Processos da Inquisição referentes ao Sabugal (11)

Jorge Martins - Judeus do Sabugal - ©‎ Capeia Arraiana (orelha)

NUNES – LIGAÇÕES A OUTRAS FAMÍLIAS – Os Nunes são o terceiro apelido mais representado entre os réus sabugalenses. Se, como vimos, os outros dois apelidos mais numerosos – os Rodrigues e os Henriques – se cruzaram entre eles, verificamos que os Nunes também se misturaram com aquelas duas grandes famílias judaicas do Sabugal.

Contudo, ao contrário dos Rodrigues e dos Henriques, mais cedo os Nunes começam a ser presos no Sabugal. Se entre 1560 e 1665, os réus nascidos no Sabugal acabaram presos noutros concelhos: Guarda (4), Fundão (2), Sabugal (2), Trancoso (1), Penamacor (1), Seia (1), Lisboa (1). A partir de 1670 e até 1745, os réus começam a ser presos no Sabugal, 6 dos quais nascidos no próprio concelho, o que revela a aposta no regresso às origens. Eis a listagem dos concelhos onde foram presos nesse período, com um destaque significativamente desmesurado par o Sabugal, com 21 réus, seguidos do Rio de Janeiro (4), Guarda (1) e Pinhel (1).

Quadro 1 - Família Nunes - Sabugal - Jorge Martins

Quadro 1 - Família Nunes - Sabugal - Jorge Martins

De sublinhar a diáspora dos Nunes para o Brasil, caso singular entre os réus sabugalenses. É um caso a estudar. Também vale a pena referir o elevado número de réus naturais da Guarda (6) e de Pinhel (4), pois são concelhos da região beirã bem identificados nas deslocações dos judeus sabugalenses.


CONCELHOS BEIRÕES DAS PRISÕES DOS NUNES
MAPA 1 – ENTRE 1560 E 1665 MAPA 2 – ENTRE 1670 E 1745

Como se vê, as Beiras também são a região preferida das deslocações dos réus sabugalenses. De facto, não se afastam muito e regressam ao Sabugal com o decorrer do tempo. Por outras palavras, os primeiros réus presos não haviam nascido no Sabugal, mas, um século depois, começariam a ser presos nesse concelho.
Através dos processos inquisitoriais podemos constatar que, pelo menos desde os finais do século XVI, os Henriques se misturaram com os Nunes: a ré Leonor Henriques, presa em 1616, era filha de Duarte Henrique e Beatriz Nunes. Quanto aos Rodrigues, cruzaram-se com os Nunes pelo menos desde meados do século XVII, pois o réu Diogo Rodrigues da Costa, preso em 1660, era, nessa data, viúvo de Serafina Nunes. Nesse mesmo ano, encontramos o primeiro cruzamento dos Rodrigues com os Henriques: o réu Jorge Rodrigues Dias era casado com Ana Simoa Henriques e era filho de António Rodrigues Dias e Brites Henriques. As três famílias fundem os laços matrimoniais – de acordo com os dados dos processos – em 1661: a ré Maria Henriques era casada com Simão Rodrigues Aires e era filha de Jerónimo Henriques e Filipa Nunes.
Em conclusão, pelo menos cerca de um século após a introdução da Inquisição em Portugal, as principais famílias judaicas nascidas ou/e residentes no Sabugal já estavam ligadas por laços matrimoniais. Esta situação persistiu até meados do século XVIII, data de que possuímos dados sobre processos inquisitoriais. Contudo, esta realidade certamente entrou pelo século XIX e, quiçá, ainda hoje se encontrarão, no Sabugal e em outros concelhos beirões, essa mistura de ancestrais famílias judaicas. Acresce recordar que a partir de 1765 deixou de haver processos inquisitoriais com acusações de práticas judaizantes. A isso não foi alheia a acção da legislação pombalina, que referimos anteriormente.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

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