar colectiva que a todos ocupava: os garotos ajudavam a apanhar as ervas e compraziam-se a ver deitar a vianda aos bacorinhos, os pais faziam as viandas que eram cozidas nos caldeiros de zinco postos nas cadeias e depois davam-na aos porcos aos bocados, depois de misturada com água e farelos, na pia de pedra ou no balde de madeira onde eles a comiam sob o olhar atento das crianças e seus pais, muitas vezes coçando-lhes o lombo… Chegada a altura própria, lá para o Outono ou Inverno, quando já não havia moscas, lá vinha o pior momento da vida do porco, mas um dos de maior alegria familiar, a matança. E que espectáculo, para a família, que participava activamente, para a vizinhança que ajudava e até forasteiros que houvesse na terra… O pai, preparava a matança e segurava o porco no momento de o matar, os miúdos pegavam ao rabo do porco, não fosse ele fugir…, (era a iniciação ao rito adulto da matança), a mãe segurava um alguidar onde já tinha posto sal para aparar o sangue que a seguir iria servir para confeccionar as morcelas, os vizinhos ajudavam a segurar o porco e as mulheres estavam na cozinha na azáfama de preparar o almoço e tudo o resto necessário para os enchidos, como migar o pão para as morcelas e farinheiras, preparar as tripas, atiçar o lume para que mantivesse forte, ter as panelas com água a ferver que nunca é demais nestas ocasiões…
(Continua.)
João Luís da Inês Vaz

João Luís da Inês Vaz nasceu em 1951 no Soito, freguesia do concelho do Sabugal, é doutorado em Pré-História e Arqueologia pela Universidade de Coimbra e é professor associado da Universidade Católica Portuguesa. Para além da vida académica desempenhou diversos cargos públicos, entre os quais o de governador civil de Viseu, durante sete anos. Publicou mais de 120 trabalhos de carácter histórico, arqueológico, didáctico e pedagógico em livros ou revistas da especialidade, em Portugal, Espanha, França e Itália.
plb

One Response to Porco à mesa – ritual colectivo e prazer individual (1)

  1. Carol diz:

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