Era assim…

A propósito da crónica de José Manuel Monteiro, sobre o Tarrafal, transcrevo o teor de um ofício que tenho em meu poder, da Câmara Municipal do Sabugal para o Governador Civil do Distrito da Guarda, com data de 14 de Agosto de 1936.

João Aristídes Duarte - Memória, Memórias... - Capeia ArraianaNesta época a polícia secreta ainda se chamava PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), que daria mais tarde origem à PIDE.
O ofício (da Divisão Administrativa e com o n.º 4, onde estava escrito Confidencial) rezava o seguinte:

«A fim de V.ª Ex.ª tomar as providências que o caso reclama, junto envio a V.ª Ex.ª uma comunicação confidencial recebida do cabo comandante do posto da GNR do Souto.
Há muito consta que, efectivamente, existe nesta Vila, com ramificações em Souto e outras freguesias, uma associação secreta de carácter comunista, cujos componentes não tem sido possível descobrir, devido à falta de vigilância.
Encontro-me completamente só, sem um guarda de Segurança Pública, nem sequer oficial da administração para me auxiliarem na descoberta dos indivíduos que fazem parte de tal associação, sendo de toda a conveniência que V.ª Ex.ª consiga a vinda de um agente da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, para me auxiliar em tais investigações.
A Bem da Nação
O Administrador do Concelho»

Em seguida transcreve-se o que alguém escreveu no site «Fórum Pátria» (um site onde se faz a apologia do Antigo Regime), na Internet:

«Cada agente da PIDE/DGS, é superiormente importante, para poder ser comparado aos dejectos humanos abrileiros, criminosos, desertores, falhados, frustrados, incompetentes, parasitas, traidores e gatunos, que desde o dia 25 de Abril de 1974 desfilam pelas passadeiras do poder em Portugal.
Porque eles, os agentes da PIDE/DGS, eram a segurança, eles eram a ordem, eles eram a protecção, eles eram a estabilidade, eles eram a paz, eles eram o respeito, eles eram a integridade territorial da Nação, eles representavam o patriotismo, eles eram a coragem, eles eram a ajuda, eles eram a confiança das noites dormidas em paz e em repouso, a certeza dos dias luminosos, eles eram o futuro e a esperança.»

Termino com a mesma frase com que terminava a crónica de José Manuel Monteiro: Não apaguem a memória…
«Memória, Memórias…», crónica de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

2 Responses to Era assim…

  1. O Estado Novo, subsidiário de 1910, foi das coisa mais abstrusas que aconteceram em Portugal. Bem podem vir os historiadores falar de inevitabilidades históricas ou de condicionalismos de época. A verdade é que perdura, como comprova esse pantomineiro comentador que transcreve no seu post, um sentimento fantasista de futuros impossíveis baseados em passados inexistentes. Tivéssemos todos os pés assentes na terra, aceitando que os dias nem sempre são luminosos, que os amanhãs nem sempre têm de cantar e cuidaríamos melhor do presente.

    E é preciso assumir as responsabilidades pelo presente. Porque se Portugal é o que é, se há gente que se deixa corromper, se há pessoas que gostam de julgar o vizinho, é por causa dos portugueses, de todos nós. Deixemo-nos de pedestais de suposta moralidade, de olhares sobranceiros e façamos a nossa parte.

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