Bródio festivo, de Brito Camacho

Republicano de primeira água e dirigente partidário empenhado nas lutas políticas do seu tempo, Manuel Brito Camacho chegaria, com a implantação da República, a ministro do fomento e alto-comissário em Moçambique. Também se notabilizou como tribuno, sendo considerado um dos mais exímios oradores da Câmara dos Deputados.

Mas este médico e militar de profissão ficaria sobretudo conhecido como jornalista, publicista e escritor. Algumas das suas obras literárias tiveram assinalável êxito, onde se destacam as narrativas e as reflexões políticas. Brito Camacho é porém hoje um escritor esquecido, impiedosamente cilindrado pelo tempo, sendo importante redescobrir a sua notável obra.
O seu livro «Gente Rústica» reúne um conjunto de memórias e de contos, cujo epicentro é o Alentejo, sua amada província de nascimento. O enquadramento é a planura pejada de searas e de sobreiros, onde se dá conta das formas de vida de antigamente, do tempo da infância e juventude do autor. É uma eloquente sucessão de textos que narram a vida do campo, falando nos defeitos e virtudes das pessoas que ali enfrentavam as rudezas de uma existência difícil. A cada página surge a descrição dos variados trabalhos campestres, as formas de divertimento do povo, as tradições, as festas e as romarias.
O livro é também autobiográfico, dando testemunho das experiências de vida do autor, que recorda com enlevo pessoas, imagens e acontecimentos que marcaram a sua juventude. No capítulo com a epígrafe «O Romana», aborda a vida de um criado do seu pai, que adorava andar no trato dos animais, desprezando tudo o mais que lhe surgisse pela frente. Descreve também a festa de S. Romão, em Rio de Moinhos, terra natal do autor, realizada anualmente no campo. Para além do serviço religioso, a romaria incluía arraial, feira de estalo, merenda e uma noite passada ao relento.
Assim descreve Brito Camacho o bródio campestre que a festa proporcionava:
«Estendem-se as toalhas no chão, muito brancas, e cada qual serve-se como pode, um garfo para três e um copo para todos. Na improvisada mesa dos lavradores há geralmente borrego, galinha ou peru e a todos se oferece de comer, umas vezes por mera delicadeza – é servido? –, outras vezes com a insistência de quem deseja que o oferecimento seja aceite.
– Chegue-se para cá, senhor Fulano, e coma alguma coisa. O que há está à vista. É pouco mas é oferecido de boa vontade. Isto em festas…
Poucos comem, mas quase todos bebem, e é de rigor a saúde:
– Pois lá vai pela saúde do sr. Fulano e da mais família.
Melancias vermelhas destacam-se nas toalhas brancas partidas com mestria, por forma que o coração, formando castelo, se ergue no meio das talhadas como uma fortaleza de ameias.
À melancia é que ninguém resiste.
– Isto não enche a barriga. Olhe que é muito boa. Derrete-se na boca como um torrão de açúcar.»
Brito Camacho, escritor hoje arredado dos escaparates e esquecido na história literária, bem merece ser revisitado. Homem de escrita simples e escorreita, pouco afeito a estilos elaborados, descreve genuinamente a vida antiga, reflecte sobre as tradições populares, põe a nu os encantos das paisagens campestres e opina abertamente sobre questões de política e religião.
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

2 Responses to Bródio festivo, de Brito Camacho

  1. Adérito Tavares diz:

    Caro Paulo Leitão Baptista
    Quero felicitá-lo pelos seus “Sabores Literários”, particularmente pelo seu persistente esforço no sentido de tirar do limbo alguns escritores notáveis, hoje quase esquecidos. Tal como diz, Brito Camacho foi um dos grandes tribunos republicanos, dentro e fora do Parlamento. Dotado de um excepcional talento para a oratória, não lhe faltava também um apurado espírito crítico, temperado por um excepcional sentido de humor. Permita-me que conte um pequeno episódio de que ele foi protagonista.
    Um dia, no Parlamento, a votação chegara a um impasse e um deputado da oposição tomou a palavra. Falou, falou, falou… durante três ou quatro horas, à espera que chegasse um correlegionário, para desempatar a votação. Brito Camacho pediu para fazer um aparte e exclamou: “Senhor deputado – eu não lhe invejo os dons de oratória; o que lhe invejo é a bexiga!”
    Um abraço, Paulo.
    Adérito Tavares

  2. joao valente diz:

    Infelizmente agora está na moda a literatura a metro. O deputado que discursava era o professor João Camoesas (que viria a morrer exilado por Salazar em Boston, onde era reputado professor de medicina e era avô do meu bom amigo e colega de faculdade João Camoesas), o qual discursou oito horas seguidas (toda a noite de 15 para 16 de Julho de 1925), para ganhar tempo para que uma delegação de deputados democráticos chegasse do Porto para votar a moção de desconfiança ao governo de António Maria Pereira (o célebre governo dos Bonzos). O aparte de Brito Camacho, revela bem o célebre humor virrinoso porque este era conhecido. Abraço arraiano!

Deixar uma resposta