Ao que a Guarda chegou…

Em 17 de Dezembro, a Assembleia Municipal da Guarda aprovou uma moção de repúdio pelo facto do cidadão Américo Rodrigues, Director do Teatro Municipal, ter criticado uma decisão dessa mesma Assembleia. Trata-se de um processo vergonhoso que pretende silenciar quem fala e opina.

Américo RodriguesA história conta-se duma penada: no verão um presidente de junta de freguesia interrompeu, a roncos de vuvuzela, um espectáculo de música erudita que acontecia na sua terra, o que levou Américo Rodrigues a denunciar esse acto primário no seu blogue pessoal (Café Mondego). O presidente da junta, em puro acto vingativo, levou à Assembleia Municipal a proposta de corte em 20 por cento nas verbas destinadas ao Teatro Municipal, revertendo esse valor para as juntas de freguesia. Américo denunciou e repudiou esse acto impudico no seu blogue pessoal e Baltazar Lopes, o autarca da vuvuzela, decidiu apresentar na Assembleia um voto de repúdio com o seguinte texto:
«Tendo em conta que o senhor Director do Teatro Municipal da Guarda, Dr. Américo Rodrigues, tem vindo a insultar publicamente esta Assembleia – que é constituída por Deputados Municipais e por Presidentes de Junta de Freguesia – por esta ter votado favoravelmente uma Recomendação de corte de verbas ao TMG, a Assembleia Municipal da Guarda, reunida em Sessão Ordinária em 17 de Dezembro de 2010, aprova uma Moção de Repúdio pelas afirmações insultuosas que o senhor Director do TMG, Dr. Américo Rodrigues, tem vindo a proferir em relação à Assembleia e aos seus membros.»
Por estranho que pareça, o repúdio foi aprovado, em escrutínio secreto, com 57 votos a favor, 20 contra, 10 em branco e um nulo (alguns deputados – cerca de 25 – não participaram na votação). Quanto à posição dos partidos, o PSD defendeu o voto favorável, o PS optou pelo silêncio, o PCP manifestou-se contra e o BE defendeu «nada ter com o assunto».
A discussão e votação de uma manifestação de repúdio pela expressão de opiniões relativas a um órgão democraticamente eleito é a pura perversão do sistema. Todos os eleitos e os respectivos órgãos estão sujeitos ao escrutínio dos eleitores, e o exercício da crítica é dos mais elementares direitos de cidadania.
Américo Rodrigues, o pai da grandiosidade cultural da Guarda, exerceu a cidadania, não se calando perante atitudes aviltantes e demonstradoras de pura depravação. Aos democraticamente eleitos cabe saber ouvir as críticas, podendo comentá-las, rebatê-las, contrapô-las, se caso for, mas não é aceitável que formalmente as repudiem, como que dizendo que as mesmas não devem ter lugar.
A Guarda, cidade da cultura e da democracia, escreveu uma página de intolerância, que bem podia ter evitado.
Expresso a Américo Rodrigues a minha solidariedade, desejando que continue a trabalhar com afinco em prol do desenvolvimento cultural da cidade e da região.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

Também eu assumo publicamente a minha solidariedade a Américo Rodrigues. Estamos no século XXI mas alguns iluminados (que se escondem quase sempre sob a capa do anonimato) continuam a não saber conviver com opinião identificada nem com os critérios editoriais de cada espaço. O estatuto editorial e o direito que qualquer detentor de cargo público tem de ocupar o seu tempo pessoal como entender, mesmo que seja a escrever enquanto cidadão responsável, perturba e atiça os incompetentes. O Teatro Municipal da Guarda é uma referência nacional com uma programação cultural invejável e isso deve-se e muito a Américo Rodrigues, um homem irreverente e sem papas na língua de grande competência profissional (parece que essa não está em causa) mas a que alguns querem proibir de ter opinião pessoal.
«O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pela qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença e o da verdade no conhecimento do erro.» (Fernando Pessoa.)
José Carlos Lages

5 Responses to Ao que a Guarda chegou…

  1. Tiago Gonçalves diz:

    Só queria deixar duas notas sobre o texto:
    – o proponente da moção não é eleito pelo PSD; é independente eleito nas listas do Partido Socialista;
    – o repúdio é dirigido não à actuação de Américo Rodrigues enquanto Administrador da Culturguarda mas antes em relação à forma insultuosa como tratou os membros da Assembleia Municipal da Guarda no seu blogue e que se entendeu não serem dignas de quem ocupa um lugar público.

    • Dr Tiago Gonçalves,
      Dou a mão à palmatória no que se refere à sua primeira nota, mas também o corrijo ligeiramente (depois de colher informações): Baltazar Lopes foi eleito numa lista independente – vou reeditar o texto retirando a informação errada.
      Quanto à segunda nota concordo que o repúdio não é ao administrador da Culturguarda, antes o fosse, mas sim ao cidadão Américo Rodrigues que criticou de forma veemente a Assembleia Municipal da Guarda e alguns dos seus membros. O facto de alguém ocupar um lugar público jamais o pode inibir de tecer opinião critica, por incómoda que a mesma seja, e nunca um orgão do povo, como a Assembleia Municipal, pode repudiar opiniões expressas. Isso é matar a democracia, é dar razão aos que defendem a lei do silêncio e desprezam a liberdade.

      • Tiago Gonçalves diz:

        Concordo que o facto de ocupar um lugar público não deve inibir ninguém de fazer críticas aos órgãos eleitos. Concordo até que, por mais tenazes que as mesmas sejam, devem ser encaradas com a naturalidade e tolerância que a vivência democrática nos ensina. Reitero é que o Prof. Américo Rodrigues não se limitou a criticar. Insultou e injuriou as pessoas que votaram essa decisão no exercício de um mandato conferido pelos cidadãos da Guarda. E o direito ao insulto já não me parece tão defensável.
        Termino repetindo que não é a sua conduta enquanto administrador da caoisa pública que foi posta em causa e que é sempre mau misturar alhos com bogalhos.

  2. João Duarte diz:

    Conheço o Américo Rodrigues há mais de 25 anos. Culturalmente a Guarda deve-lhe muito.
    Já expressei a minha solidariedade com Américo Rodrigues no seu blog Café Mondego.
    Esta atitude dos membros da assembleia Municipal é um puro acto de censura, inadmissível num Estado Democrático.

  3. Jorge Manuel Mendes diz:

    O que se passou na Assembleia Municipal é inqualificável. Expresso, aqui, a minha total solidariedade com o Américo Rodrigues. Independentemente de nem sempre concordar com as suas opiniões (o que é normal), penso tratar-se de alguém que muito tem feito pela cultura na Guarda.
    Tendo pertencido ao Conselho Consultivo do TMG, tive oportunidade de dar as minhas opiniões sem nunca ter sido impedido ou criticado.
    É, pois, inaceitável que em pleno século XXI um órgão democraticamente eleito para fiscalizar e acompanhar o mandato do executivo camarário, se entretenha a perseguir homens livres e não faça, de facto, o seu trabalho.
    Em minha opinião, se o sr. Almeida Santos (não o verdadeiro!) fosse um homem de princípios, demitia-se já de presidente da AM e ia filosofar para outro lado.

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