Ainda não hipotequei os meus sonhos

A memória que tenho do 25 de Abril é uma música que ainda hoje gosto de cantarolar. Não vim para a rua mostrar o meu rabo apesar de pertencer aos primeiros alunos a fazer a PGA. Mas, cresci a desacreditar na política e a desconfiar dos políticos. A desacreditar nas religiões e a desconfiar dos muito religiosos. Talvez Portugal esteja mesmo «penhorado», mas isso não belisca em nada o orgulho que sinto em todos os portugueses …

Portugal

Carla NovoVivo num país hipotecado. Mas nem por isso hipotequei os meus sonhos. Vivo num país desmotivado. Mas nem por isso desesperancei os meus dias. Estamos em crise. Eu sei. Tu sabes, ele sabe e nós todos sabemos. Mas a conjugação faz-se também num tempo quase que (im)perfeito. Porque é em momentos de turbilhão que se encontra a semente do futuro. As crises fazem por nós aquilo que, às vezes, evitamos fazer: reinventarmo-nos, movem-nos, arranjamos soluções para contornar obstáculos e tornamo-nos muito mais criativos, empreendedores e, de certa forma, regressamos ao básico – aos valores que de facto acreditamos. E mesmo os mais resistentes são empurrados para a mudança, muitas vezes, surpreendem-se com as descobertas que fazem deles próprios. Também eu estive há umas décadas a barafustar com a «jeitosa» PGA (Prova Geral de Acesso), ainda que, não tivesse saído à rua para baixar as calças e mostrar o meu rabo! Pois, apesar de ter assistido ao 25 de Abril, era tão pequenina que, para mim, a revolução dos cravos era (e é) uma alegre música que cantarolava, sem entender a dimensão das entrelinhas! Chamo-lhe «jeitosa» PGA porque tive na época – como continuo a ter hoje – a perfeita noção de que ela surgiu apenas porque dava jeito. Como também dá jeito, agora, arranjar qualificações à pressão para não sermos um país de «analfabetos»! E mais jeito dá aumentar a idade da reforma e diminuir as pensões. E de tanto jeito que dá, num destes dias damos um jeito de dar um jeito a isto tudo. É a filosofia do «desenrasca». Assim, apesar de viver num país penhorado e desacreditado, orgulho-me das pessoas que dele fazem parte. De todos os portugueses que, tal como eu, percebem que as crises levam-nos nas asas da mudança e que as sementes melhor se espalham em dias de vendavais. Tal como os ciclones que tudo devastam mas mantêm uma paz no seu centro, também os momentos mais agitados varrem o lixo que não faz parte de nós e deixamos mais perto do essencial, da nossa alma.
«Jardim dos Sentidos», crónica de Carla Novo

carlanovo4@hotmail.com

2 Responses to Ainda não hipotequei os meus sonhos

  1. Antonio Emidio diz:

    A história mostra-nos que o progresso da Humanidade partiu quase sempre das vitimas, raramente dos privilegiados.

  2. pareces uma pessoa linda, Carla Novo. de gente assim é que o país precisa!
    Obrigado.

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