Roubo do Sagrado no Vale da Senhora da Póvoa

É necessário um acto de desagravo à Senhora da Póvoa.

Pinharanda Gomes - Carta DominicalEstão frescas na nossa memória as notícias de dois graves sacrilégios: com uma serra de serrar rocha, alguém cortou e roubou as cruzes manuelinas (do século XVI) que desde há séculos estavam implantadas no adro da Matriz de Loures e nos Quatro Caminhos de Frielas. Inacreditável! Para que irão e para que servirão essas cruzes, emblemas do património nacional, acerca de cujo destino não vemos as autoridades em acção. É pedra… Se fossem notas!
Somos agora feridos com uma punhada no peito, quando soubemos que a veneranda e antiga imagem de Nossa Senhora da Póvoa de Vale de Lobo tinha sido roubada do seu santuário.
Nossa Senhora da Póvoa é, desde dos fins do século XVIII, o santuário mariano da Beira Baixa e de Ribacoa. Os mais novos não sabem, mas os da minha geração, jovens nos meados do século XX, ainda nos lembramos das filas de carros de tracção animal (bois, burros ou cavalos) enfeitados com festões e colchas de seda, transportando famílias inteiras, para a Senhora da Póvoa, logo na segunda-feira de Pentecostes. Romagem para dois dias, levava-se de comer o bastante e, à ida e à volta, era costume parar no sítio do Castanheiro das Merendas, já muito depois do Sabugal, para alimentar os animais e as pessoas.
Senhora da PóvoaRomaria de piedade, de promessas e também das folias que vinham de Monsanto e de Penamacor, com os seus estandartes, descantes e bombos; e, algumas vezes, toldados pelo vinho, moços que acabavam em lutas de vida e de morte. Leiam o «Maria Mim» de Nuno de Montemor e a «Celestina» de Joaquim Manuel Correia.
O ladrão deve ter-se arrependido, e abandonou a secular e sagrada imagem, debaixo de uma árvore, onde gente do povo a encontrou. Já devolvida à sua santa casa, falta agora que os povos da Beira-Côa e da Beira da Malcata e do Meimão, procedam a uma cerimónia de desagravo, na presença de todas as autoridades civis, militares e políticas da região. Não é possível que nada se faça como se nada tivesse acontecido:

«Nossa Senhora da Póvoa
Tem um galo no andor,
Cada vez que o galo canta
Acorda Nosso Senhor»

«Carta Dominical», opinião de Pinharanda Gomes
pinharandagomes@gmail.com

2 Responses to Roubo do Sagrado no Vale da Senhora da Póvoa

  1. Ramiro Matos diz:

    Ateu ou agnóstico (os crentes que decidam…) que sou, soube este fim de semana desta notícia, a qual me deixou indignado.

    Dsde muito criança que o meu avô tinha como prática ir com o neto (eu) à Sra da Póvoa.
    Íamos na camioneta de Belmonte que na altura havia no Sabugal e que nesse dia fazia várias “carreiras” para aquele santuário.
    Mesmo já adolescente e adulto, e embora não vivendo no Sabugal, sempre nesse dia vinha ter com o meu avô para irmos à Sra da Póvoa.
    E tenho um elevado respeito por todos os que acreditam e ali vão, seja dia de romaria ou não, pedir as boas graças da Sra da Póvoa, ou agradecer algo de bom que consideram ser sua obra.
    Claro que os ladrões não queriam ofender a fé, queriam o lucro fácil proveniente do criminoso que está sempre disposto a pagar por peças antigas, seja qual for a sua proveniência.
    Felizmente, e ao que me disseram no Sabugal, tinha havido o cuidado de mandar fazer uma réplica, pelo que rapidamente os ladrões perceberam estar perante algo sem valor de mercado.
    O roubo de uma imagem religiosa com o significado social da Senhora da Póvoa, para além de ser um crime, tem um impacto muito elevado sobre as pessoas, mesmo não crentes como eu.
    Por isso me alegra saber que foi possível recuperar a imagem roubada, e me alegra igualmente saber que os responsáveis religiosos pelo Santuário tiveram o cuidado de mandar fazer uma réplica.

    Não sei se, no dia da romaria, a imagem que está presente é a original ou a cópia. Mas penso que a todos os romeiros que ali forem na próxima Romaria,
    era devida a persença da figura original e que essa era a melhor forma de responder à ganância de alguns…

    Ramiro Matos

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