«Odor a pão» de Manuel Tiago

Literatura - Capeia Arraiana (orelha)

O livro «Até Amanhã Camaradas», de Manuel Tiago, narra a organização do Partido Comunista Português num período difícil e apaixonante para os que sentiam o espírito revolucionário. A ditadura estava possante, sucedendo-se contudo as greves, manifestações, reuniões clandestinas, distribuição de imprensa subversiva. Tudo, ou quase tudo, em resultado da acção do partido que, a ocultas, semeava a revolta.

Estas acções, historicamente verídicas, revelam a responsabilidade, a disciplina e a coragem dos heróis comunistas que, na penumbra e sujeitos a mil perigos, divulgavam as iniciativas partidárias. São relatos de vidas inseguras, onde o alento e o sentido de uma causa, não conseguem excluir a angústia e as sucessivas apreensões.
Cada um dos personagens é diferente dos outros, pois são seres humanos que, para além da disciplina partidária, têm a sua própria personalidade e os seus sentimentos. É assim que no livro têm lugar o ódio e a traição, o amor e a amizade, o ciúme e a inveja, compondo um enredo que evolui.
«Até Amanhã Camaradas» não é apenas o romance político que para alguns se afigura, é também um romance que nos embrenha no mosaico social e nos sentimentos de pessoas que lutam por um projecto comum.
Sabemos hoje que Manuel Tiago é, afinal, Álvaro Cunhal, o histórico secretário-geral do partido. Assim, temos ainda maior tendência de colar o livro ao projecto político, mas a leitura do romance revela-nos, afinal, um livro singular, repleto de paixões que o indicam como um grande romance da literatura portuguesa.
A um dado passo fala-se de Paulo, um militante que vive na clandestinidade, trabalhando junto dos comités locais. Paulo era nome encoberto, próprio da organização, que sob identidades diferentes colocava no terreno uma rede de comunistas empenhados na expansão da ideologia e na subversão à ditadura. Paulo é, afinal, um homem comum, provindo de famílias pobres, que a todo o instante recorda os prazeres da sua infância. Atentamos ao momento em que a sua mente evoca os trabalhos no forno, na cozedura do pão, alimento essencial em todas as épocas:
«Esse cheiro a pão cozido (apenas mais ácido) era o cheiro característico do lar de seus pais.
A mãe escaldava o pão, amassava-o e, fazendo uma cruz na massa, punha-lhe no centro um dente de alho e recitava:
Marta cozinheira
filha de Jesus Cristo,
pelo caminho que andaste
com Jesus Cristo te encontraste.
Assim como cresceu a graça
de Deus pelo mundo todo,
assim cresça este pão
até ao cimo do forno.

Depois abafava a massa com uma toalha, punha por cima todas as mantas da casa, acrescentava umas calças de homem viradas do avesso, quando desconfiava da massa e punha-se a aquecer o forno com ramada seca, animada com a esperança numa boa fornada: «Até ao cimo do forno!» Ele ia buscar ao quintal a pá e o varredouro, sempre encostado à chaminé da casa. Ao voltar, varria o forno, enquanto a mãe tendia o pão com uma tigela polvilhada de farinha e o ia colocando sobre as folhas de conteira estendidas na pá. Com o pão já a cozer, a mãe dizia-lhe:
– Chico – nesse tempo também Paulo não era ainda Paulo. – Acorda os pães filho!
Ele abria a porta do forno e, com uma varinha, batia em cada pão para ficar bem favado:
– Deus te acorde e te abra os olhinhos! Deus te acorde e te abra os olhinhos! Deus te acorde e te abra os olhinhos!
Como tudo isto ia longe. E como tudo isto estava vivo na sua memória despertada pelo cheiro a pão cozido que se espalhava cada vez mais intenso por toda a casa.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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