Miguel de Cervantes Saavedra, segundo consta da sua biografia e demonstra a sua obra, tinha um amplo conhecimento da cultura e sociedade portuguesas e acompanhou Filipe II a Lisboa, terá participado na batalha naval de Vila Franca contra os partidários do Prior do Crato, tendo amores com uma dama portuguesa, que lhe teriam inspirado a novella Gallatea, segundo alguns autores, e desta dama teve uma filha, de nome Isabel Saavedra.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaDe facto a passagem de Cervantes pelo nosso país é pacífica e o seu conhecimento da nossa cultura é evidente, como se depreende das seguintes passagens da sua obra:
Logo no prólogo do D. Quixote, de que possuo uma edição Castelhana muito antiga, Cervantes faz um elogio do nosso Tejo:
«Teijo que beija as praias da ínclita cidade de Ulisses, cujas arêas, consta a tradição serem de ouro.»
Depois no capítulo sexto da primeira parte, entre os livros que figuram na biblioteca do fidalgo engenhoso, estão o Palmeirim de Inglaterra, que teria sido escrito pelo nosso D. Duarte e a Diana de Jorge do Montemor.
Quando traça a genealogia da sua amada Dulcineia, D. Quixote refere não descender dos grandes de Espanha, nem dos Alencastres ou Menezes de Portugal.
Mais adiante, Cervantes dá-nos testemunho do velho costume da transumância entre Portugal e Espanha, quando Sancho Pança relata a D. Quixote a história do pastor Lope Ruiz que se detém nas margens do Guadiana, antes de passar a Portugal.
Para demonstrar a existência de Cavaleiros andantes, argumenta D. Quixote ao cónego de Toledo que «si no diganme tambien que non es verdad que fué caballero andante el valiente lusitano Juan de Merlo, que fué à Burgona , y se cumbatió em la cidad de Ras com el famoso senor de Charny, lhamado Mosen Enrique de Femestan, saliende de embras empresas v encedor y lheno de honrosa fama».
Duvido contudo que a Galatea tenha sido inspirada nos amores contrariados de Cervantes por uma Portuguesa, cuja identidade desconhecemos, tanto mais que, ao contrário da história do romance, foram bem sucedidos, conforme atesta a filha que deles nasceu. A minha inclinação vai mais para a fonte ser a biografia de Camões pelas razões que a seguir explano:
Nesta primeira obra de Cervantes, La Galatea (1585), as personagens são pastores que relatam os seus amores e desamores no cenário natural, cuja referência são as margens do nosso Tejo, pois quando a apaixonada de Elício e prometida a Erasto se despede do Tejo recita estes belos versos:

«Que tengo de despedirme
De ver el Tajo dorado!
Quer ha de quedar mi ganado
Y yo triste he de partirme!»

A história principal (há outras historias secundárias entrecruzadas com a primeira que parecem relatar o quotidiano de uma vida na corte mas transposta para um cenário rural, como era moda da época) deste romance pastoril descreve os amores contrariados dos pastores Elicio y Galatea, a qual o pai prometera ao rico pastor Erastro, tema recorrente este que repetirá deforma mais breve num dos primeiros capítulos do D. Quixote e que por coincidência, ou talvez não, decalca a história dos amores do Camões, fidalgo pobre, com D. Catarina de Ataíde, que tendo um longo e correspondido namoro de cinco anos com o poeta acabaria por casar com o poderoso e rico Rui de Miranda, senhor de Ílhavo e Verdemilho, filho de Antónia de Barredo, amante pública de D. João III.
Seria assunto digno de um ensaio, este da correspondência entre a Galateia, a biografia de Camões e Cervantes, uma vez que esta obra, tenho para mim, é mais inspirada nos amores de Camões, cuja obra Cervantes conhecia bem, quer pelas muitas referências que lhe faz, quer pelo tempo próximo em que viveram os dois autores, pela proximidade da estadia de Cervantes em Portugal com a da morte do nosso poeta e a data em que a Galateia foi dada ao prelo.
No entanto, não aprofundando aqui estas razões sobre que tenho reflectido ultimamente e que não cabem num post, deixo aqui apenas dois desses indícios:
O primeiro (com as passagens mais relevantes a negrito) é a fala do pastor Elício que, pela semelhança das histórias, bem podia ser uma reflexão de Camões a respeito dos seus amores com D. Catarina de Ataíde:

«Amoroso pensamiento,
si te precias de ser mío,
camina con tan buen tiento
que ni te humille el desvío
ni ensoberbezca el contento.
Ten un medio -si se acierta
a tenerse en tal porfía-:
no huyas el alegría,
ni menos cierres la puerta
al llanto que amor envía.
Si quieres que de mi vida
no se acabe la carrera,
no la lleves tan corrida
ni subas do no se espera
sino muerte en la caída.
Esa vana presumpción
en dos cosas parará:
la una, en tu perdición;
la otra, en que pagará
tus deudas el corazón.

Dél naciste, y en naciendo,
pecaste, y págalo él;
huyes dél, y si pretendo
recogerte un poco en él,
ni te alcanzo ni te entiendo.
Ese vuelo peligroso
con que te subes al cielo,
si no fueres venturoso,
ha de poner por el suelo
mi descanso y tu reposo.

Dirás que quien bien se emplea
y se ofrece a la ventura,
que no es posible que sea
del tal juzgado a locura
el brío de que se arrea.
Y que, en tan alta ocasión,
es gloria que par no tiene
tener tanta presumpción,
cuanto más si le conviene
al alma y al corazón.
Yo lo tengo así entendido,
mas quiero desengañarte;
que es señal ser atrevido
tener de amor menos parte
qu’el humilde y encogido.
Subes tras una beldad
que no puede ser mayor:
no entiendo tu calidad,
que puedas tener amor
con tanta desigualdad.

Que si el pensamiento mira
un subjeto levantado,
contémplalo y se retira,
por no ser caso acertado
poner tan alta la mira,

Cuanto más, que el amor nasce
junto con la confianza,
y en ella [se] ceba y pace;
y, en faltando la esperanza,
como niebla se deshace.
Pues tú, que vees tan distante
el medio del fin que quieres,
sin esperanza y constante,
si en el camino murieres,
morirás como ignorante.

Pero no se te dé nada,
que en esta empresa amorosa,
do la causa es sublimada,
el morir es vida honrosa,
la pena, gloria estremada.»

(In primeiro livro da Galatea)

D. Catarina, cedendo às pressões da famíla de Rui de Miranda acabou por casar com o senhor de Ìlhavo e Verdemilho, sendo infeliz no casamento (infelicidade que Camões glosou num poema amargo e irónico, referindo que era castigo pela sua inconstância no amor), acabando por falecer, amarga de arrependimento, após dois anos de consumido desgosto.
O segundo indício destes factos (também com as passagens mais relevantes a negrito) é a carta de Galateia a Elício no fim da obra de Cervantes, que muito bem podia ser uma carta justificativa de Catarina a Camões:
«En la apresurada determinación de mi padre está la que yo he tomado de escrebirte, y en la fuerza que me hace la que a mí mesma me he hecho hasta llegar a este punto. Bien sabes en el que estoy, y sé yo bien que quisiera verme en otro mejor, para pagarte algo de lo mucho que conozco que te debo; mas, si el cielo quiere que yo quede con esta deuda, quéjate dél, y no de la voluntad mía. La de mi padre quis iera mudar, si fuera posible, pero veo que no lo es; y así, no lo intento. Si algún remedio por allá imaginas, como en él no intervengan ruegos, ponle en efecto, con el miramiento que a tu crédito debes y a mi honra estás obligado. El que me dan por esp oso, y el que me ha de dar sepultura, viene pasado mañana: poco tiempo te queda para aconsejarte, aunque a mí me quedará harto para arrepentirme. No digo más, sino que Maurisa es fiel y yo desdichada.» (In sexto livro da Galatea). .
Há coincidências, que talvez não sejam por acaso…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com