Espantoso

Não era para escrever uma única linha sobre a (morna) campanha eleitoral para a Presidência da República, mas perante uma «gaffe» (chamemos-lhe assim) do candidato Cavaco Silva não posso deixar de vir à liça.

Cavaco Silva

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»Na sexta-feira, num jantar-comício em Arcos de Valdevez, Cavaco Silva considerou que os funcionários públicos foram «duramente atingidos nesta crise, talvez, nalguns casos, com alguma injustiça, porque outros, com muitos maiores rendimentos, não foram chamados a dar o seu contributo. Não foram pedidos sacrifícios a outras pessoas com rendimentos muito maiores… as reduções de rendimentos só foram aplicadas a funcionários públicos», explicou o candidato perante a insistência dos jornalistas. Acabou por dizer que se referia aos empregados do sector privado que auferiam rendimentos acima da média.
Por outro lado sabe-se bem que os poderosos, nomeadamente os dirigentes dos grupos financeiros privados, não foram, nem serão afectados. Basta ver a venda de automóveis de luxo que não pára de aumentar. Serão funcionários públicos os que os compram?
Espantoso!!! Eu já nada percebo. Então não disseram sempre, os neoliberais, que os ordenados do sector privado não eram a causa de qualquer problema de contas públicas? Que se podia ganhar muito dinheiro no sector privado e que ninguém tinha nada com isso? Ou será que a ideia dos neoliberais é baixar, também, os ordenados dos trabalhadores (a quem chamam colaboradores- colaboradores uma ova!!!) do sector privado, aproveitando a boleia de terem tido um corte no sector público?
Cavaco Silva foi quem promulgou a Lei do Orçamento de Estado para 2011, sem ter mostrado quaisquer sinais de não concordar com ela, pelo contrário, referiu várias vezes que o melhor para Portugal era ter este Orçamento.
Toda a gente ouviu os diversos comentadores (quase todos apoiantes da sua candidatura, excepto os que apoiam o Governo) dizer que o grande problema de Portugal tem a ver com os funcionários públicos, que (afinal) são os únicos que irão ter cortes no seu vencimento.
Porque é que o Presidente da República não mostrou desagrado com o Orçamento, quando o promulgou? Esta é uma pergunta que ficará sem resposta porque o candidato Cavaco Silva esquiva-se, sempre, a responder às questões incómodas.
A não ser que o que Cavaco Silva disse não passe de uma tentativa de conquistar o voto dos funcionários públicos descontentes com os cortes salariais. Como se sabe que a memória é curta, nada como lançar estas palavras para ver se os votos caem direitinhas na sua candidatura. E, com toda a certeza, muitos lá irão cair, porque memória, mesmo de coisas passadas há menos de dois ou três meses é coisa que os portugueses (sejam funcionários públicos ou sejam do sector privado) não têm.
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

14 Responses to Espantoso

  1. Jorge Cameira-Beja diz:

    Subscrevo totalmente as palavras do João Duarte !

  2. Ramiro Matos diz:

    Caro João Duarte

    Se mais razões não houvera, e há muitas, esta sua crónica era mais uma achega para que eu vá votar em Manuel Alegre.
    E seria bom que todos as mulheres e homens de esquerda começassem a pensar naquilo que custa a muitos, mas é uma realidade, o voto útili.
    Na verdade de que nos servirá que os quatro candidatos de esquerda (Manuel Alegre, Francisco Lopes, Fernando Nobre e defendos de Moura) tenham muitos votos cada um, se não houver segunda volta?
    Penso que todos, e aí me incluo também, deveríamos aprender com o que se passou há cinco anos…

    Ramiro Matos

  3. joao valente diz:

    Nesta altura do campeonato, já nada me espanta! Muito menos que tudo fique na mesma… Temos o país que merecemos!

  4. vitor coelho diz:

    O Autor deveria saber (e, de certeza que sabe, mas dá jeito fingir) tal como qualquer pessoa medianamente informada e, particularmente, de boa-fé, o que, efectivamente, Cavaco Silva pensa deste Orçamento e, muito em especial, as razões porque o promulgou. Termino com as mesmas palavras do Aiutor: “nada como lançar estas palavras (as do Autor, óbvio) para ver se os votos caem direitinhos na candidatura do gosto do Autor. Mas como, contrariamente ao que diz, os portugueses têm memória, isso não vai, felizmente, acontecer. Nessa não cairão.

  5. anonimo diz:

    tenho uma ligeira impreçao que ha muita gentinha que tem memoria curta desde que esse senhor foi primeiro ministro ate prisidente da republica so nos tem prejudicado

  6. João Duarte diz:

    Caro Ramiro Matos:
    Essa conversa do voto útil tem muito que se lhe diga. Para já não existe essa coisa do “voto útil” nas Presidenciais. Isso que fique bem claro. Será preciso explicar que caso Cavaco Silva tenha cinquenta por cento dos votos ( e mais um) à primeira volta é logo eleito e que se só houvesse um candidato à esquerda que tivesse o resto dos votos, o Cavaco era, na mesma, eleito?
    Ou seja, Cavaco Silva será eleito se tiver esses votos, quer haja uma, duas, três ou cinquenta candidaturas à sua esquerda. Que essa do “voto útil” ainda pegue nas legislativas onde há círculos eleitorais e votos que não elegem deputados , ainda aceito. Agora, vir com essa do “voto útil” nas Presidenciais para alguém como eu que nada percebo de economia e finanças, mas faço gala de ser um POLÍTICO, não posso aceitar. Como sabe há aumento da abstenção de eleitores que não se revêem em nenhum dos candidatos, no caso de só serem dois, favorecendo sempre a candidatura da direita. Não é preciso pensar muito, mas as eleições de 1986 (Soares/ Freitas) foram o exemplo mais flagrante. Eu votei Pintasilgo na primeira volta e tive que votar Soares na segunda volta. Sublinho tive, porque não havia alternativa. Contra Freitas foi obrigatório votar Soares. Se houver segunda volta nestas Presidenciais, logo se verá, mas com certeza que não votarei Cavaco, logo está tudo dito.

  7. João Duarte diz:

    Sr.Vítor Coelho:
    O que é o Cavaco disse sobre o Orçamento?
    Manifestou-se contra ou foi ele próprio que tudo fez para pôr o PSD e o PS de acordo na aprovação do Orçamento?
    Porque promulgou o orçamento? Não sabia que incluía cortes salarais aos funcionários públicos? Então porque diz , agora, que os cortes só são nos vencimentos dos funcionários públicos, na tentativa de caçar os seus votos?
    Acha que os portugueses têm memória?

  8. João Duarte diz:

    Ainda para o sr. Vítor Coelho:

    Para saber se os portugueses (e , até, sobretudo os deste concelho de Sabugal) têm ou não memória basta ver quem tem respondido às crónicas que o Dr. Leal Freire tem publicado sobre Salazar, num jornal regional. Se excluirmos o meu “velhote”, um homem com 84 anos e a 4.ª classe , o senhor João Arménio, do Soito , o Dr. João Valente (que publicou uma crónica neste blog) e eu próprio , toda a gente se esqueceu que existiu a PIDE e que a mesma PIDE perseguia os emigrantes do Sabugal que pretendiam melhorar a sua vida indo para França. Bem se sabe que, agora, como muitos têm um bom carro ou uma boa casa, não há nada como ser da Direita, para se protegerem da “escumalha esquerdista” , como alguns dizem. Alguns que eram uns autênticos pedintes no tempo de Salazar (e que sabem bem, embora finjam que não sabem ou nem sequer se lembrem, que a culpa da miséria era do regime salazarista) e que, hoje, são os maiores defensores de tudo o que esse regime ou algum seu sucedâneo representa.
    Nenhum Doutor ou Engenheiro encartado apareceu que tivesse contrariado os escritos do Dr. Leal Freire. Quer maior falta de memória?
    Sobretudo aqui no nosso concelho , onde não há quase ninguém que não tenha um familiar emigrado em França e que o fez a “salto”, porque o regime não fornecia passaportes. Mas isso é História, não é sr. Vítor Coelho?
    Pois eu digo que tenho memória: Cavaco Silva, quando era primeiro-ministro recusou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia e concedeu pensões a torcionários da PIDE. Só por isso nunca poderá ter o meu voto. Eu tenho memória…

  9. vitor coelho diz:

    Sr. João Duarte:
    Ausente, em Lisboa desde da passada 2ª. feira, só agora regressei a casa e ao computador e fiquei espantado. Também eu acho espantoso ter merecido a sua atenção, as suas palavras e as suas críticas, devendo até dizer-lhe que, aqui e ali, e para espanto seu, estar de acordo com algumas delas, mormente quando invoca episódios e pessoas do “ancien regime” e deste saudosistas. Desses nada me espanta. Quanto ao candidato em quem votarei no Domingo, obviamente que, meu Caro Senhor João Duarte, não se espantará que eu vote Cavaco Silva. Nesta matéria nunca chegaremos a consenso. Espantoso seria o meu candidato não ganhar estas eleições.

  10. João Duarte diz:

    Caro sr. Vítor Coelho:
    Foi o meu artigo que mereceu a sua atenção, a sua crítica e as suas palavras. O que eu não acho nada espantoso, porque o debate de ideias é muito importante para mim. Eu agi de boa-fé ao escrever o artigo que escrevi.
    Mas era preciso vir dizer que votaria Cavaco Silva? Eu depreendi logo das suas palavras que faria isso. Cada um é livre de votar em quem quiser. Eu nunca votaria Cavaco Silva porque tenho memória, como expliquei acima.
    Só que cada um tem a memória das coisas à sua maneira e , por isso, o sr. escreve que o povo português tem memória e votará Cavaco por isso.
    De resto, tudo bem… é altamente possível que o seu candidato ganhe as eleições.
    Cumprimentos

  11. vitor coelho diz:

    Meu Caro Senhor João Duarte
    Não será, em minha opinião, que o povo votará Cavaco Silva apenas por ter memória, já que este tem sido, quanto a mim, um Presidente de boa, mas também de alguma má memória, face a alguns episódios que por acção ou por omissão ele promoveu. O povo votará muito mais impelido pela certeza do que espera do comportamento do actual Presidente e contra o medo do que poderia vir no futuro com outro ilustre desconhecido. Julgo mesmo que, contrariamente às aparências,seria mais fácil Manuel Alegre dissolver a Assembleia da República, motrando a sua independência face ao PS ( que existe, mas que disfarça por conveniências ) do que Cavaco Silva, que irá sempre preferir manter uma magistratura de estabilidade e de consenso (ainda que agora mais musculada) mesmo contra as intenções do PSD. Obviamente, desde que também Socrates não “abuse” e se rodeie de outros Ministros.
    Cumprimento o meu Caro Colega Deputado Municipal.

  12. João Duarte diz:

    Para reforçar ainda mais a minha crónica, aconteceu hoje outra coisa espantosa.
    Cavaco Silva, em entrevista à Rádio Renascença disse que havia outra forma de conseguir receitas sem ser à custa das reduções de salários dos funcionários públicos (que começam hoje a ver os seus recibos de vencimebto com os tais cortes no salátrio, como me aconteceu a mim).
    E que medida defendeu Cavaco Silva, em alternativa ao que está no Orçamento (por ele promulgado)?
    Nada mais, nada menos do que um imposto extraordinários sobre os altos rendimentos. Realmente é espantoso!!!
    Toda a gente sabe que essa medida tem sido apresentada, vezes sem conta, na Assembleia da República pelo PCP e BE, mas é , sempre, rejeitada com os votos conjugados do PS, PSD e CDS.
    Pois, não é que, no final da campanha, Cavaco virou esquerdista?
    Espantoso, pois!!
    Tudo serve para caçar votos dos funcionários públicos… Como se sabe não será por isso que, agora, Cavaco defende que as pessoas de altos rendimentos , muitos deles pertencentes à sua Comissão de Honra, deixarão de votar nele.esses sabem bem que o que Cavaco disse é uma fantasia, um populismo (e ainda falam do José Manuel Coellho como populista) que nunca entrará em vigor.
    Veremos, aliás, se a partir de segunda-feira (quando as eleições estiverem passadas e com o resultado previsto) Cavaco alguma vez mais se referirá a esse ideia de tributar os maiores rendimentos.
    Enfim, é a vida… e é o que temos
    Há quem, realmente, não tenha memória…

  13. vitor coelho diz:

    E mesmo para quem tem memória, o que adianta?
    A principal questão resume-se ao seu “Enfim é a vida… é o que temos”
    Escolher, como? São todos uns artistas portiugueses…
    Por isso, meu Caro João Duarte, vote o menos mal possível. Como eu!

  14. João Duarte diz:

    Hoje é dia de eleições e, por isso, não posso comentar o que escreveu. A partir de amanhã se verá. E ainda se verá mais daqui a um ano ou dois. E quero dizer-lhe que já votei (como POLÍTICO que sou e faço gala de o ser nunca deixei de votar).

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