A política e a música

Nomes como os de Woody Guthrie, Pete Seeger, Phil Ochs, The Clash e outros sempre colocaram a política nas suas canções. A maioria deles ficaria conhecida como cantores de protesto.

João Aristídes Duarte - «Política, Políticas...»Na antiga RDA existia mesmo um Festival da Canção Política, onde actuaram grandes nomes internacionais da canção de protesto, entre os quais os portugueses Trovante.
Após a reunificação alemã esse festival desapareceu. No entanto, subsiste, ainda hoje, na parte leste de Berlim, um festival com um nome diferente (Musik Und Politik) onde actuam grupos e artistas estrangeiros e alemães, embora não muito conhecidos.
Em Portugal também existiram, embora com o nome de cantores (ou grupos) de intervenção, embora o seu âmbito abrangesse muito para além disso. Entre eles podem citar-se o GAC, Grupo Outubro, Francisco Fanhais, Adriano Correia de Oliveira e José Afonso, entre muitos outros.
Na época a seguir ao 25 de Abril de 1974 proliferaram como cogumelos, alguns com pouca qualidade, mas era a moda.
O GAC (já objecto de uma crónica neste blogue, a propósito de um seu concerto no Soito) estava ligado à UDP. Era de intervenção pura e dura. Não tinha quaisquer contemplações para com a música erudita ou clássica. Interessava era colocar a música ao serviço do povo e a música do povo, sabia-se, não era a música dos frequentadores do S. Carlos. Curiosamente, o mesmo diz, hoje, Quim Barreiros. A sua música não é para quem frequenta a Gulbenkian ou a ópera, no S. Carlos.
Este cantor de intervenção (em 1975) tornou-se um ícone da modernidade pimba e está em todo o lado, mesmo que seja na política.
Carlos César e Quim BarreirosFoi por isso que, aquando da campanha eleitoral para as eleições regionais dos Açores, em 1996, Carlos César e o PS açoriano percorreram todas as ilhas do arquipélago na companhia de Quim Barreiros, que animava o pessoal e ia caçando votos. Foi nesse ano que o PS dos Açores conseguiu ganhar, pela primeira vez, as eleições para a Assembleia Legislativa regional. Talvez tenha sido Quim Barreiros o responsável por alguns dos votos no PS açoriano.
Carlos César fez, aliás, questão de ser fotografado ao lado desse ícone da música portuguesa, na revista do semanário «Expresso», ao qual fez grandes elogios.
Qual não é o meu espanto, quando, passado algum tempo, leio uma entrevista com Carlos César (já na qualidade de presidente do Governo Regional dos Açores) onde ele refere que veio ao Continente assistir a uma ópera, no S. Carlos. Afirmando-se grande apreciador de música clássica e ópera, não referiu uma única vez, nessa entrevista, o nome de Quim Barreiros.
Já o PCP, que não contrata o Quim Barreiros para as suas festas (Quim Barreiros disse uma vez que o dinheiro é todo igual e só não vai às festas desse partido porque não o contratam para ir) tem apresentado, na abertura da Festa do Avante, uma Gala de Ópera, ao ar livre.
Nunca assisti a nenhuma ópera, ao vivo, mas faço questão de ser apreciador de música popular.
O título desta crónica refere-se, aliás, a duas das coisas que aprecio deveras: música e política.

Nota: Não posso deixar de ficar admirado com o que li na Acta da Reunião da Câmara Municipal do Sabugal, realizada no dia 4 de Agosto de 2010, disponibilizada on-line, da parte do Dr. Joaquim Ricardo e que é o seguinte: «Disse ainda que se estava na época de capeias, eventos estes que já eram uma tradição, que começava a ter projecção a nível nacional, achando que se devia aproveitar essa projecção para maior divulgação da tradição. Assim deixava uma sugestão, a ser tratada em altura oportuna: sendo o Concelho do Sabugal a capital da Capeia Raiana e, pesasse embora o facto da capital do Concelho, a cidade do Sabugal, não ter grandes tradições enraizadas na capeia, não seria mau pensar-se em criar uma Praça de Touros no Sabugal.»
O concelho do Sabugal já tem duas praças de touros, que estão às moscas durante quase 11 meses. Quase só em Agosto têm utilização em termos tauromáquicos.
Compreendo a excitação que o mês de Agosto provoca. Basta referir que o Governador Civil da Guarda ficou admiradíssimo ao ver tanta gente nas capeias. Mas tem que se ter em conta o concelho «real», que também existe no resto dos meses do ano. E se o senhor Governador Civil vier cá em Janeiro, logo vê.
Sem qualquer ofensa pessoal, porque muito o estimo: será que é mais uma Praça de Touros que o Sabugal necessita, Dr. Ricardo?
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

O João Aristides Duarte, através das suas rúbricas sobre Música, Memórias e Política, publica hoje o seu 100º texto no Capeia Arraiana. Assinalamos este facto por sertirmos ser devida uma palavra pública de agradecimento e de apreço pela sua sempre pertinente e atempada colaboração. Que outros 100 se sigam, em favor da história das nossas terras e do debate de ideias acerca do seu futuro.
plb e jcl

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