Processos da Inquisição referentes ao Sabugal (2)

Jorge MartinsIDADE E SEXO DOS RÉUS SABUGALENSESDe um total de 143 processos das Inquisições de Lisboa, Coimbra e Évora referentes a naturais ou/e residentes no actual território do concelho do Sabugal entre os séculos XVI e XVIII, apenas 81 (57%) exibem a idade dos réus na descrição elaborada pela Torre do Tombo.

É com aqueles em que estão identificadas as idades que vamos trabalhar estatisticamente. Dos 81 processos, 72 (88,9%) referem-se a réus acusados de judaísmo e 9 (11,1%) a outras acusações. É uma proporção compatível com a percentagem de processos de acusação de judaísmo (81,1%) no total dos 143 processos em estudo, como mostrámos na crónica anterior.

QUADRO 1 – PROCESSOS COM A IDADE DOS RÉUS
N.º DE PROCESSOS N.º DE PROCESSOS COM AS IDADES DOS RÉUS
143 81 (57%)
QUADRO 2 – PROCESSOS COM AS IDADE DOS RÉUS ACUSADOS DE JUDAÍSMO
COM AS IDADES ACUSADOS DE JUDAÍSMO OUTRAS ACUSAÇÕES
81 72 (88,9%) 9 (11,1%)

Quanto às idades dos réus, o mais novo tinha 14 anos quando foi preso nos cárceres da Inquisição e o mais velho tinha 80 anos (ambos estavam acusados de judaísmo). Eis a lista completa das idades: 14 anos: 1 processo; 15A: 2P; 17A: 1P; 18A: 3P; 19A: 4P; 20A: 1P; 21A: 1P; 22A: 1P; 23A: 2P; 24A: 2P; 25A: 2P; 28A: 5P; 30A: 7P; 31A: 3P; 32A: 1P; 33A: 6P; 34A: 1P; 35A: 3P; 37A: 1P; 38A: 2P; 40A: 5P; 41A: 1P; 42A: 1P; 43A: 1P; 44A: 1P; 45A: 1P; 46A: 1P; 47A: 2P; 50A: 3P; 55A: 1P; 56A: 3P; 60A: 6P; 64A: 1P; 65A: 1P; 68A: 1P; 70A: 1P; 75A: 1P; 80A: 1P.
Se hierarquizarmos as idades mais frequentes, obtemos a seguinte lista:

QUADRO 3 – IDADES MAIS FREQUENTES DOS RÉUS
IDADES 30 33 60 28 40 19 18 31 35 50 56
N.º DE RÉUS 7 6 6 5 5 4 3 3 3 3 3

Para se tornarem mais claras as faixas etárias com maior incidência, atentemos no seguinte gráfico:

Deste gráfico, ressaltam à vista as faixas etárias dos 31 aos 40 anos (22 processos) e dos 21 aos 30 anos (20 processos). Juntas, estas duas faixas etárias representam mais de metade (52%) dos processos com referência às idades dos réus. Assim, e em conclusão, os sabugalenses mais assolados pela Inquisição viviam na idade adulta (21-40 anos). Não deixa de ser significativo que a terceira faixa etária mais encarcerada estivesse abaixo dos 21 anos, como se pode verificar pelo quadro abaixo:

QUADRO 4 – HIERARQUIZAÇÃO DAS FAIXAS ETÁRIAS DOS RÉUS
FAIXA ETÁRIA 31-40 21-30 14-20 41-50 51-60 61-70 71-80
N.º DE
PROCESSOS
22
(
27,16%)
20
(24,69%)
12
(14,81%)
11
(13,58%)
10
(12,34%)
4
(4,93%)
2
(2,46%)

Quanto às idades dos réus, resta acrescentar os 9 processos de não acusados de judaísmo: 2 processos de 28 anos; 2 de 30 anos; 1 de 33 anos; 1 de 43 anos; 1 de 55 anos; 1 de 56 anos e 1 de 70 anos, ou seja, 4 da faixa dos 21-30 anos; 1 da faixa dos 31-40 anos; 1 da faixa dos 41-50 anos; 2 da faixa dos 51-60 e 1 da faixa dos 61-70 anos. Nada que contrarie a tendência geral das idades dos encarcerados pelas Inquisições.
Estes dados permitem-nos constatar que o judaísmo resistiu no concelho do Sabugal ao longo dos mais de dois séculos de investidas do Santo Ofício, pois os adultos e os jovens, que teriam mais a perder do que os idosos, não abandonaram a prática da sua religião ancestral, apesar das conhecidas sevícias a que eram submetidos nos cárceres da Inquisição. Não eram os velhos descuidados que caíam nas malhas do “fero monstro”, nome por que foi designada a Inquisição por um judeu português exilado, chamado Samuel Usque, que publicou, em Ferrara (Itália), uma notável obra em língua portuguesa, intitulada “Consolação às Tribulações de Israel”. Pelo contrário, eram os homens e as mulheres mais maduros e activos que persistiam em desafiar os inquisidores
E, por falar em mulheres, elas foram quase tantas como os homens a sofrer as agruras da sua coragem religiosa. Com efeito, os 143 processos estavam assim repartidos por sexo: 77 homens, ou seja 53,85% e 66 mulheres, ou seja 46,15%.
Para se poderem comparar os números de processos por sexo, referentes a cristãos-novos, cristãos-velhos e de situação social desconhecida, observe-se o quadro que segue:

QUADRO 4 – HIERARQUIZAÇÃO DAS FAIXAS ETÁRIAS DOS RÉUS
FAIXA ETÁRIA 31-40 21-30 14-20 41-50 51-60 61-70 71-80
N.º DE
PROCESSOS
22
(27,1%)
20
(24,6%)
12
(14,8%)
11
(13,5%)
10
(12,3%)
4
(4,9%)
2
(2,4%)

Quanto às idades dos réus, resta acrescentar os 9 processos de não acusados de judaísmo: 2 processos de 28 anos; 2 de 30 anos; 1 de 33 anos; 1 de 43 anos; 1 de 55 anos; 1 de 56 anos e 1 de 70 anos, ou seja, 4 da faixa dos 21-30 anos; 1 da faixa dos 31-40 anos; 1 da faixa dos 41-50 anos; 2 da faixa dos 51-60 e 1 da faixa dos 61-70 anos. Nada que contrarie a tendência geral das idades dos encarcerados pelas Inquisições.
Estes dados permitem-nos constatar que o judaísmo resistiu no concelho do Sabugal ao longo dos mais de dois séculos de investidas do Santo Ofício, pois os adultos e os jovens, que teriam mais a perder do que os idosos, não abandonaram a prática da sua religião ancestral, apesar das conhecidas sevícias a que eram submetidos nos cárceres da Inquisição. Não eram os velhos descuidados que caíam nas malhas do “fero monstro”, nome por que foi designada a Inquisição por um judeu português exilado, chamado Samuel Usque, que publicou, em Ferrara (Itália), uma notável obra em língua portuguesa, intitulada “Consolação às Tribulações de Israel”. Pelo contrário, eram os homens e as mulheres mais maduros e activos que persistiam em desafiar os inquisidores
E, por falar em mulheres, elas foram quase tantas como os homens a sofrer as agruras da sua coragem religiosa. Com efeito, os 143 processos estavam assim repartidos por sexo: 77 homens, ou seja 53,85% e 66 mulheres, ou seja 46,15%.
Para se poderem comparar os números de processos por sexo, referentes a cristãos-novos, cristãos-velhos e de situação social desconhecida, observe-se o quadro que segue:

QUADRO 5 – SEXO DOS RÉUS
SEXO CRISTÃOS-NOVOS CRISTÃOS-VELHOS DESCONHECIDOS TOTAIS
HOMENS 52 (67,5%) 10 (13,0%) 15 (19,5%) 77 (53,8%)
MULHERES 50 (75,7%) 5 (7,6%) 11 (16,7%) 66 (46,1%)

«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins
martinscjorge@gmail.com

6 Responses to Processos da Inquisição referentes ao Sabugal (2)

  1. joao valente diz:

    É uma conclusão interessante e sustentada documentalmente a persistência do judaísmo no Sabugal, como demonstrou. Seria interessante saber os ofícios e ocupações tabém….

  2. j a diz:

    Saber os apelidos desses réus também seria interessante. Pois assim se descobririam as raízes judaicas da quase totalidade da actual população portuguesa.

    • Devo confessar que os comentadores desta série de artigos estão a acertar em cheio no percurso que estou a fazer. Depois das actividades profissionais, agora são os apelidos. Muito bem, posso adiantar que será essa a ordem das duas príximas crónicas e já estão feitas. Os apelidos deram resultados muito curiosos, que veremos aqui dentro de duas semanas.
      Obrigado pelos comentários, pois, se não estivesse a satisfazer a vossa curiosidade, teria que repensar a minha estratégia de análise dos processos da Inquisição referentes ao concelho do Sabugal.

  3. J L diz:

    Interessante seria também publicar como se desenrolavam os processos, como se iniciava, como prosseguia, como eram inquiridos, como se podiam defender, e como transitavam os processos deste órgão, que era smi canónico e smi público, para o tribunal secular da jurisdição real que deveria então confirmar a condenação e executá-la, li em tempos um livro de António José Saraiva que abordava o tema mas desenvolvia-o pouco, e como tem acesso a informação documental seria interessante na minha opinião.

    • Esta solicitação será mais morosa, pois implica a leitura detalhada dos processos, tarefa morosa e nada fácil. Isso, reconheço desde já, que durará meses até chegar a resultados publicáveis.
      Em todo o caso, aconselho-o(a) a ler os estudos de António Borges Coelho, “Inquisição de Évora. Dos primórdios a 1668” e/ou o de Francisco Bethencourt, “História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália”.
      Boas leituras.

Deixar uma resposta