Figuras típicas (2) – Tonho d’Aldeia

Natural de Aldeia do Bispo (Penamacor), de seu nome António Afonso Ramos, o Tonho era uma das figuras mais típicas que apareceram no concelho do Sabugal, nas décadas de 40 e 50, do século XX.

Joao Aristides DuarteSegundo me disse o João Manata, cuja mãe era natural de Aldeia do Bispo (Penamacor), o Tonho era aí conhecido pelo Tonho Tonho.
No concelho do Sabugal era conhecido pelo Tonho D’Aldeia.
Corria as terras do concelho, sobretudo as que ficavam no caminho de Penamacor para a zona raiana do concelho do Sabugal.
Também era certo e sabido que essa figura típica não falhava uma romaria da Senhora da Póvoa e outras romarias nos concelhos de Sabugal e Penamacor.
Quem acompanhava o Tonho era o seu pai, o seu tio e, por vezes a sua mãe e a sua irmã. Traziam um burro, com uns alforges, que esperavam levar cheio, no regresso à sua terra-natal.
No Soito ficavam instalados na casa da sra. Maria José Martins.
O Tonho dava voltas ao Soito, com o seu pai, cego de nascença e que tocava guitarra feita de folha-de-flandres e o seu tio, que cantava com voz muito esganiçada. As cantigas que eles tocavam e cantavam eram referentes a desgraças que se tinham passado em várias das localidades por onde tinham passado, nomeadamente mortes por enforcamento e outros acontecimentos semelhantes, um reportório que já vinha desde tempos medievais, quando era através das «cantigas do ceguinho» que muitos acontecimentos passavam de boca em boca.
Na época das malhas, ao Tonho e à família davam grãos de trigo e centeio que eles colocavam no alforge, para depois ser vendido e com isso arranjarem algum sustento.
Certa vez o Tonho, no Soito, perdeu o chapéu e, então, passou a pedir um chapéu a toda a gente, até que arranjou muitos. Quando questionado, porque continuava a pedir, respondeu: «Se não pedir é que não me dão…»
Quando o pai e a mãe do Tonho faleceram, o Tonho continuou a vir ao Soito, mesmo depois da morte da sr.ª Maria José Martins. Nessa altura ficava instalado na casa do sr. Alfredo Manso, o futuro sacristão do Soito.
Há uns 15 anos vi o Tonho em Malcata, na Festa de Agosto, no Largo do Rossio. A minha mãe, que o conhecia do Soito, foi-lhe falar. Nessa altura ele disse que só já queria «ferrinhos», isto é dinheiro, já não estando interessado em produtos para a alimentação.
Há três anos, em Monsanto, onde se vendem azulejos e outras recordações do Tonho, e onde aparece sempre escrito «Figura Típica», a senhora da loja comercial referiu, no entanto, que as pessoas do concelho de Penamacor já não lhe davam «ferrinhos», porque constava que alguns familiares lhe ficavam com eles. Quem sabia disso continuava a dar-lhe comida e não «ferrinhos».
Uma das suas características era a de pregar sustos às raparigas. Ainda hoje há quem se lembre (por comentários inseridos em blogues) dos sustos que apanhou, quando era jovem, pelo Tonho D’Aldeia.
A morte do Tonho, que aconteceu no dia 15 de Agosto de 1997, nas Aranhas (Penamacor) foi notícia no «Jornal do Fundão» e noutros jornais regionais da Beira Baixa.
«Memória, Memórias…», opinião de João Aristides Duarte

akapunkrural@gmail.com

9 Responses to Figuras típicas (2) – Tonho d’Aldeia

  1. o tonho d aldeia vagueava muitas vezes na aldeia das Aranhas Penamacor onde morava uma irmã e ainda tem dois sobrinhos, que por sinal são meus primos, realmente era uma figura típica de toda a raia, e estava constantemente a pregar sustos não só as raparigas como também a nos quando éramos mais novos, tem uma historia de quando andava a pedir mais o pai (cego) e o pai lhe disse oh tonho cheira a chouriço e o tonho não ligou, depois de comer o mesmo viu um sobreiro levou o pai ate junto dele e disse salta pai que é rego, coitado foi direito com a cabeça ao sobreiro,ah tonho que me matas, oh pai do diabo a pouco cheiro-te a chouriço e agora não te cheirou a cortiço… esta historia foi-me contada pelos meus pais que são das Aranhas

  2. Foi com muito agrado que li o artigo sobre o “nosso” Tonho da Aldeia.
    Ele também vinha muito para estas bandas.
    Reparei que não constava a sua fotografia.
    No site desta freguesia na galeria de fotos – pessoas, está uma foto que eu próprio lhe tirei à minha porta aqui à alguns anos.

    Cumprimentos

    João Nunes Sobreira – Presidente da Junta de Freguesia de Cebolais de Cima, concelho de Castelo Branco.

  3. Le Vic diz:

    Lembro-me que nós, a rapaziada do Sabugal, não lhe chamávamos Tonho d’Aldeia mas antes Ti Tonho Malguinhas (pois custumava andar com uma espécie de malga atada com um baraço na parte da frente do casaco ou das calças).
    E realmento do que melhor me lembro era dos sustos que pregava, pois tinha por hábito aparecer sorrateiramente por trás das pessoas e fazia um ruído inesperado que sempre nos apanhava de surpresa…bela personagem.

  4. João Duarte diz:

    Como se pode ver na fotografia, entretanto acrescentada à crónica, o Tonho lá está com a tal malguinha.

  5. Maria do Céu Cruz diz:

    Fui eu que descobri a foto do Tonho das Aldeias na net então resolvi metê-la no Facebook Amigos de Toulões espero que toda a gente tenha gostado de voltar a ver esta figura tão conhecida

  6. Gil Pereira diz:

    Também o Tonho foi visitante e querido nas aldeias dos Três Povos-Fundão. Muito acarinhado a quem davam dormida e comida, inclusive à sua companheira ( cadela). Davam-lhe tantas filhós e outros alimentos que ele e a sua fiel amiga que o acompanhava por algumas vezes, dormiam em palheiras ou cortes, em edredões de palha ao lado de grandes quantidades de filhós. O Tonho D`aldeia bem como os irmãos Farias dos Três Póvos, entre outros, foram aqueles que perderam a vergonha de pedir esmola, porque havia aqueles que passavam fome mas não tinham coragem de a pedir, principalmente nos anos 50 e ainda nos anos 60 quando a bolsa de emprego era a taberna.
    Daqui o meu tributo ao Tonho que nos marcou como crianças pelas suas brincadeiras e nos fez ver as diferenças sociais nas nossas aldeias nos anos que antecederam a emigração.
    Para ele um muito obrigado e para quem acredita que Deus existe,estará ocupar um lugar no Céu.
    Um até já, Beirões.
    Um abraço

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