«A mão de vaca» de Lazarillo de Tormes

Em meados do século XVI, em plena época renascentista, foi publicado em Espanha um romance revolucionário que, ao invés do canto da aristocracia dos livros de cavalaria, se atrevia a narrar a vida de um homem de baixa condição social que abnegadamente lutava pela sobrevivência.

«Lazarillo de Tormes» inaugurou um novo género literário: o pícaro. Trata-se de uma narrativa burlesca, que usa uma linguagem irónica e popular, por vezes muito grosseira e contundente, que esbarra com o género literário dos livros que retratavam os cavaleiros andantes da Idade Média, que na altura tinham um sucesso extraordinário.
De autor anónimo, o «Lazarillo de Tormes» expõe a aventura de um homem de baixa condição social, revelando as suas misérias e grandezas. Órfão de pai, um rapaz pobre de Salamanca é entregue aos cuidados de um cego, que abruptamente o explora e o faz passar fome. Fugindo ao cego que o maltratava, o moço anda depois de dono em dono, sofrendo sempre maus-tratos e opressões. Vivia uma vida precária, de sucessivos vexames e de muita miséria no quotidiano, sem que tivesse sonhos nem alimentasse perspectivas de futuro. Lázaro, assim se chamava o rapaz, tinha fome e a sua razão de existir era conseguir comida para satisfazer o apetite.
Todo o livro é uma crítica feroz à sociedade do tempo em que o pobre Lázaro percorreu Espanha em busca de alimentação. Os sabores gastronómicos ibéricos estão sempre presentes nos relatos, mas prevalecem os paladares pobres e simples do povo, que correspondiam à também elementar ânsia de Lázaro por se alimentar. Ainda que apanhasse pão, seco e duro ele fosse, isso era divinal para o pobre rapaz. Pão e vinho eram, aliás, os elementos capitais da alimentação que este livro de privações de vida austera retrata. O importante era mesmo matar a fome, que imperava a cada instante.
Condói-se o leitor que atente na vida terrível deste anti-herói, ainda que se ria com a forma pícara em que o livro está escrito. Alimentam-se bem alguns dos amos de Lázaro, que ainda folgam com a miséria do criado:
«Aos sábados come-se nesta terra cabeças de carneiro, e ele mandava-me comprar uma, que custava três maravedis. Cozia-a e comia-lhe os olhos, e a língua, e o pescoço, e os miolos, e a carne e as maxilas, e a mim dava-me os ossos roídos. Punha-os no prato dizendo: “Toma lá, come, e regala-te, que o mundo é teu. Tens melhor vida que o papa”.»
A dado ponto, dá-se porém o contraste, quando Lázaro serve um desafortunado escudeiro que, nada lhe dando de comer, o impeliu a ir pedir por caridade. Uma tarde volta a casa do amo trazendo numa ponta da fralda um naco de pão e uma maravilhosa mão de vaca, que acabou por partilhar com o escuteiro que, também faminto, o observava a comer as papas:
«– Digo-te Lázaro, que pões no comer mais requinte que em minha vida vi a outra pessoa, e que ninguém te poderá ver comer que não lhes dês gana de fazer outro tanto, mesmo que não tenha apetite.
(…)
– Senhor: a boa ferramenta faz o bom artífice. Este pão está saborosíssimo, e esta mão de vaca tão bem cozida e temperada que não haverá ninguém que não fique de água na boca se a cheirar.
– É mão de vaca?
– Sim, senhor.
– Digo-te que é o melhor petisco do mundo e que não há faisão que me saiba tão bem.
– Pois prove, senhor, e veja que tal está.
Pus-lhe nas unhas a unha da vaca e três ou quatro pedaços de pão do mais alvo. E ele sentou-se a meu lado e começou a comer com quanta gana tinha, roendo cada ossinho daqueles melhor que um galgo seu o faria.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

One Response to «A mão de vaca» de Lazarillo de Tormes

  1. joao valente diz:

    A fome é bom tempero!

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