Carapaus fritos, de José Cardoso Pires

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

José Cardoso Pires nasceu em 1925, em São João do Peso, concelho de Vila de Rei e distrito de Castelo Branco, filho de um oficial. Já em Lisboa, faz os estudos secundários no Liceu Camões e frequenta o curso de Matemática da Faculdade de Ciências de Lisboa, sem todavia concluir o curso. Colabora na página literária do jornal «O Globo» e publica comentários de leitura na revista «Afinidades» do Instituto Francês de Lisboa.

A um tempo lançou-se na produção literária, onde esteve sempre ligado à ficção de implicação social, aliando as concepções neo-realistas às existencialistas. Notabilizou-se por usar um estilo escorrido e de grande rigor, reflexo da extrema sobriedade com que encarou as coisas da vida.
No livro «Jogos de Azar», compilou um conjunto de contos que havia escrito em épocas diferentes. A ligá-los há um denominador comum: são histórias de gente angustiada com o andamento da vida, de pessoas que atravessam dificuldades e reagem perante isso. Há uma posição firme do autor ao reunir esses textos: a sua preocupação com a miséria e a fome que atravessa o mundo e o olhar indiferente da sociedade. A própria literatura, nota-o José Cardoso Pires, afastou-se do tema. A fome pode ser resolvida pela economia, pelo bom planeamento e a óptima afectação dos meios de produção. A fome já não é uma preocupação social.
O conto «Amanhã, se Deus Quiser» é uma história de esperança num futuro melhor, face a um presente de extremas dificuldades. Tempos difíceis na vida de uma família citadina, onde o desespero marca o compasso dos dias. As mulheres, mãe e filha, costuram para angariar algum pecúlio, os homens, pai e filho, buscam em vão por emprego. A guerra assolava a Europa, inundada pela cruz suástica. A ditadura impedia a livre expressão e havia medo nas palavras, que podiam levar à prisão. A fome instalara-se nos lares, mas o medo da guerra dominava as preocupações: «se a fome é triste, a guerra ainda é pior.»
A dado ponto descreve-se mesmo uma refeição tomada em casa, em que cada qual comia a seu tempo, reflexos dos problemas que a família enfrentava:
«Bem podias esperar pelo pai…»
O gato saltou da floreira de cana para cima da mesa.
“Chta, gato.” A minha mãe afastou-o com um safanão. “Quando o pai vier, vou ter que ouvir… Sabes bem que ele não gosta que coma cada um por sua vez.”
Peguei num carapau, mastiguei-o com espinhas e tudo. Tinha pressa, comia e, sem perder tempo, enchia o púcaro de vinho.
“Tira dos do fundo”, continuava a minha mãe. “Desses maiores. Assim, confesso, nem a comida rende. Agora come o filho, agora come o pai… vida de ciganos, é o que isto me faz lembrar.”»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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